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  1. Minha estreia como colaborador do jornal Brasil de Fato foi em uma matéria sobre o samba, mais especificamente o Samba da pedra do Sal, tradicional evento musical do Rio de Janeiro. Aqui publico a versão integral do texto que foi para o jornal em "versão resumida", por conta de espaço editorial. Era tanto assunto interessante que não cabia no espaço que havia sido designado. A versão que foi publicada está neste link: http://www.brasildefato.com.br/node/23896 ou neste http://issuu.com/brasildefatorj/docs/bdf_rj_016/1?e=8798584/4441947, na página 11.

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    Samba da Pedra do Sal exalta cultura negra em um dos berços do samba

    Roda de samba completa seis anos levando a tradição do samba para um dos lugares mais significativos para a negritude do Rio de Janeiro

    No lugar onde, há mais de 200 anos, soavam os primeiros batuques que dariam origem ao estilo musical hoje conhecido como samba e a manifestações culturais como o carnaval de rua, um grupo de sete sambistas realizam nos últimos seis anos, todas as segundas-feiras, o Samba da Pedra do Sal. Mais do que uma roda de samba, como os próprios músicos gostam de se auto definir, o movimento cultural popular representa a ocupação de um espaço originalmente pertencente à música popular brasileira.

    As vielas estreitas daquela área da Zona Portuária conduzem ao Largo da Baiana, no final da Rua Argemiro Bulcão, na Gamboa, onde fica a Pedra do Sal – local onde baianos buscaram moradia mais barata na chegada ao Rio de Janeiro no início século XV, para trabalhar nas primeiras docas do Cais Porto. Duas crianças moradoras do bairro brincam de escorregar numa das partes lisas da Pedra do Sal, antes que o samba comece, ali onde a historiografia aponta ter existido o grande mercado de escravos e os trapiches para arregimentação dos estivadores do porto.

    O passado e o presente se misturam também na arquitetura das casas e estabelecimentos comerciais do local e nos grandes refletores instalados para iluminar a área onde os músicos se reúnem em torno de duas mesas de madeira para tocar sambas de todas as épocas. Os grafites de artistas diversos colorem, com referências ao samba, as paredes e muros das casas antigas ao redor do Largo. Apesar de as caixas de som instaladas para que os instrumentos de corda (violão e cavaquinho) não sejam abafados pelo som das percussões, lembrarem a modernidade, a roda é levada propositalmente sem microfone, com os músicos e o público entoando as canções como era no passado.


    “Nossa intenção é dar continuidade a algo que já existe há mais de 200 anos, respeitando e divulgando a cultura ancestral, no local onde tanto sangue negro foi derramado”, afirma o percussionista Peterson Vieira. Ele cita Hilária Batista de Almeida, a “Tia Ciata”, negra baiana que veio para o Rio e se instalou ali, naquela região, e foi, na casa de Candomblé de João Alabá, uma das precursoras do movimento que daria origem ao samba. “Estamos continuando o que eles começaram”.

    Naquela segunda-feira, a roda começa com sambas como “Transformação”, de Jurandir da Mangueira e João da Gente, “Falsas Juras”, de Milton Casquinha, e “Eu agora sou Feliz”, de Mestre Gato e José Bispo. E segue noite adentro com sambas que fizeram sucesso nas interpretações de Fundo de Quintal, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Cartola, entre outros. Como se trata de uma roda aberta, outros sambistas chegam e puxam um samba ou trazem seu instrumento para tocar.


    Em determinado momento da noite, a luz acaba no bairro, o que não é suficiente para acabar com a animação dos sambistas que continuam a tocar, mesmo com as caixas de som desligadas. Todos pegam uma percussão e o público ajuda na palma da mão. Depois de algumas músicas a luz retorna e os instrumentos de corda voltam a ser ouvidos com mais nitidez. O local vai aos poucos ficando lotado de gente de todas as partes do Rio de Janeiro, muitas saindo do trabalho direto para a roda e até estrangeiros.

    “Gostaríamos de envolver mais as pessoas da própria comunidade daqui. Eu sinto que hoje o samba está precisando fazer o caminho inverso: se antes ele veio do morro para o asfalto e é bem aceito por pessoas de várias classes sociais, agora precisa ter a adesão de mais pessoas das comunidades”, acredita o músico Rogério Família. Apesar disso, ele conta que o samba é bem aceito pelos moradores do local, que fica aos pés do Morro da Conceição.

    Mas nem sempre foi assim. Os instrumentistas lembram que antes de o samba se firmar como uma atividade reconhecida no bairro, denúncias anônimas pediam a saída da roda do local. “A polícia chegava, mas como tínhamos autorização, não podiam acabar com a roda. Houve até uma denúncia absurda de que estaríamos envolvidos com o tráfico de drogas. Nunca tivemos este envolvimento e não sabemos como esta denúncia pode ter acontecido”, afirma Walmir Pimentel, professor de geografia e músico.

    A maior dificuldade, porém, veio quando eles precisaram romper com os comerciantes donos de bares no local, que davam parte do dinheiro conseguido com as vendas de bebidas para os músicos. A partir daí passaram a contar com iniciativas privadas de pessoas que gostam do samba e investem quando os músicos precisam comprar algum equipamento, ou fazer a manutenção de instrumentos. Além disso, eles têm autorização para vender cerveja para o público da roda. “Todas as segundas-feiras fazemos também uma mini experiência de economia. Mas não podemos deixar de agradecer às pessoas que nos ajudam”, enfatiza Rogério Família.

    Aniversário de seis anos

    A Roda de Samba começou em 2006 com músicos independentes, que não tocavam em bandas fixas, mas também com alguns sambistas egressos do grupo Batuque na Cozinha. A ideia inicial era que a roda fosse um espaço onde o sambista pudesse tocar o que quisesse, de forma livre, depois de um fim de semana tocando profissionalmente. Por isso, a escolha da segunda-feira, tradicionalmente conhecido como o dia de folga do músico.

    Completando seis anos de existência este ano, a Roda de Samba comemora a conquista de mais uma vitória: os músicos foram convidados para uma apresentação no teatro Rival, que aconteceu no último dia 26 de Julho.

    “Neste show, nossa intenção foi levar este clima de roda de samba para o palco do teatro Rival. Foi legal por ser algo que nós nunca tínhamos buscado e aconteceu”, afirma Júnior Silva, instrumentista do violão de sete cordas.

    Para a apresentação no Rival, os músicos também ganharam uma composição inédita. A canção “Samba da Pedra do Sal”, composta por Mingo, Chiquinho Vírgula e Marquinho Diniz (filho do sambista Monarco), retrata um pouco do que acontece no samba das segundas-feiras.

    Além disso, os músicos fazem parte de um documentário, em fase de produção, com o nome provisório de “O Porto do Rio”, que recebe apoio cultural da concessionária que administra as obras do Porto Maravilha e do poder público.


    Atualmente, integram a roda de samba os músicos Júnior Silva, violão de 7 cordas, Peterson Vieira, pandeiro e caixa, Wando Azevedo, surdo, Paulo Cezar, tantam e reco, Walmir Pimentel, cuíca e tamborim, e Júnior Travassos e Rogério Família, cavaco.

    Incerteza em relação às obras do Porto Maravilha

    Os músicos que fazem a Roda de Samba da Pedra do Sal estão entre os principais interessados nas transformações pelas quais passa a Zona Portuária do Rio de Janeiro, com o projeto do Porto Maravilha. Apesar da expectativa otimista em relação às modificações planejadas para o local, eles temem que a especulação imobiliária e o mercado musical possam contribuir para uma descaracterização cultural do bairro.

    “Diante dos movimentos relacionadas aos eventos esportivos e religiosos no Rio de Janeiro, este espaço, que se manteve abandonado pelo poder público e por investimentos particulares durante mais de 80 anos, agora está no centro dos interesses de vários grupos”, afirma Walmir Pimentel, acrescentando que o grupo já foi procurado por entes públicos e representantes da concessionária para assegurar que a roda de samba será mantida como é e que aquele local, tombado pelo patrimônio histórico, será preservado.

    Mesmo assim, o instrumentista enxerga o momento com certa desconfiança. “Se você perguntasse a um sambista da praça Onze no início do século XX, sobre as expectativas em relação às reformas de Pereira Passos ele tremeria. Quando esta pergunta é feita hoje, para nós sambistas da Pedra do Sal, que somos um movimento cultural,  vemos um avanço, mas acontecem retrocessos. Esta região está sendo muito visada pelo capital imobiliário, pelo mercado da música, e a gente sabe  que o oportunismo pode se encaixar muito bem nisso”, afirma Pimental, citando as reformas sanitaristas conduzidas durante a gestão do prefeito Pereira Passos no século passado.

    SERVIÇO

    Dia: Todas as segundas-feiras
    Horário: À partir das 19 horas
    Local: Largo da Baiana, Gamboa, Zona Portuária

    Preço: Gratuito
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