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  1. Passista, Mestre-sala, Porta-bandeira, Rainha, Velha Guarda, Baianas: personagens que fizeram parte do meu cotidiano nos últimos meses, durante o pré-carnaval na Cidade do Samba. O tour involuntário que fiz por quadras de algumas das Escolas do Rio de Janeiro comprovou a força dessa manifestação cultural popular.

    Sim, porque, a despeito das transformações inevitáveis pelas quais passou o Carnaval (leia mais aqui), ele ainda possui o apelo capaz de mobilizar, e às vezes influenciar, pessoas das mais diversas camadas sociais. É uma celebração que aproxima ricos e pobres, estrangeiros e brasileiros, celebridades e anônimos, Zona Sul e Zona Norte, contribuindo em certa medida para diminuir abismos que separam esses vários “mundos”.

    “Só não vai quem já morreu”

    Repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro arrepiaram pela primeira vez neste pré-carnaval em setembro, pelas mãos dos integrantes da Surdo Um, na quadra da Mangueira. Era a semifinal da escolha do samba enredo que, neste ano, homenageará Cuiabá, a capital do Mato Grosso, com um patrocínio de mais de R$ 7 milhões da prefeitura da cidade.

    Torcidas organizadas defendem samba preferido

    Contrastando com as cifras exorbitantes citadas, a agremiação situada aos pés do morro da Mangueira foi a mais “comunidade” dentre as que visitei. Os moradores do bairro da Zona Norte prestigiam, em peso, formando torcidas organizadas pelo samba preferido e, ao mesmo tempo, acolhendo bem os que "vêm da Zona Sul". É de arrepiar a participação popular na tradicional Verde e Rosa de Cartola, Beth Carvalho, Chico Buarque, Alcione e tantos outros bambas.

    Na Academia do samba

    A Rainha da Bateria, Viviane Araújo, é a maior estrela da festa na quadra do Salgueiro. A celebridade se mistura aos anônimos da Furiosa e, comandada pelo mestre Marcão, toca tamborim fazendo todas as marcações e “paradinhas”, sem perder o ritmo. A simpatia e alegria da moça contagiam e deixam até as mulheres admiradas.



    É a quadra mais “pop” dentre todas aquelas que frequentei, ou seja, a que mais mistura pessoas de classes diferentes. Além de playboys e as patricinhas (esteriótipos utilizados apenas para ilustrar, mas que no fundo são tão preconceituosos quanto qualquer esteriótipo) e a comunidade em peso, centenas de gringos de todas as partes do mundo frequentam a quadra. Alguns desses estrangeiros levam até professores de dança brasileiros, na tentativa de aprender a malemolência tupiniquim. Foi pra sambar até o dia amanhecer.

    “A capital do samba que me faz sonhar”

    O bairro de Madureira e Paulinho da Viola serão os grandes homenageados deste ano pelo enredo da Portela. Ir até a capital do samba pela primeira foi representativo, pois estava num dos berços do samba carioca. O samba-enredo da escola – o melhor este ano, em minha opinião –, já saiu da Sapucaí direto pras rodas de samba Brasil afora.

    A quadra reformada recentemente tem um clima de cidade histórica, com placas de ruas fictícias homenageando integrantes, postes de luz baixos, bancos de praça, ou seja, uma verdadeira "capital do samba". Além do embelezamento, a casa da Portela também ganhou quadra de futebol e salas de aula para os projetos sociais tocados ali.

    Como diz uma amiga: “Quando entrou aquela Velha Guarda sambando eu cheguei a me arrepiar”. Tudo era belo na quadra da Majestade do Samba, desde as fantasias que, mesmo para um ensaio, eram vistosas e bem cuidadas, até os moradores de Madureira, Oswaldo Cruz e adjacências. Crianças, jovens, velhos, famílias, todos juntos sambando “feito uma reza, um ritual”.


    Videoclipe lançado esta semana pela Portela

    “Tijuca querida”

    A Escola que coleciona campeonatos nos últimos tempos e que é, todos os anos, uma das mais aguardadas na Sapucaí me decepcionou no quesito "ensaio de quadra". O som abafado e cheio de ruídos que impede o entendimento das letras e transforma a percussão da bateria em um barulho incômodo, não faz jus à agremiação que o carnavalesco Paulo Barros tem conduzido com maestria.

    O remédio foi cair no samba ao lado de familiares e amigos que foram comigo comemorar o aniversário do meu amor. Não fosse isso, talvez a noite não teria sido tão boa, infelizmente. A Rainha de Bateria da escola do Borel, Juliana Alves, sambou no meio do povo (e sambou até a última música, diga-se de passagem). Assim como na Portela, na Unidos da Tijuca o destaque foi para as iguarias que as donas preparavam e vendiam nas barracas: uma delícia.

    “Berço dourado do samba”

    Os dizeres pintados na parede debaixo de um viaduto em São Cristóvão não poderiam ser mais apropriados: "Berço dourado do samba". Noite de uma segunda-feira chuvosa e lá fui eu para o ensaio de rua da Paraíso do Tuiutí, escola do Grupo de Acesso, na qual desfilo este ano. Como chovia, o ensaio teve que ser embaixo deste viaduto. A bateria respondia de forma precisa aos comandos do mestre que fazia diferentes sinais com as mãos, cada um correspondente a uma cadência ou “parada”. Parecia um maestro regendo a sinfonia.

    Neste dia ficou ainda mais claro que o envolvimento popular com a Festa é genuíno. Pessoas da comunidade trabalhando duro pra fazer o Carnaval de uma escola pequena, a maioria delas de forma voluntária, ou recebendo muito pouco por isso. Dos coordenadores de Ala aos integrantes da comissão de frente, uma dedicação bonita de se ver. Aconteceu o que eu não esperava. E o que me decepcionou muito. A direção da escola em questão resolveu de última hora que as fantasias que seriam distribuídas para algumas pessoas, serão na verdade vendidas para outras que têm pra pagar. Ou seja, estavam precisando de componentes, mas como apareceu quem comprasse, descartaram quem estava "afim". E isso mudou minha opinião sobre o Carnaval? Não, ainda não...

    “Chão da poesia, celeiro de bamba”

    A Vila Isabel vem com tudo este ano e promete um carnaval digno de campeonato ao falar da agricultura familiar e das tradições do interior. Mais um enredo patrocinado, a escola viu seu nome envolvido em uma polêmica nos últimos dias: um dos financiadores é a Basf, empresa que produz e vende agrotóxicos (leia mais aqui).

    O patrocínio foi considerado uma contradição por associações contrárias ao uso de agrotóxicos (a Basf é produtora), uma vez que o enredo exalta o alimento produzido de forma artesanal por famílias de pequenos agricultores espalhados pelo Brasil. O repúdio se torna legítimo quando notamos que o enredo fala da proteção da terra, tão maltratada por agrotóxicos. Há que se pensar uma solução, uma vez que foram os agrotóxicos que permitiram a produção em larga escala, para alimentar a população mundial.
    Polêmicas a parte, o bairro que traz em suas calçadas desenhos de notas musicais de Noel Rosa tem recebido ensaios de rua emocionantes. O belíssimo samba (campeão em algumas eleições promovidas antes do carnaval) composto por Arlindo Cruz, Martinho da Vila, André Diniz, Tonico da Vila e Leonel é entoado na ponta da língua pelos milhares de pessoas que acompanham o desfile.

    Durante os meses que antecedem o maior Carnaval do mundo, a cidade respira samba. E quem mora por aqui e gosta acaba se contagiando. O pré foi muito bom, só não foi melhor do que será o Carnaval.
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