17 de fevereiro de 2012

Coração a batucar

Maria Rita

Batuque o coração para me ver chegar
Que eu abro meu cordão quando você passar
E o nosso bloco sobe a ladeira da ilusão
De pé no chão...

Batuque o coração que a gente é carnaval!
E nada irá conter essa folia
Atrás do nosso amor
Até quando esse samba tocar
Vem marcando em nosso peito
Coração a Batucar

Pra gente ser feliz
Pra gente desfilar por essa vida

10 de fevereiro de 2012

A banda do Camelo e a banda do Amarante na lista de belas parcerias

Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo fazem parte de uma das bandas mais influentes dos últimos 15 anos. Los Hermanos é referência para várias bandas e cantores da cena musical atual. Fazem parte do início do cenário de propagação cultural pelas redes sociais sem a intermediação da grande mídia. O boca a boca da internet.

Mas o que Los Hermanos tem a ver com Duetos e Parcerias? Explico. É que para os fãs da banda (para os fãs! Não para a banda) sempre existiu uma diferenciação nítida entre os dois Hermanos. É como se houvesse duas bandas distintas em uma só. Quantas vezes estes mesmos fãs não se pegam debatendo quem é o melhor: Amarante ou Camelo? Quais são as melhores músicas: as de um ou as de outro?

Para quem gosta do som é fácil distinguir quando algo tem a mão desse ou daquele. Eles são diferentes. O jeito de cada um de conceber música também é diferente. Tanto que saíram para projetos solo tão distintos um do outro. Porém, nos projetos solo, apesar de muito bons, fã que é fã sentiu que faltava alguma coisa.

Isto porque, é a parceria entre os dois que faz da banda o que ela é. Musicalmente, Amarante e Camelo se completam e fazem o som dos Hermanos soar tão bem e atingir tantas pessoas. E formar uma legião de fãs tão “fiéis” e “dedicados”. Não digo que os outros integrantes não sejam importantes para a banda, mas é a personalidade forte dos “líderes” que faz a marca Los Hermanos tão singular.

É por isso que eles figuram na minha lista de belos duetos/parcerias da música. Escolhi uma canção em que os dois cantam juntos - algo difícil de encontrar, pois a divisão é tanta que quase nunca dividem os vocais. A canção Lisbela é um xote gostoso, composto por Caetano Veloso e José Almino para o filme Lisbela e o Prisioneiro.



Eu quero a sina de um artista de cinema
Eu quero a cena onde eu possa brilhar
Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo
Um beijo imenso, onde eu possa me afogar
Eu quero ser o matador das cinco estrelas
Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão
A Patativa do Norte, eu quero a sorte
Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar
Pra me danar, por essa estrada, mundo afora, ir embora
Sem sair do meu lugar
Ser o primeiro, ser o rei, eu quero um sonho
Moça donzela, mulher, dama, ilusão
Na minha vida tudo vira brincadeira
A matinê verdadeira, domingo e televisão
Eu quero um beijo de cinema americano
Fechar os olhos fugir do perigo
Matar bandido, prender ladrão
A minha vida vai virar novela
Eu quero amor, eu quero amar
Eu quero o amor de Lisbela
Eu quero o mar e o sertão
Eu quero amor, eu quero amar
Eu quero o amor de Lisbela
Eu quero o mar e o sertão

31 de janeiro de 2012

Zé e Paulinho

Quando o assunto é fazer um bom dueto, Marisa Monte é professora. Desde o início de sua carreira que a cantora nos brinda com belos encontros musicais. Velha Guarda da Portela, Novos Baianos, Ed Motta, Adriana Calcanhoto, Renato Russo, David Byrne, e os tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, com quem ela tem um CD e mais uma lista de músicas espalhadas por projetos isolados e álbuns.

Mas são os encontros com Paulinho de Viola que têm proporcionado os melhores momentos desta grande artista. É o encontro do samba elegante de Paulinho com a voz brilhante de Zé (o apelido de Marisa), interpretando músicas que são poesia pura.

Nesta seleção, trechos do documentários "O Mistério do Samba" e "Meu Tempo é Hoje":







26 de janeiro de 2012

Os acústicos

A fórmula já é conhecida e batida. Uma banda decadente (ou não) do rock Brasil dos anos 80 grava seus antigos sucessos em versões acústicas, com instrumentos sofisticados. Chama uma meia dúzia de convidados para cantar junto e pronto: sucesso de vendas e, às vezes, um novo fôlego pra carreira.

Alguns desses acústicos acabaram proporcionando encontros memoráveis que valem a pena ser citados na minha lista. Um deles é o da banda paulista Ira! com a roqueira baiana (!) Pitty. O Ira! é um grupo que definitivamente não faz a minha cabeça. Melodias muito pesadas, letras com temática urbana ao extremo e um vocalista mediano. Tem o Edgar Scandurra, que é uma exceção, com uma das melhores guitarras da música brasileira. Mas com Ira! a coisa não funciona (a banda anunciou seu fim em 2007).

Pitty é das poucas roqueiras da atualidade que conseguiram fazer sucesso no mainstream. Foi considerada por Lobão, a última cantora (até então, em 2011) com a atitude genuinamente rock ‘n’ roll. Provavelmente ele estava falando da característica “revoltadinha” da baiana que desde o início de sua carreira vem quebrando alguns paradigmas (o fato de ser uma cantora baiana é talvez o maior deles). Das letras com tom de rebeldia, como faziam os roqueiros à moda antiga. E claro, das características, digamos, físicas de uma verdadeira rockstar: maquiagem forte, roupas de tons escuros e alguns metais e tatuagens pelo corpo.

O fato é que essa música, Eu quero sempre mais, cantada junto com Pitty salva o álbum acústico do Ira! A letra é boa, a voz e interpretação da moça são ótimas, e a junção com a voz regular de Nazi soou muito bem. Fez com que essa canção figurasse entre as mais tocadas no ano de 2005 (ECAD) e até hoje bem executada em rodas de viola por aí.




Outros bons encontros saídos dos acústicos:

Rita Lee e Milton Nascimento – Mania de Você





Kid Abelha e Lenine – Na rua, na chuva, na fazenda





Gal Costa e Zeca Baleiro – Vapor barato/Flor da pele





Sandy e Júnior (!) e Marcelo Camelo – As quatro estações (nunca pensei que citaria essa dupla infantil em uma lista de boas canções, mas com a participação de Camelo o negócio funcionou muito bem)





Titãs e Fito Paez – Go Back





20 de janeiro de 2012

Belos duetos da nossa música (lista)

Resolvi criar nova lista de canções. Dessa vez com os melhores duetos e parcerias musicais da minha playlist. Um dueto ou uma parceria, é a reunião de músicos às vezes tão distintos, às vezes tão semelhantes, e transformar músicas já bonitas, em momentos memoráveis e únicos. Às vezes bastam dois banquinhos, um violão para que aquele instante de sintonia se materialize numa obra inesquecível para nós.

Pra começar, não poderia ser diferente. A música se chama "Dueto", é de Chico Buarque, cantada por ele e Paula Toller (do Kid Abelha), num especial da Band, de 1985. Letra que fala da parceria no amor, inteligente como só o Chico sabe fazer. Exemplo de junção de dois universos musicais totalmente diferentes, que quando reunidos, conseguem deixar as diferenças de lado. A própria Paula fala desse embate, que ela considera burrice:

"Recebi a fita com a música que era difícil. O nome dela era Dueto e ele costumava cantar com a Nara Leão. Eu tive duas horas para decorar a música. Melodia difícil, aquelas coisas do Chico cheias de palavras parecidas, mas todas diferentes. Cheguei lá, esperei à beça, chegou na hora de apresentar, ele olhava prum lado e eu pro outro. Ele é supertímído, eu então nem se fala. Depois ficamos tocando violão, tomando vinho, comendo pão com queijo, foi ótimo. Repito, essa história toda de verdadeira MPB versus roqueiros ou popeiros sem talento e embromadores é cascata e burrice."

O resultado é um belo encontro de gerações musicais. Dá pra reparar que a timidez foi a tônica da parceria pelos olhares furtivos de Chico e Paula, mas que fazem todo o charme da cena. Quase sem jeito com a presença um do outro, mas com profissionalismo evidente. Destaque para a voz da Paula no início da carreira – fase em que sua afinação e timbre eram bastante criticados – e que aqui ficou doce e afinadíssima numa música cheia de nuances sutis.




Dueto
(Chico Buarque)

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz

Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

10 de janeiro de 2012

Humm... É... Crise?

Todos os jornais falam, as conversas em algumas rodas também acabam tocando nesse assunto: a crise financeira global. Mas traduzir o que realmente está acontecendo no mundo não é tarefa muito fácil. Leio diariamente sobre o tema por motivos profissionais, e nestas leituras encontrei um artigo publicado no jornal Valor Econômico bem interessante e didático que explica os motivos e tenta adiantar algumas das possíveis consequências da tão citada "Crise". Durante o texto coloquei alguns hiperlinks para esclarecer alguns termos. Boa leitura!



A "Grande Recessão"

Por Yoshiaki Nakano*

A crise financeira do subprime e o colapso do sistema financeiro com a quebra do Lehman Brothers desencadeou a chamada "Grande Recessão". Mas ela é um fenômeno distinto da crise financeira em si. Com a crescente incerteza, as economias dos países centrais saem da normalidade e passam a ser regidas por comportamentos induzidos pela incerteza, medo, pânico etc., nos quais prevalecem a lógica da desalavancagem, da "balance sheet recession" e da demanda de ativos com sinais trocados gerando instabilidades nesses mercados. Como entender o que acontecerá como a economia global nesse contexto? A experiência histórica similar, a "Grande Depressão de 1890", a "Grande Depressão de 1930" e a crise japonesa dos anos 90, nos permite fazer analogias e algumas conjecturas sobre o que acontecerá nos próximos anos.

A atual "Grande Recessão" não deverá ser tão profunda quanto a "Grande Depressão de 1929 a 1939", afinal aprendemos alguma coisa com ela, mas será tão abrangente e duradoura quanto e deverá ter significado histórico similar ao da "Grande Depressão do final do século XIX.

Será abrangente no sentido de ser uma crise global, diferentemente da crise japonesa, ou seja, é uma crise do próprio processo de integração e globalização financeira promovido pela plutocracia financeira que vem exercendo poder, tanto nos Estados Unidos como na Europa (talvez nem tanto na Alemanha). A "Grande Recessão" está centrada nos Estados Unidos e Europa, e já vem causando uma crise de governabilidade, mas tem também causas e dimensão internacional de forma que nenhum país ficará inume a seus efeitos de uma forma ou outra.

Será duradoura porque como a crise dos anos 30 e a crise japonesa ela afeta tanto os credores/emprestadores como os devedores/tomadores de empréstimos. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) aumentou brutalmente a oferta de moeda e reduziu a taxa de juros para próximo a zero procurando salvar credores/emprestadores, subsidiando-os. Assumindo a função de emprestador em última instância, absorve ativos problemáticos no seu balanço, mas não resolve o problema dos devedores, que tiveram sua riqueza financeira destruída pela crise, e agora têm que pagar as dívidas.

A política monetária pode também resolver o problema de liquidez do credor/emprestador, que detém ativos emitidos pelos devedores, já que o banco central está disposto a prover recursos com juros zero para que continuem carregando os ativos e assim fazendo por longo período poderá mascarar, amenizar e, com o tempo suficientemente prolongado, até resolver o problema de insolvência.

Do outro lado, tanto as famílias como as empresas que se endividaram excessivamente durante o boom de crédito que antecedeu a crise, têm que desalavancar, aumentando a poupança (deixando de consumir e de investir produtivamente) para pagar a dívida acumulada. A "Grande Recessão" é o resultado dessa redução persistente da demanda agregada. Aqui a política monetária não tem efeito, pois somente uma política fiscal ativa pode recolher o aumento de poupança privada e reinjetá-la de volta no sistema econômico como demanda, para reanimar a economia. E essa foi a reação de todos os governos. Mas ao executar essa política, o déficit público aumenta e, com isso, a dívida publica se transforma também em crise da dívida soberana. A reação política da sociedade contra a classe dirigente será quase imediata. Ela está perdendo tanto a credibilidade como legitimidade, abrindo espaço para a ação de grupos radicais, tornando praticamente impossível manter uma política fiscal para tentar sustentar o nível de atividade econômica.

Ao contrário, os investidores perceberam que os governos estão com a dívida crescendo rapidamente e perdendo legitimidade e vão não só deixar de financiar os seus déficit, mas vão tentar desfazer dos títulos públicos com consequente elevação da taxa de juros. Na medida em que a política fiscal fica travada, podemos ter uma nova contração no nível de atividade, agravando o problema de déficit publico. Assim, somente quando a segunda contração for suficientemente profunda e prolongada a trava política da política fiscal será removida.

Qual o significado histórico da "Grande Recessão"? Em primeiro lugar essa é uma crise centrada nos Estados Unidos e Europa, portanto do núcleo do sistema global. Internamente, nesses países, foi a ascensão da plutocracia financeira, com a aliança do setor industrial, no início dos anos 1980 que permitiu a desregulamentação do sistema bancário e consequente introdução de inovações financeiras e explosão de crédito que gerou a crise. O poder do setor industrial já estava em declínio com a desindustrialização. Agora, tanto os Estados Unidos como a Europa, nas próximas décadas, deverão ter como prioridade absoluta a revitalização das suas economias, voltando-se para dentro eventualmente com medidas protecionistas, para enfrentar a ascensão da China.

Somado a isso, a perda de credibilidade e de legitimidade da sua classe dirigente, a governança global mudará radicalmente. Viveremos nas próximas décadas um interregno com a ausência de um centro que ditava as regras do jogo, exercia liderança política e ideológica e impunha um pensamento econômico.

A "Grande Recessão" será um longo processo de declínio da hegemonia americana, de um paradigma histórico e a gradual ascensão da China. Com o colapso de um paradigma, de um modelo econômico (uma variedade de capitalismo) que prevaleceu plenamente nas últimas três décadas, o que virá no seu lugar?

*Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), é professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.

2 de janeiro de 2012

Ano samba, bossa e rock 'n' roll

Seu Garçom faça o favor de me trazer depressa uma boa... *Pra abrir essa breve conversa de botequim.

Foi samba esse ano que passou. Não faltaram boas prosas regadas a cervejas e petiscos. Também não faltaram grandes desafios, e em todos eles pude contar com bons companheiros, grandes parceiros, com ou sem dinheiro, em noites e dias sem paradeiro.

Grandes mudanças nesse ano que passou. Mudança de emprego, mudança de casa, mudança de ponto de vista, mudança de vista: “da janela vê-se o Corcovado, o Redentor que lindo”**. Foi ainda um ano bossa nova.

Mudança de relacionamento no Facebook. “Mudanças no meu comportamento, distância louca de mim mesmo”***. Mudança de atitude. Também foi um ano rock 'n' roll.

Obrigado aos amigos dos bares, aos amigos dos lares, aos amigos familiares, aos amigos melhores, aos amigos amores, aos amigos de todos as horas e lugares. Enfim, obrigado!

Seu garçom, fecha a conta, por favor, que em 2012 tem mais!

* Letra do samba Conversa de Botequim de Noel Rosa e Vadico. ** Letra da clássica bossa Corcovado de Tom Jobim. *** Letra do clássico rock tupiniquim Mudança de Comportamento, do Ira! (Edgar Scandurra)




28 de dezembro de 2011

Questões políticas de 2011

Texto esclarecedor publicado no blog: Papo de Homem. Tão interessante quanto o texto foi o debate gerado nos comentários de internautas no site. Vale a pena conferir!

Por Juliana Fratini
em 27/12/2011

Viver em sociedade significa existir, simultaneamente, em esfera pública e privada, além de ter direitos e deveres para com estas categorias. Fazer uso aleatório, sem qualquer regulamentação, destas esferas (ou do que faz parte delas) causa danos a diversos arranjos que asseguram o bom funcionamento da vida individual e coletiva, além de danos à confiança nas instituições que existem para regulá-las.

A apropriação do que é público para fins privados foi, no entanto, um dos principais temas políticos e sociais do ano. Por um lado, por causa dos escândalos protagonizados por homens públicos e, por outro, por causa das inúmeras manifestações sociais contra práticas consideradas corruptas ou amorais – isto é: nem tudo que é amoral pode ser considerado corrupto ou ilegal, segundo a lei.

Desta vez, vamos mudar o foco: desviemos o olhar de indignação dos chamados malfeitos do primeiro mandato do governo Dilma e dos sujeitos que protagonizaram os escândalos – os ministros –, para a arquitetura dos sistemas político e econômico e o comportamento social a fim de ampliar o entendimento de como é que estas coisas, de um modo geral, operaram. As considerações são ensaísticas e longe de serem exaustivas ou totalizantes.

Separando o joio do trigo: a arquitetura dos sistemas

Sobre a arquitetura dos sistemas, consideremos, em primeiro lugar, que a política possui três dimensões interdependentes:

- a polity (regras do jogo político),
- a politics (a competição política; o próprio jogo), e
- a policy (políticas públicas; o resultado do jogo).

Portanto, boa parte do que se pensa sobre política precisa passar por este filtro classificatório. Atores políticos se comportam de maneira bastante diferente quando enquadrados em cada uma destas dimensões e, muitas vezes pela falta de esclarecimento a respeito da parte que não opera corretamente, corre-se o risco de se fazer avaliações equivocadas sobre os fatos.

Vamos utilizar o caso do primeiro ministro a cair, Antonio Palocci (Casa Civil, em junho), e o último “na linha de tiro”, Fernando Pimentel (Desenvolvimento, em dezembro). Os dois políticos foram criticados por exercerem, supostamente de maneira irregular, a atividade de consultor. “Irregular” aqui quer dizer que teriam realizado tráfico de influência, além do fato de não terem exibido os contratos feitos com as empresas para as quais prestaram serviço. Ora, a lei é clara: eles não poderiam realizar este tipo de trabalho apenas se estivessem exercendo função pública durante a execução do serviço – se estivessem, o caso seria de improbidade administrativa. Por não estarem exercendo cargo público, não há nada que configure o trabalho de consultor como crime, mesmo que estes homens tenham atuado politicamente antes ou depois da realização das consultorias.

O conhecimento, prestígio e networking que estes homens acumularam durante o exercício de atividades públicas contribuem com a realização de atividades privadas. O mesmo ocorre com profissionais de outras áreas de atuação. Qualquer profissional pode utilizar o prestígio adquirido no exercício de uma função para realizar outra de interesse particular. O mercado captura prestígio e não faz distinção de categoria profissional. Segundo as regras de mercado, isto não se configura tráfico de influência. Deste modo, se os ministros não estavam exercendo função pública no momento da realização das consultorias, logo, o caso deve ser averiguado segundo a ótica do mercado, e não da ótica política. Quando a ótica é política, o assunto passa a operar no campo da politics (da competição), com adversários fazendo uso de recursos diversos, de maneira estratégica, para derrubar quem detém o poder – a estratégia é legítima, mas o argumento incorreto.

A pergunta que não quer calar, afinal, é a seguinte: se um empresário/consultor dotado de muito prestígio pode se tornar político, por que um (ex-) político, quando do não exercício de função pública, não pode se tornar um empresário/consultor?

Nesta linha, o problema não é, especificamente, a atuação de (ex-) políticos enquanto empresários/consultores, mas sim um problema de normatização – de regra. Se não é possível que (ex-) políticos realizem atividades empresariais/consultoria, então torna-se necessário regulamentar as atividades que estes (ex-) homens públicos podem e de que maneira devem realizar. Do contrário, casos como o de Palocci e Pimentel tendem a acontecer novamente. Mudar os políticos, contudo, parece mais fácil e conveniente do que mudar a regra (do ponto de vista político), uma vez que isto implicaria na diminuição dos direitos civis de (ex-) homens públicos.

Tampouco existem regras de mercado que obriguem a declaração pública de conteúdo produzido por consultorias. No entanto, há lei que obrigue a declaração de recursos obtidos por meio da execução de qualquer trabalho, mais especificamente a respeito do montante e o meio – o que também vale para qualquer profissional. E isto é impossível saber quando não há contratação de serviços pelas vias legais, ou em outras palavras, quando o trabalho é realizado de maneira informal.

Na prática, quando contratados e contratantes não informam pelas vias legais as transações realizadas, se colocam a margem da lei. E (ex-) políticos consultores envolvidos em transações privadas a margem da lei, que envolvam muito dinheiro, por meio do uso do prestígio que acumularam no exercício de cargos públicos, não podem esperar outra coisa da imprensa, da oposição, da opinião pública, além de profunda retaliação.

Seguindo esta linha de raciocínio, uma maneira de ver a questão é a seguinte: Palocci e Pimentel se complicaram não porque fizeram o uso de bens públicos para fins privados (neste sentido não foram corruptos), não porque praticaram (sobre as consultorias) tráfico de influência; se complicaram porque se colocaram acima da lei quando na defesa de interesses privados. Atuaram na ilegalidade e não fizeram o que qualquer outro profissional deveria ter feito: informar as transações realizadas. A conduta demonstra um sinal de desrespeito à polity, isto é, às regras do jogo, em relação aos direitos fundamentais operacionais, e também porque é dever dos governantes prestar contas à população.

Quanto aos demais ministros que deixaram seus postos, Alfredo Nascimento (Transportes), Wagner Rossi (Agricultura), Pedro Novais (Turismo), Orlando Silva (Esportes) e Carlos Lupi (Trabalho), estiveram envolvidos em confusões relacionadas à suposta apropriação de recursos públicos para fins privados ou para favorecimento partidário – fatos estritamente relacionados a práticas de corrupção – também ferindo as regras do jogo e, de certo modo, a competição. Nelson Jobim (Defesa), por sua vez, saiu após críticas feitas às ministras Ideli Salvatti e Gleisi Hoffmann.

Ninguém está acima da lei: a questão da confiança

No Estado Democrático de Direito, nenhum indivíduo pode estar acima da lei. No entanto, já dizia Marshall que, embora os homens sejam iguais em status – direitos e deveres –, jamais serão em poder. Este poder a que ele se refere é o propiciado pelo mérito, a ascensão social por meio do trabalho num contexto de livre mercado.

Mas uma coisa é a arregimentação de poder por meio de vias legais, outra é a arregimentação de poder por meio de conduta e práticas espúrias, o que acende discussões normativas e a respeito da manutenção de princípios éticos na política. Num contexto em que existe um relaxamento da responsabilização e das punições para aqueles que cometem infrações contra a ordem pública, seja no aspecto normativo ou moral, a política e suas instituições acabam por ficar desmoralizadas e desacreditadas.

Exemplos de fatos ocorridos durante o ano que contribuíram negativamente com o descrédito das instituições foram:

- a desmoralização, pelo próprio governo, da Comissão de Ética Pública, que sugeriu a saída de Carlos Lupi do Ministério do Trabalho, mas não foi considerada;
- a não cassação, pelo Parlamento, do mandato de Jaqueline Roriz, que recebeu dinheiro de Durval Barbosa. Jaqueline pediu a rejeição do parecer do Conselho de Ética sob o argumento que não exercia nenhum mandato quando o fato foi consumado; e
- a não validação do Ficha Limpa.

Afirmar que a sociedade não se esforça para “não demonizar a política” seria um erro, posto que os cidadãos procuram, ao menos, aceitá-la como é – considerando as imperfeições das instituições e a realidade da arquitetura do sistema político, também uma arena em que vale “quase tudo” para se manter no poder ou difamar, sem um argumento verdadeiramente producente, aqueles que estão no poder.

O que a sociedade não aceita é ausência de responsabilização daqueles que ferem princípios democráticos e republicados, permanecendo sem qualquer punição. Os mais politizados se perguntam ainda, entre outras coisas, por que a “faxina ética” precisa ser realizada pela imprensa e por que a atuação do governo é reativa e não ostensiva contra o próprio mal que lhe corrói. A impressão que se tem é que os comandantes dos altos postos administrativos deste país alienaram seu compromisso com a transparência e com as punições.

Afora as considerações acima, pesquisas realizadas pelo cientista políticos José Alvaro Moisés (USP) apontam que o grau de confiança em pessoas do núcleo privado é muito maior do que em relações interpessoais do núcleo público, bem como em diversas instituições representativas do regime democrático. Apesar de os dados corresponderem ao ano de 2006, são válidos para a reflexão da conjuntura porque apontam para uma tendência do comportamento social.

Neste ano, em resposta à conduta dos homens públicos e o funcionamento das instituições públicas, foram realizados inúmeros protestos que levantaram a bandeira contra a corrupção e a impunidade, e que reclamaram um melhor funcionamento ou a extinção de determinadas instituições. Os grupos – muito deles organizados na internet –, supostamente sem qualquer vinculação partidária, reuniram-se em diversas regiões, ora com um grande número de participantes, ora com baixíssimo número.

Apesar das boas iniciativas, as manifestações ocorreram mais de maneira espasmódica. Em um novo modelo de organização, carente de lideranças bem definidas, os grupos apareceram um tanto dispersos, muitos deles sem uma plataforma de atuação ou projeto mais bem estruturado. Em suma, apareceram com uma força muito menor do que aquela que originou a Primavera Árabe – a mobilização social iniciada na internet que desencadeou uma série de reformas políticas em países do Oriente Médio e da África.

Que venha 2012.

16 de dezembro de 2011

Um filme com ótimos diálogos

Assisti recentemente ao filme ‘Blue Valentine’, obra realista do diretor Derek Cianfrance sobre relacionamentos, que no Brasil recebeu um título oportunista e sem sentido: ‘Namorados para Sempre’. Com Michelle Williams (Cindy) e Ryan Gosling (Dean), a triste película marcou pelos bons diálogos entre seus personagens. Separei algumas frases, diálogos e o trailler do filme:

“Os homens esperam a mulher certa chegar e aí então se casam com ela. Mas as mulheres, muitas vezes, desperdiçam a chance de encontrar um príncipe encantado, casando-se com algum cara que tem um bom emprego.” (De um amigo do trabalho do personagem de Gosling, tentando explicar diferenças entre homens e mulheres)

“Morrer é para idiotas. Não morra.” (Não me lembro ao certo qual dos dois personagens disse a frase, mas ela demonstra esse sentimento de invencibilidade que a maioria das pessoas tem quando são jovens. É a metáfora para o relacionamento de Dean e Cindy que no início vivem um amor “imortal”, que, porém vai definhando aos poucos até acabar)

“Quanta rejeição eu mereço ter?” (Dean para Cindy, num dos momentos mais tristes do filme)

“Você já está crescida, então não se divirta.” (Cindy, falando para a filha de 4/5 anos do casal em crise, como quem parece cansada da vida que leva)

Diálogo entre a personagem de Michele Willians e sua avó, sobre o amor:

- Como posso confiar em um sentimento se ele pode simplesmente desaparecer? -, pergunta a neta.

- Acho que você só poderá descobrir, quando tiver este sentimento. -, responde a avó.

Diálogo entre o casal na noite em que se conheceram.

Dean faz um elogio a Cindy:

- As garotas mais bonitas são as mais loucas!

Ela agradece:

- Gostei desse seu elogio e ofensa ao mesmo tempo. Deixa tudo igual.

Na cena do quarto do motel para onde Dean leva Cindy numa tentativa de reatar o casamento desgastado, o melhor diálogo do filme na minha opinião:

- Por que você não tem interesse em fazer outras coisas, além de pintar paredes e beber uma cerveja às 8 da manhã? -, pergunta a um perplexo Dean.

- O que você quer dizer em fazer outras coisas? Como o quê? -, responde rispidamente Dean.

- Como, por exemplo, pintar, dançar, compor, tocar, você tem tanto potencial. Poderia fazer qualquer coisa -, ela diz.

- Nada me interessa mais do que estar casado com você e ficar com nossa filha -, explica Dean.

- Não posso mais -, reconhece uma sofrida Cindy para um desesperado Dean: - Me diga o que devo fazer! Faço qualquer coisa, mas quero este casamento e não suporto a idéia de Frankie viver com pais separados -, suplica Dean.


5 de dezembro de 2011

Nestas curvas

Nestas curvas acentuadas me arrisco

Piso fundo, sem freio

Nestas curvas me perco

Perco o passo, não acho

Um ato sensato.

Estas curvas acentuadas desafiam

Minha vontade de aventura

Meu ímpeto de loucura.

Por estas curvas acentuadas, perigo!

Ameaça-me o doce risco de seguir

A delícia de correr por estas curvas.

Velocidade máxima nas curvas,

Na leveza dos seus traços

Na beleza dos seus beijos

Na certeza dos abraços

Que atenuam meus medos.

Nestas curvas me acho.