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  1. Um monumento é apenas um monumento?

    Em seu estudo sobre Monumento, política e espaço, Roberto Lobato Corrêa afirma que os monumentos não são apenas objetos estéticos, mas de certa forma, intencionalmente dotados de sentido político. Como “representações materiais de eventos passados” eles carregam simbologias que vão além do concreto e armações metálicas de que são fabricados, e neles estão concentrados sentidos que comunicam interpretações da realidade, sob um ponto de vista temporal.


    Para o município de Volta Redonda (RJ) um monumento específico, o Memorial 9 de Novembro, do arquiteto Oscar Niemeyer, carrega não apenas a memória de uma tragédia, um trauma pelo qual toda a cidade foi obrigada a passar por conta de decisões políticas autoritárias e equivocadas, mas sobretudo a representação simbólica de um momento marcante e decisivo para o Brasil.

    A história deste Memorial começa, na verdade, meses antes de sua construção. No dia 7 de novembro de 1988, os metalúrgicos da CSN iniciaram uma greve e ocuparam a Usina Presidente Vargas (UPV). Comandados pelo líder sindical Juarez Antunes, que inflamava os trabalhadores em assembleias às vezes sem microfone com discursos propagados por outros como em um processo de “ondas”, o ato tinha como principais reivindicações a readmissão dos trabalhadores demitidos por perseguição política, a redução de oito para seis horas da jornada de trabalho para as atividades ininterruptas e ainda um reajuste salarial.

    Mesmo com o fim da Ditadura Militar no início dos anos 1980, o Exército, sob o comando do general José Luiz Lopes, foi autorizado pelo então presidente José Sarney a invadir a usina. Era o sinal mais evidente de resquícios do autoritarismo no governo e, certamente, prova de que a influência militar nas decisões do país não havia cessado (como sabemos, o fim da Ditadura foi fruto de um acordo entre os ‘cabeças’ da política nacional mais do que de pressões sociais como as Diretas Já, entre outros movimentos).

    Com a autorização do presidente, no dia 09 de Novembro, soldados do Exército de Valença e Petrópolis e do Batalhão de Choque da Polícia Militar dispersaram uma manifestação pública pacífica que acontecia em frente ao então Escritório Central da CSN, transformando o centro da Vila Santa Cecília em verdadeiro campo de batalha. Além dos metalúrgicos, estavam naquela manifestação, mulheres e crianças, donas de casas, professores, padres e representantes de movimentos da Igreja Católica, que em Volta Redonda sempre apoiaram o movimento dos operários. A comoção em torno da causa sempre foi generalizada.


    Os militares invadiram a fábrica, atirando nos operários. O saldo da operação foi a morte de William Fernandes Leite de 22 anos, Valmir Freitas Monteiro de 27, Carlos Augusto Barroso de 19 anos, além de 46 feridos (segundo dados oficiais). Segundo relatos, Valmir foi atingido por um tiro na nuca e gritou: "Está doendo, acho que me acertaram". Barroso, além dos tiros recebidos, teve o crânio esmagado por coronhadas de fuzil. William estava voltando do refeitório na hora que os soldados começaram a atirar. Foi surpreendido e, mesmo atingido pelos tiros, ainda andou cerca de 30 metros. Quando caiu, seus companheiros viram que já estava morto e carregaram o corpo para junto dos soldados, pedindo atendimento.

    O enterro dos jovens e a missa de sétimo dia levaram milhares às ruas da cidade nos dias seguintes às mortes. Mesmo depois do assassinato dos três operários, a greve continuou até a conquista das reivindicações e a retirada do Exército do município, o que aconteceu em 24 de novembro. Cabe aqui o relato de Sandra Veiga e Isaque Fonseca retirado do livro Volta Redonda – Entre o aço e as armas.

    “A greve prosseguiu até o dia 23 de novembro, quando realizou-se, em frente ao escritório central da CSN, uma dramática Assembléia. Luiz Albano abre os trabalhos chamando, um a um, os operários mortos no confronto com o Exército, ao que a Assembléia responde: ‘Presente!’ Luizinho, primeiro orador inscrito, exalta a bravura dos operários e conclama ao fim da greve. No mesmo tom, seguem-se Marcelo Felício, Vanderlei Barcellos e, finalmente, Juarez Antunes.”










    No ano seguinte, o 1º de maio de 1989, foi inaugurado o Memorial 9 de Novembro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, em homenagem aos três operários assassinados. Algumas horas depois, na madrugada do dia 2, um atentado com bomba derrubou o memorial que ficou tombado para frente, preso apenas pelo ferro da armação. Na ocasião, Niemeyer fez questão de reinaugurar o monumento, mantendo as marcas da violência, apenas erguendo o que foi derrubado, para que os acontecimentos ficassem para sempre na memória.


    Revelações sobre o atentado - Anos mais tarde veio ao conhecimento público o testemunho de Dalton Roberto de Melo Franco, ex-capitão do Primeiro Batalhão de Forças Especiais, sobre a bomba que destruiu o memorial. Ele revelou ao JB ter sido punido e logo expulso do Exército porque tinha se recusado a participar do atentado contra o Memorial Nove de Novembro sem uma ordem por escrito. Dalton tinha feito parte de um grupo de oficiais das Forças Especiais infiltrado na CSN em 1988 para identificar e “isolar rapidamente os líderes” durante a invasão pelo Exército.

    Sobre o ano de 1989, quando ia ser erguido o memorial, o ex-oficial relatou o seguinte: “o Exército achou que aquilo era uma afronta, que se estava querendo criar mártires”. Contou ter recebido uma ordem do então coronel Álvaro de Souza Pinheiro para explodir o monumento, e quando se recusou, a tarefa foi cumprida por outros agentes. “A dinamite foi dada pelos bicheiros do Rio e tirada de pedreiras da Baixada Fluminense. Eles ajudaram a montar um paiol com munição que depois seria usada em várias operações irregulares”, disse.


    Memória local e nacional - A praça onde foi erguido o monumento está também impregnada de simbologia. Localizada entre a entrada principal da CSN e o antigo Escritório Central, sede das decisões administrativas da empresa, o local foi palco de assembleias históricas, como a que contou com a presença do ex-presidente Lula, então líder sindical do ABC paulista. Foi o ponto de partida do cortejo fúnebre do prefeito Juarez Antunes, morto em 1988 (logo após a greve), num controverso suposto acidente de automóvel, cortejo este que levou mais de 100 mil pessoas às ruas, entre outros acontecimentos.


    Hoje é comemorado o 24º aniversário da morte de William, Valmir e Barroso. Com exceção de William – que era filiado ao PT – nenhum deles era ativista. Também eles viraram símbolos de uma época crucial para a história do município e do país. 

    Com informações - Jornais Aqui e A Voz da CidadeThe Internacionalist
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  2. 4 comentários:

    1. Daniel Rangel disse...

      Eu ainda sonho com uma honesta investigação desse "controverso suposto acidente de automóvel" que tirou a vida do Juarez Antunes. Talvez ele tenha sido o maior mártir desse tão perverso episódio da nossa história. Parabéns por fazer de forma tão elegante e peculiar essa justa memória em seu espaço virtual! ;) (As novas gerações da nossa cidade precisam perpetuar os sentimentos carregados por aqueles que lutaram por maior dignidade, a qual hoje, é um real fruto colhido por tantos... Do simbolismo à manutenção de valores e construção de outros novos consonantes aos panoramas contemporâneos!). Grande abraço!

    2. Gabriel Araujo disse...

      Verdade Daniel! No caso do atentado à bomba, houve a abertura de um inquérito no exército. Se pesquisar na internet tem até o diário oficial. Porém como se trata de uma investigação "caseira" acredito que não dará em nada.

      Sobre o "acidente", acredito que haveria investigação apenas se alguém, como o ex-capitão, fizesse alguma revelação à imprensa. Caso contrário, será o bom e velho "corporativismo".

      Obrigado pelo comentário!

    3. Debora Sales disse...

      Propiciar as novas gerações, o conhecimento de fatos históricos ~referentes as lutas dos trabalhadores é de suma importância.
      Participei ativamente dos movimentos dessa época, vi e senti na carne a repressão a perseguição política com a demissão de meu marido,que também era ativista sindical.
      Parabéns!

    4. Gabriel Araujo disse...

      Debora,

      Que bom ter o depoimento de pessoas que participaram ativamente dos movimentos naquela época. Eu sou um dos filhos de operário e, apesar de não ter participado ativamente, vivi bem de perto essa realidade. Muito importante que esta história seja lembrada sempre! Obrigado