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  1. Reproduzo artigo publicado no blog Carta Maior com um "resumão" sobre as revelações de Eduard Snowden em relação ao serviço de espionagem norte-americano (o "olho que tudo vê", presente até no Grande Selo dos Estados Unidos).

    ____________________________________________

    Um terremoto chamado Snowden


    Por Flávio Aguiar


    Se houvesse uma escala para efeitos de denúncias internacionais, como há a Richter para os terremotos, o caso Snowden estaria no topo. De certo modo, as revelações do ex-espião norte-americano são mais impactantes do que as feitas tempos atrás por Julian Assange, com o auxílio de Bradley Manning.


    No fim de semana passado, a Der Spiegel publicou uma entrevista com Eduard Snowden, feita ainda em junho em Hong Kong por Jacob Appelbaum com a ajuda de Laura Poitras. Na segunda-feira (8), foi a vez do The Guardian publicar mais uma fatia da entrevista feita por Glenn Greenwald (com Poitras na câmera e ajuda de Ewen MacAskill), também em junho e em Hong Kong antes de que as denúncias viessem a público. A primeira fatia fora publicada em 09/06. Ambas as fatias estão disponíveis no site do The Guardian; a entrevista da Spiegel está disponível em alemão e em inglês nos sites da revista, além de extensa análise de como opera a espionagem norte-americana em território alemão.

    Juntando os dois segmentos do Guardian com o da Spiegel, é possível agora obter um quadro mais completo da situação e das revelações, conforme os itens abaixo descritos.

    1) Existe uma rede praticamente única e fechada entre serviços de informação de cinco países: os EUA, o Reino Unido, a Austrália, a Nova Zelândia e o Canadá. A França aparentemente opera um sistema lateral, embora não desconectado daquele, que Snowden chama de “Five Eye Partners”. O serviço secreto alemão, através do Bundesnachrichtdienst (BND) é uma espécie de “irmão menor” do “Big Brother” norte-americano.

    2) Apesar das sucessivas negativas por parte do governo alemão e dos pedidos de explicação da chanceler Angela Merkel ao presidente Barack Obama, é certamente impossível que as operações de espionagem norte-americanas em toda a Europa (na verdade em todo o mundo) e na Alemanha, em particular, fossem desconhecidas pelas autoridades de Berlim. O SPD, os Verdes e a Linke estão cobrando explicações. Mesmo o FDP, parceiro da CDU/CSU no governo, manifestou seu desconforto com as revelações das entrevistas. 78% do público alemão também exige explicações.

    3) Frankfurt é um local estratégico para as comunicações e para a espionagem. É nesta cidade – capital financeira da Europa – que os cabos de fibra ótica da Ásia, do Oriente Médio e do antigo Leste europeu se conectam com os do Ocidente. Ali operam a alemã Deutsche Telekom e a norte-americana Level 3, que se jactam de filtrarem 1/3 das comunicaçòes mundiais de internet. É impossível desenvolver a espionagem denunciada por Snowden sem a cooperação destas empresas e de outras em Frankfurt, ou de agentes nela infiltrados, para dizer o mínimo.

    4) Uma grande parte das informações armazenadas pelo sistema de espionagem (Snowden declara que o sistema tem capacidade para armazenar tudo o que capta pelo menos por três dias, mas isto está sendo “aprimorado”) parte do que é chamado de “metadata”. “Metada” é, em princípio, o conjunto de listas que todas as companhias telefônicas devem entregar a seus governos, contendo as informações sobre quem chamou quem e quando. Os “metadata” não contém o conteúdo de uma conversação, mas assim mesmo, segundo Snowden e outros pesquisadores da área, eles normalmente são o ponto de partida para detectar quando uma investigação deve ser aprofundada. Diz Snowden e os outros especialistas da área (entre eles o próprio Appelbaum) que as informações “metadata” são suficientes para traçar quase que na totalidade o perfil de um usuário. O sistema está sendo ampliado para a internet. A partir do manejo dos “metadata” e das informações suplementares obtiodas e armazenadas, torna-se fácil, por exemplo, “construir” um perfil de “inimigo” e colá-lo em quem quer que seja.

    5) Além das prováveis operações em Frankfurt, a NSA (National Security Agency) certamente ainda opera um centro de espionagem na cidade de Bad Aibling, na Baviera, em cooperação com o BND. Este centro – do tempo da Guerra Fria – será desativado quando o Exército norte-americano concluir a construção de uma unidade na cidade vizinha de Wiesbaden. Tudo desta futura unidade vem dos Estados Unidos, dos tijolos às antenas parabólicas.

    6) As entrevistas providenciam uma série de informações colaterais. Por exemplo, Snowden confirma que a NSA e o serviço secreto israelense construíram o vírus Stuxnet, usado para atacar o sistema de computação do programa nuclear iraniano.

    7) Uma pequena declaração de Snowden no vídeo divulgado pelo Guardian em 08/07 chama a atenção para um outro aspecto – à primeira vista um pequeno detalhe, mas de fundamental importância. Greenwald pergunta como e por quê ele tomou a decisão de se tornar um “whistleblower”. Ao lado dos problemas de consciência levantados, ele declara que, como agente e analista de espionagem, ele tinha acesso a “informações verdadeiras” (true information), “antes que elas fossem transformadas em propaganda pela mídia”. Ou seja, uma parte do esforço da NSA se concentra em formar a opinião pública, e para tanto a cooperação da mídia – proposital ou não – é fundamental, como atesta o caso da guerra do Iraque.

    8) Além da divulgação das informações, as entrevistas de Snowden permitem algumas conclusões relevantes. De fato, a segurança e até a vida dele correm perigo. Por isto, o asilo que ele busca – concedido previamente por três países, Bolívia, Nicarágua e Venezuela – é fundamental. O Brasil deveria no mínimo apoiar estas concessões de asilo, como fez Cuba, senão conceder ele mesmo o asilo. Também deveria fazer parte da ação do governo brasileiro a busca de uma alternativa viável para Snowden deixar Moscou, se for esta sua vontade, em direção ao país em que deseje se asilar. A espionagem e o governo norte-americanos vão caçá-lo por onde passe, e provavelmente com a ajuda subserviente dos governos europeus, como ficou evidente no caso do avião presidencial boliviano.

    9) Henrique Capriles, líder da oposição venezuelana de direita, condenou a adecisão do presidente Nicolás Maduro, concedendo o asilo. O gesto é um índice da disposição das direitas do continente diante deste caso. Uma outra consideração importante: parte da nossa mídia conservadora vem tratando Snowden como um “delator”. É fato que a palavra é uma das traduções dicionarizadas para “whistleblower”. Mas seria melhor tratá-lo como “denunciante”. “Delator” tem uma conotação muito negativa no Brasil. Afinal “delator” em nossa história foi Joaquim Silvério dos Reis, que “delatou” a conspiração mineira.

    10) Last, but not least, perguntado sobre seu maior medo, Snowden respondeu que era o temor de que, a partir de suas denúncias, nada acontecesse.

  2. Um mês depois das primeiras manifestações que começaram por conta do aumento da passagem em São Paulo, mas que evoluíram para o que vem sendo chamado de “a primavera brasileira”, ainda é cedo para falar em mudanças concretas e definitivas na forma como o brasileiro (sobretudo as gerações mais jovens) discute e se posiciona politicamente.  No entanto, é notável uma revisão de posturas a partir de lições aprendidas com os acontecimentos, que permeia tanto as posturas individuais quanto a de instituições tradicionais.

    O calor que emanava das ruas arrefeceu, em certa medida, e os movimentos sociais (sindicatos, partidos políticos de esquerda, associações e organizações) que sempre estiveram nas ruas, voltam, aos poucos, a tomar o protagonismo do processo. Porém, agora revigorados pela percepção de que suas causas têm o respaldo da população. Suas bandeiras foram legitimadas pela participação massiva nas manifestações em todo o Brasil. Não são, como cismavam em difundir alguns setores da mídia tradicional, vozes isoladas representando a si mesmas.

    Falando em mídia tradicional, esta viu diluir o seu poder de desarticulação dos movimentos. É fato que, até então, havia sempre um discurso de redução de protestos a “manifestações que atrapalhavam o trânsito”. Pouco se dava espaço à discussão das pautas de reivindicações dos movimentos. Pressionada, porém, pela surpreendente adesão aos atos do último mês, esta mesma mídia se viu obrigada a rever sua postura (se esta perdurará é uma incógnita). O exemplar mais icônico dessa mudança, que não deixa de ser oportunista, está na fala do cronista Arnaldo Jabour (o chato mor) que mudou de opinião sobre as manifestações como quem corria do ladrão.



    A mudança no tom da cobertura foi uma atitude que, para os mais críticos, demonstrou o desespero da velha mídia em perceber que sua influencia está se diluindo cada dia mais com o advento das mídias sociais. Por outro lado, ficou clara a tentativa dessa mesma mídia de tomar para si, direcionar e manipular as causas das manifestações. Há por trás dessa postura, o interesse em desmoralizar conquistas sociais importantes da democracia nos últimos anos com a ascensão de governos de esquerda (centro-esquerda?) no Brasil.

    Aliás, foram as mídias sociais o principal veículo de aglutinação - e difusão - das manifestações do “outono brasileiro”. É fato também que, já há alguns anos as redes sociais vinham como que gestando o pensamento mais crítico dos jovens que aderiram aos protestos. Muita informação sobre os abusos do poder público e sobre a realidade social brasileira, que não chegavam pelos meios tradicionais, nas redes sociais eram difundidas de forma horizontal. Tanto é que nos últimos dois anos têm acontecido manifestações espontâneas contra a corrupção, por exemplo.

    E é em relação aos jovens, a grande maioria deles pela primeira vez nas ruas, que pode ter acontecido a mais importante das transformações. Quem está nas redes sociais pôde perceber que, pela primeira vez o assunto mais discutido não era o futebol, a música da moda, o vídeo com mais visualizações. A política ficou no centro das conversas para pessoas que nem se importavam com este assunto. De fato, muitos debatiam o tema de forma superficial, mas o assunto estava ali, bem ou mal, sendo discutido. A semente de um pensamento mais crítico em relação à realidade foi plantada. E a lição de que reivindicar é forma legítima e eficaz de luta pelos direitos parece que foi aprendida. O futebol continuará sendo pauta, a moda da vez também (porque não?), mas a política está, finalmente e intensamente, em pauta para esta geração.

    Por sua vez, os movimentos sociais e partidos políticos de esquerda se depararam com a realidade de que o pensamento de direita e até de extrema direita também disputa as ruas (citação ao ótimo texto do Valter Pomar). E foram, em parte, tomados de assalto pela rejeição de manifestantes em diversas cidades, pelos gritos “sem partido” reverberados, pela tentativa de redirecionar o foco das manifestações para atos anti-governo. Há sinais de que estes partidos de esquerda e movimentos sociais começam a rever suas posturas.

    Nas instâncias do poder (no caso, Governo e Congresso/Senado), os protestos – que também eram por conta da insatisfação generalizada e legítima com as posturas soberbas de parte considerável da classe política – causaram uma inquietação positiva. De um lado, o Governo Federal viu a oportunidade de pressionar pela aceleração de ações importantes nos âmbitos político (a reforma política) e social (saúde e educação, principalmente). De outro, o Parlamento acelerou a votação e aprovação de projetos que há anos estavam emperrados, projetos estes com potencial para auxiliar nas mudanças necessárias.



    O calor das manifestações pode e deve se tornar força para uma nova relação da sociedade com a política no seu significado mais genuíno. Que assim seja.


  3. A vida do líder africano Nelson Mandela não caberia em uma trilogia, quanto menos em um único filme. Recentemente, duas inspiradas e inspiradoras produções americanas, A luta pela liberdade (Goodbye Bafana) - 2007 e Invictus – 2009, retrataram parte da biografia do ex-presidente, símbolo da resistência ao apartheid (regime de segregação racial adotado entre 1948 e 1994 na África do Sul) e referência mundial na luta contra o racismo.

    Apesar de não esgotarem as facetas dessa figura tão importante para a história contemporânea, os filmes mostram em meio aos dramas vividos pelos personagens centrais, momentos cruciais da biografia de Madiba (o apelido carinhoso de Mandela que remete ao clã da qual sua família descende). O primeiro termina no momento em que Mandela ganha a liberdade, em 1990, depois de 26 anos na prisão. O segundo começa justamente com cenas de Mandela sendo solto e se tornando presidente da África do Sul.

    Portanto, são filmes que, mesmo não sendo continuações oficiais, servem muito bem à transição entre os dois períodos da história do líder africano. E as semelhanças entre as narrativas vão além do fato de tratarem da biografia de uma única personalidade. Ambos têm como co-protagonistas homens brancos que veem suas vidas serem modificadas pelo relacionamento marcante com Mandela. É a metáfora para a influência de Mandela nas transformações ocorridas em seu país.

    A luta pela liberdade conta a história de James Gregory (Joseph Fiennes), um típico branco sul-africano, que enxerga os negros como seres inferiores, assim como a maioria da população branca que vivia na África do Sul sob o apartheid dos anos 60. Crescido no interior, ele fala bem o dialeto Xhosa. Exatamente por isso, não é um carcereiro comum: atua, na verdade, como espião do governo com a missão de repassar informações do grupo de Nelson Mandela (Dennis Haysbert) para o serviço de inteligência.

    A convivência com Madiba, porém, cria um forte laço de amizade entre eles e transforma James em um defensor dos direitos negros na África do Sul. Dirigido por Bille August, é um filme que apela para relatos mais objetivos dos fatos, sem cenas de forte apelo emocional ou ufanismos que engrandeçam a figura dos protagonistas.

    Numa das melhores cenas de Goodbye Bafana, Mandela e James se aproximam ainda mais relembrando a infância de ambos num jogo/luta tribal.

    Já Invictus é o típico filme americano de exaltação aos feitos heroicos de seus personagens diante de uma situação desafiadora – não necessariamente algo negativo ou que distorça a realidade quando se sabe que Mandela ganhou, por exemplo, o Nobel da Paz por suas ações à frente do país. Nesta produção, do diretor Clint Eastwood, Nelson Mandela (Morgan Freeman), recentemente eleito presidente, tinha consciência que a África do Sul continuava sendo um país social e economicamente dividido pelo racismo, em decorrência do apartheid.

    A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi (o esporte mais popular na África do Sul), pela primeira vez realizada no país, dá a Mandela a ideia de usar o esporte para tentar unir a população. Para tanto, chama o jogador Francois Pienaar (Matt Damon), capitão da equipe sul-africana, para uma reunião e o incentiva a levar a seleção nacional ao campeonato. Pienaar vira um aliado de Mandela na empreitada e acaba lutando por algo muito maior do que a vitória nas partidas: ele consegue fazer com que os jogadores, até aquele momento todos brancos, aceitem jogar ao lado de atletas negros. E com isso, representar que era possível a convivência e cooperação entre pessoas de cores de pele diferentes.

    Uma das últimas cenas de Invictus, quando a seleção de Pienaar vence e negros e brancos torcem e comemoram juntos

    A trajetória de Nelson Mandela provavelmente dará outros bons filmes, já que sua história apresenta fatos singulares que chamam a atenção. Assim como outras personalidades históricas importantes, há em sua biografia fatos contraditórios, como a conduta de pessoas próximas a Mandela (entre elas uma de suas ex-esposas, Winnie, envolvida em vários escândalos políticos). Nada, porém, que diminua seu valor para os direitos humanos.

    Com sinopses do site www.adorocinema.com


  4. Alguns artistas da música conseguiram a façanha de se tornar eternos, ultrapassando barreiras como o tempo e até mesmo a morte. A ida à carinhosa exposição Viva Elis, em passagem pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, no último domingo, me atestou aquilo que eu já suspeitava. A obra de Elis Regina tem essa estranha força de encantar mesmo gerações de pessoas que nunca a viram num palco, que não estavam lá nos lançamentos de seus discos e especiais de TV.


    Ver crianças de 9, 10 anos balançando as cabeças ao colocar um fone de ouvido e escutar músicas e entrevistas de Elis, assim como nossos pais anos atrás, imersas e atentas, é realmente curioso. Representantes desta nova geração acostumada a ouvir cantoras, brasileiras ou não, com impostações de voz à moda “american diva” e suas batidas extremamente eletrônicas, estavam ali se deliciando ao som de originais interpretações viscerais e emocionadas da Pimentinha (um dos apelidos de Elis).

    E eu também, que nasci um ano e meio depois de sua súbita morte, estava ali envolvido com projeções em telões de alta resolução, sons remasterizados e gravações originais de uma época que não vivi, mas que me remetiam a um sentimento incoerente de nostalgia. Mas saudade de algo que não vivi?

    Talvez tenhamos herdado de nossos pais essa estranha mania de gostar de Elis. Talvez o culto à sua obra foi, sim, transmitido a nós por pessoas que estavam lá, sobretudo pela mídia que, neste caso, soube de alguma forma valorizar e perpetuar o talento dessa grande artista. Talvez a marcante presença de uma “herdeira” do talento de Elis, sua filha e também cantora Maria Rita, tenha despertado o interesse das novas gerações por sua obra. 

    Talvez estas sejam respostas possíveis à minha indagação, porém nenhuma delas é completa. Basta um olhar sobre o cenário musical pra constatar, por exemplo, tantos talentosos filhos de notáveis artistas da música brasileira que tentam levar a obra dos pais às novas gerações e não têm êxito. Basta reconhecer artistas que, apesar de toda mídia em torno de suas memórias musicais, não ultrapassam a barreira da simples memória. Basta olhar a prateleira de vinis de nossos pais e avós pra ver que tanta gente que eles gostam não passam de “música velha” pra nós, os filhos e netos.

    A obra de Elis, porém, é extremamente viva, como o proposital nome do projeto que está levando exposições e shows sobre a artista para os cinco cantos do Brasil. Suas interpretações cheias de teatralidade e, ao mesmo tempo, verdade conseguem falar a todos, pois tocam em temas universais e permanentes. A qualidade musical dos parceiros que escolheu, de músicos e seus arranjos a compositores e suas poesias, agrada aos ouvidos, sem distinção.


    A melhor definição para a comoção causada por Elis Regina e sua música saiu de forma simples da boca da minha boa companhia à exposição, minha noiva. Disse, quando saíamos da última sala que visitamos – onde tivemos acesso à uma playlist interativa da qual podíamos ouvir as gravações de qualquer disco da cantora e ainda ler informações de encartes e matérias jornalísticas:

    - Se desse a gente não saía mais daqui, né? - Elis não saiu...




  5. Não é de hoje nem de ontem, que o Rio de Janeiro é um dos expoentes culturais palco de convergência das mais diversas referências musicais brasileiras. E foi esta pluralidade que permitiu que dois promissores músicos da MPB, de diferentes lugares do país, fizessem juntos o pré-lançamento de seus respectivos CDs. No show “Da Bahia a Minas”, que marcou as noites de terça-feira durante o mês de Julho, no bar Semente, na Lapa, Emerson Leal, o baiano, e César Lacerda, o mineiro, apresentaram ao público suas composições.

    Em um primeiro momento a mistura de tão diferentes referências pode soar improvável, como pão de queijo e acarajé. Mas no palco a distância geográfica se dilui e a originalidade musical de ambos faz do show um momento de celebração da MPB.

    Emerson Leal vira “músico da banda” de Cesar Lacerda e vice-versa. As canções, composições próprias de ambos que serão lançadas em álbuns distintos até o final do ano, são apresentadas aos ouvidos curiosos e atentos da plateia presente no espaço localizado aos pés dos arcos, no bairro boêmio carioca.

    A primeira parte do show fica por conta de César Lacerda, mineiro de Diamantina, que já participou de projetos como o “Por um passadomusicável” e “Coletivo Abgail”, de repercussões relativas na internet e nos palcos da cena alternativa Brasil afora.

    As canções autorais de César, algumas delas já disponíveis em EP no Musicoteca, ganham roupagem acústica bem diferente dos arranjos conhecidos. A originalidade das experimentações sonoras presentes no EP em canções como “Herói” e “Namorin”, dá lugar à crueza da “voz e violão” (com um pouquinho de percussão em alguns momentos) e o tom intimista das composições prevalece. O mineiro até se arrisca em compartilhar: “essa (música) foi feita em homenagem a uma prostituta portuguesa que conheci em Lisboa”.

    Esquentando a segunda parte da noite, Emerson Leal chega com sua música de referências diversas e tons coloridos. Seu repertório que remete a vários estilos musicais é recheado de boas composições assimiláveis em termos de conteúdo – letras que contam situações com as quais qualquer um se identificaria –, mas que fogem a obviedades na forma. A sonoridade das palavras ganha peso em suas composições que, por isso, se arriscam em neologismos de expressões como “me love-me”. O efeito surpresa é outro recurso poético presente em canções como a divertida “Blues da Vampira”.

    Soteropolitano radicado no Rio de Janeiro, Emerson tem a musicalidade na sua formação.  Músico intuitivo, montou show próprio intitulado “Arte final”, apresentado em teatros na capital Baiana, no início dos anos 2000. A participação na extinta banda de blues tupiniquim Oda Mae Brown possibilitou ao compositor explorar um tom descontraído, ecoado hoje em algumas de suas atuais poesias musicadas.

    Sua participação como músico em shows e gravações de diversos artistas da cena da MPB rendeu parcerias com nomes como Tom Zé e Luiz Tatit. Parcerias estas que, promete, “estarão registradas no CD de estréia”, antes de emendar a bonita composição em conjunto com Tatit “Das dores e das flores”.



    Os duetos de César e Emerson no final do show para levar, além de canções autorais, músicas de Caetano Veloso e Chico Buarque (só para citar dois deles) apresenta uma amostra do vasto universo de referências que influenciaram musicalmente seus repertórios. A participação da cantora e compositora também estreante Luiza Brina foi um regalo a mais para quem já estava satisfeito por ter ouvido amostras de MPB de qualidade ao longo da noite.

  6. Sustentabilidade – Duas visões

    20 de junho de 2012


    Na esteira das discussões sobre Sustentabilidade provocadas pela Rio + 20, a visão de dois pensadores sobre o tema chama a atenção para questões relevantes acerca das mudanças de paradigmas que a humanidade precisará enfrentar se quiser legar um mundo melhor para as próximas gerações.

    De um lado o teólogo e filósofo brasileiro Leonardo Boff e de outro o administrador americano Mark Kramer. Duas visões que divergem ideologicamente, mas que trazem contribuições importantes para o debate, e chamam à responsabilidade com que as transformações precisarão ocorrer para que a terra não entre no anunciado colapso.

    O marxista Boff defende que a humanidade está passando por um período de crise, com todos os latentes problemas de ordem social, econômica e ambiental. “Toda crise, pode ser uma oportunidade de aprendizado para uma transformação de valores e comportamentos muito maior”, diz.

    Ao conceito de sustentabilidade, cunhado no Relatório de Brundtland (1987) como o “uso dos recursos naturais que deve suprir as necessidades da geração presente sem afetar a possibilidade das gerações futuras de suprir as suas”, Boff acrescenta a ideia de comunidade de vida. Para ele o homem é parte integrante de uma cadeia, da qual faz parte todo ser vivo e os elementos naturais. Portanto, o uso sustentável dos recursos naturais deve prover as necessidades de toda essa cadeia, que ele chama de comunidade de vida (e não apenas as necessidades humanas).

    O filósofo aponta que a forma com a qual o homem pode garantir a sustentabilidade passa pelo respeito aos limites da biodiversidade. Ele defende, portanto, uma exploração dos recursos respeitando a capacidade de reposição do próprio planeta. Por exemplo, o respeito ao curso natural de rios para pesca e abastecimento de água.

    Defende ainda o crescimento sustentável dos países em que os problemas sociais como a miséria e a fome estão presentes. E uma desaceleração no ímpeto de crescimento econômico dos países em que as condições de vida humana já são dignas. Por isso, o professor rejeita a ideia de que a inovação (necessária para a produção de bens sustentáveis) é dependente do estímulo à competição empresarial - para o teólogo, a necessidade por inovação deveria ser estimulada através do empreendedorismo. “Esta lógica do desenvolvimento, do lucro em cima de lucro, é insustentável”, enfatiza.

    Entre outras propostas, Boff destaca que a humanidade precisa repensar o consumo. Ele não vê outra saída, que não a redução dos níveis de consumo da parcela de 20% da população mundial que consome atualmente 80% de tudo o que é produzido (fonte: Ministério do Meio Ambiente). “O homem, sem a Terra, não sobrevive. Por outro lado, a Terra sem o homem continuará”, cita.

    Outro lado

    Contrapondo esta visão, que relaciona problemas sociais, ambientais e econômicos à voracidade da atividade empresarial, Mark Kramer, consultor americano da FSG, sugere a criação de valor compartilhado (teoria elaborada em conjunto com Michael Porter). Ou seja, envolver a geração de valor econômico de forma a criar também valor para a sociedade (com o enfrentamento de suas necessidades e desafios). “Valor compartilhado não é responsabilidade social, filantropia ou mesmo sustentabilidade, mas uma nova forma de obter sucesso econômico”, defende. (Clique e leia o artigo)

    O capitalista Kramer aponta que as questões sociais e ambientais devem integrar as principais estratégias de uma empresa, uma vez que seria incoerente a atual dinâmica empresarial de impactar negativamente os recursos naturais (matérias primas) e humanos (mercado consumidor) tão necessários à sua perpetuação no mercado.

    Segundo Kramer, para criar valor compartilhado a empresa deve ter em mente qual é o objetivo do seu negócio. Ele cita o exemplo de uma multinacional do mercado farmacêutico que, na Índia se deparou com um desafio: os consumidores potenciais viviam em zonas rurais (apenas 30% da população indiana residia na área urbana) e não consumiam medicamentos, pois não tinham acesso à saúde. Esta empresa investiu em um programa de construção de hospitais e capacitação de profissionais de saúde nestas regiões. Desta forma, “criou” seu mercado consumidor levando, ao mesmo tempo, desenvolvimento social.

    Ele defende o surgimento de um novo modelo de capitalismo em que a criação de valor compartilhado seja o objetivo principal das empresas. “O conceito de valor compartilhado reconhece que as necessidades da sociedade, e não só necessidades econômicas convencionais, definem o mercado”, suscita.

    Apesar da proposição de mudança considerável na finalidade da atividade empresarial (até então focada no atingimento de lucros e distribuição de dividendos), a teoria defendida por Kramer se mostra insuficiente ao não distinguir as grandes multinacionais das pequenas e médias empresas. Para estas, o custo elevado das transformações necessárias para atender à nova dinâmica do valor compartilhado poderia ser um entrave ao desenvolvimento.

    E quanto à questão apontada por Boff em relação à necessidade urgente de redução de consumo, a divergência é evidente. “Não defendo a redução nos níveis de consumo. Muito pelo contrário, defendo o consumo maior, com utilização menor de recursos naturais”, pondera o consultor americano, ressaltando o papel fundamental das inovações tecnológicas para tanto.

    Como percebemos, são visões antagônicas sobre um mesmo tema. Visões estas que contribuem com soluções práticas para a questão. E que, apesar das divergências, concordam em um ponto crucial: é urgente a necessidade de busca por uma solução para os problemas relacionados à sustentabilidade.


  7. “Intolero” a intolerância

    19 de abril de 2012


    Escolhi começar o post com este neologismo contraditório barato pra poder ser o mais claro possível. A intolerância e seus artifícios mais presentes (o preconceito, o fanatismo religioso, a homofobia, o racismo, a prepotência, o orgulho, e tantos outros) são as únicas atitudes que deveríamos não tolerar com veemência.

    Mas ao olhar para tudo o que escrevem, compartilham e “debatem” por aí este não tem sido o rumo tomado pela prometida liberdade de expressão e informação. Muito pelo contrário, qualquer texto, reportagem, imagem, campanha que toque em assuntos ditos “polêmicos” fica sujeito à crucificação geral.

    É espantoso como por trás de seus teclados tanta gente consegue se vestir de autoridade para opinar sobre assuntos diversos, impondo suas opiniões. Sem pensar que para poder não tolerar algo, é preciso pelo menos fazer o simples exercício de tentar se colocar no lugar do outro.

    Não defendo que as pessoas não devam ter opinião, ou a teoria de que tudo é relativo. No entanto, opinião pressupõe a existência de argumentos sólidos e racionais para apoiá-la. Não é simplesmente dizer “eu odeio isto”, “odeio quem gosta disso”,” xingo com palavrões e desejo a morte de quem gosta disso”. E, sem exageros, é isto o que vemos por aí quando algumas pessoas discordam das outras em assuntos simples como o gosto musical ou outros mais complexos como a opção religiosa, sexual, aborto e eutanásia.

    Parece que, com a relação impessoal que a internet proporciona, os intolerantes encontraram a brecha para expor a sujeira que existe no pensamento humano. Como não serão obrigados a ouvir discordâncias, como o outro não está na sua frente para contrapor, os intolerantes se vestem de inverdades para despejar tudo aquilo que está ali dentro. E acabam se mostrando ditadores de valores vis, como certos Bolsonaros que ganharam destaque (imaginem só!) com suas idéias distorcidas da realidade.

    Incomoda-me muito saber que é este o tipo de conversa que anda dominando os novos espaços de relacionamento. Ao mesmo tempo, é bom pra saber o quanto ainda precisa ser feito para realmente haver respeito.

    Não escrevo estas palavras tortas com a intenção de que possam mudar algum intolerante. Mas, se alguém aí concorda comigo, comente aqui, ou no seu próprio blog, em seu facebook, algo que ajude a ocupar os espaços com mensagens como esta. Espalhe tolerância por aí.



  8. Humm... É... Crise?

    10 de janeiro de 2012

    Todos os jornais falam, as conversas em algumas rodas também acabam tocando nesse assunto: a crise financeira global. Mas traduzir o que realmente está acontecendo no mundo não é tarefa muito fácil. Leio diariamente sobre o tema por motivos profissionais, e nestas leituras encontrei um artigo publicado no jornal Valor Econômico bem interessante e didático que explica os motivos e tenta adiantar algumas das possíveis consequências da tão citada "Crise". Durante o texto coloquei alguns hiperlinks para esclarecer alguns termos. Boa leitura!



    A "Grande Recessão"

    Por Yoshiaki Nakano*

    A crise financeira do subprime e o colapso do sistema financeiro com a quebra do Lehman Brothers desencadeou a chamada "Grande Recessão". Mas ela é um fenômeno distinto da crise financeira em si. Com a crescente incerteza, as economias dos países centrais saem da normalidade e passam a ser regidas por comportamentos induzidos pela incerteza, medo, pânico etc., nos quais prevalecem a lógica da desalavancagem, da "balance sheet recession" e da demanda de ativos com sinais trocados gerando instabilidades nesses mercados. Como entender o que acontecerá como a economia global nesse contexto? A experiência histórica similar, a "Grande Depressão de 1890", a "Grande Depressão de 1930" e a crise japonesa dos anos 90, nos permite fazer analogias e algumas conjecturas sobre o que acontecerá nos próximos anos.

    A atual "Grande Recessão" não deverá ser tão profunda quanto a "Grande Depressão de 1929 a 1939", afinal aprendemos alguma coisa com ela, mas será tão abrangente e duradoura quanto e deverá ter significado histórico similar ao da "Grande Depressão do final do século XIX.

    Será abrangente no sentido de ser uma crise global, diferentemente da crise japonesa, ou seja, é uma crise do próprio processo de integração e globalização financeira promovido pela plutocracia financeira que vem exercendo poder, tanto nos Estados Unidos como na Europa (talvez nem tanto na Alemanha). A "Grande Recessão" está centrada nos Estados Unidos e Europa, e já vem causando uma crise de governabilidade, mas tem também causas e dimensão internacional de forma que nenhum país ficará inume a seus efeitos de uma forma ou outra.

    Será duradoura porque como a crise dos anos 30 e a crise japonesa ela afeta tanto os credores/emprestadores como os devedores/tomadores de empréstimos. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) aumentou brutalmente a oferta de moeda e reduziu a taxa de juros para próximo a zero procurando salvar credores/emprestadores, subsidiando-os. Assumindo a função de emprestador em última instância, absorve ativos problemáticos no seu balanço, mas não resolve o problema dos devedores, que tiveram sua riqueza financeira destruída pela crise, e agora têm que pagar as dívidas.

    A política monetária pode também resolver o problema de liquidez do credor/emprestador, que detém ativos emitidos pelos devedores, já que o banco central está disposto a prover recursos com juros zero para que continuem carregando os ativos e assim fazendo por longo período poderá mascarar, amenizar e, com o tempo suficientemente prolongado, até resolver o problema de insolvência.

    Do outro lado, tanto as famílias como as empresas que se endividaram excessivamente durante o boom de crédito que antecedeu a crise, têm que desalavancar, aumentando a poupança (deixando de consumir e de investir produtivamente) para pagar a dívida acumulada. A "Grande Recessão" é o resultado dessa redução persistente da demanda agregada. Aqui a política monetária não tem efeito, pois somente uma política fiscal ativa pode recolher o aumento de poupança privada e reinjetá-la de volta no sistema econômico como demanda, para reanimar a economia. E essa foi a reação de todos os governos. Mas ao executar essa política, o déficit público aumenta e, com isso, a dívida publica se transforma também em crise da dívida soberana. A reação política da sociedade contra a classe dirigente será quase imediata. Ela está perdendo tanto a credibilidade como legitimidade, abrindo espaço para a ação de grupos radicais, tornando praticamente impossível manter uma política fiscal para tentar sustentar o nível de atividade econômica.

    Ao contrário, os investidores perceberam que os governos estão com a dívida crescendo rapidamente e perdendo legitimidade e vão não só deixar de financiar os seus déficit, mas vão tentar desfazer dos títulos públicos com consequente elevação da taxa de juros. Na medida em que a política fiscal fica travada, podemos ter uma nova contração no nível de atividade, agravando o problema de déficit publico. Assim, somente quando a segunda contração for suficientemente profunda e prolongada a trava política da política fiscal será removida.

    Qual o significado histórico da "Grande Recessão"? Em primeiro lugar essa é uma crise centrada nos Estados Unidos e Europa, portanto do núcleo do sistema global. Internamente, nesses países, foi a ascensão da plutocracia financeira, com a aliança do setor industrial, no início dos anos 1980 que permitiu a desregulamentação do sistema bancário e consequente introdução de inovações financeiras e explosão de crédito que gerou a crise. O poder do setor industrial já estava em declínio com a desindustrialização. Agora, tanto os Estados Unidos como a Europa, nas próximas décadas, deverão ter como prioridade absoluta a revitalização das suas economias, voltando-se para dentro eventualmente com medidas protecionistas, para enfrentar a ascensão da China.

    Somado a isso, a perda de credibilidade e de legitimidade da sua classe dirigente, a governança global mudará radicalmente. Viveremos nas próximas décadas um interregno com a ausência de um centro que ditava as regras do jogo, exercia liderança política e ideológica e impunha um pensamento econômico.

    A "Grande Recessão" será um longo processo de declínio da hegemonia americana, de um paradigma histórico e a gradual ascensão da China. Com o colapso de um paradigma, de um modelo econômico (uma variedade de capitalismo) que prevaleceu plenamente nas últimas três décadas, o que virá no seu lugar?

    *Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), é professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.

  9. Sobre o showmício pelos royalties

    11 de novembro de 2011

    Texto lido por manifestantes do movimento OcupaRio*, ontem na Cinelandia, durante a esquisita manifestação pela não distribuição dos royalties, que teve Furacão 2000, Mc Naldo, Sorriso Maroto e Lulu Santos.

    Sérgio Cabral

    Nós do povo!
    Cansamos de ouvir!
    E queremos falar!

    Injustiça é:
    640 para guarda municipal
    760 para professor
    960 para bombeiro
    17000 para o governador

    Injustiça é milícia!
    Corrupção na polícia!
    Injustiça é o Rio desigual!
    Onde gente morre em fila de hospital!

    Injustiça não é só no petróleo!
    Injustiça está debaixo dos nossos olhos!

    Sérgio Cabral!
    Nós do povo!
    Cansamos de ouvir!
    E queremos falar!

    Ocupar a praça!
    Ocupar o Rio!
    Ocupar o mundo!

    *Saiba mais sobre o OcupaRio.

  10. A Sociedade do Espetáculo, o álbum

    8 de novembro de 2011

    O espetacular novo álbum d’O Teatro Mágico foi lançado recentemente. O título do álbum é uma citação à famosa obra do filósofo Guy Debord, publicado pela primeira vez em 1967. Debord é marxista e ‘A Sociedade do Espetáculo’, o livro, é uma crítica à sociedade contemporânea, principalmente à comunicação de massa que dita os acontecimentos e transforma cultura em produto de consumo. Para ele, os fatos só passam a existir na ‘sociedade do espetáculo’ se forem veiculados na mídia. Aquilo, ou aqueles, que não estão na mídia não ‘existiriam’.

    O release de lançamento do novo CD da troupe fala que a linha filosófica do álbum é a obra de Guy Debord. Seria pretensão? Por um lado, se formos parar pra pensar a internet, usada pelo Teatro Mágico para divulgar sua obra é outro dos meios de comunicação de massa. Ora, se fosse pra criticar a mídia massificada, porque usá-la como meio de propagação?

    Por outro lado, porém, há quem defenda (este blogueiro, por exemplo) que a internet é um veículo de comunicação diferenciado, que permite ao usuário criar suas próprias formas de receber e descartar as informações. Neste caso quem acessa tem certa liberdade na escolha das fontes de informações e nos conteúdos e não fica a mercê daquilo que é ditado por um grupo de proprietários dos meios de comunicação.

    Principalmente em duas canções de ‘A Sociedade do Espetáculo’, o álbum, vemos a ideologia da espetacularização sendo criticada: “Amanha... Será?” que traz o verso, digamos profético “o post é voz que vos libertará”, tem um ótimo clipe só com imagens da TV Al Jazeera sobre as guerras árabes, intencionalmente utilizadas com o objetivo de mostrar “outra visão” dos acontecimentos naquela parte do mundo.

    Os conflitos mais recentes foram marcantes por mostrarem o poder das redes sociais para a mobilização. E de fato a visão ocidental sobre a situação naquela área está limitada à linha editorial dos informes das grandes agências de notícias americanas e européias.

    A outra canção, também com tom crítico à ‘sociedade do sensacional’, se chama “Esse mundo não vale o mundo” e traz versos como: “A impostura cega, me surda e muda”, “agonizo um povo estatisticamente” e “Somos massas e amostras”.

    No restante do álbum, porém, nada lembra a obra de Debord. Algumas músicas levantam questões sociais importantes como a disputa pelas terras consideradas improdutivas, a necessidade de repartir ou a autonomia feminina. Outras falam de amor, simplesmente. Outras ainda versam, com certa profundidade, sobre questões existencialistas. Duas são novas versões de antigos sucessos da própria banda que não haviam entrado em nenhum CD: um chamego para os fãs.

    Deixo vocês com alguns links interessantes relacionados à esta minha “crítica-comentário”.

    - A versão e-book do livro A Sociedade do Espetáculo, de Guy Debord: http://www.arq.ufsc.br/esteticadaarquitetura/debord_sociedade_do_espetaculo.pdf

    - Uma ótima matéria do portal IG falando sobre as canções faixa a faixa: http://ultimosegundo.ig.com.br/cultura/musica/faixa+a+faixa+exclusivo+do+novo+album+do+teatro+magico/n1597084637920.html

    - O álbum pra baixar disponibilizado pela própria banda gratuitamente na internet: http://tramavirtual.uol.com.br/o_teatro_magico/

  11. A minha “mídia” sou eu

    6 de setembro de 2011

    Assisti recentemente à palestra do filósofo, pensador contemporâneo, Pierre Lévy. É atualmente um dos mais respeitados teóricos que falam das novas mídias (internet, redes sociais, hipertextos, enfim, o universo digital). Em resumo, ele acredita na idéia de que estes novos meios de comunicação e seus dispositivos eletrônicos estão se tornando a extensão do próprio corpo do homem-usuário.


    Aqui no blog estava criando uma lista das “10 melhores músicas/artistas musicais para compartilhar” (o tão famoso botão “Share” do Facebook e outros aplicativos). A criação dessa seleção de artistas, como puderam acompanhar nos últimos meses, me mostrou como nos últimos tempos a afirmação do título desse post é cada vez mais uma realidade pra mim.

    Meus relacionamentos, meus gostos, meus ouvidos e olhos abertos à tudo o que está à minha volta... Eu sou a minha própria mídia.

    A mídia que dita tendências, cria modas, “faz a cabeça”, o uso mais corriqueiro deste termo, está migrando das mãos dos grandes veículos de massa para cada um de nós. Dos artistas que citei na minha lista, poucos tinham grande penetração nos meios tradicionais de comunicação populares, que até algum tempo atrás, se não ditavam, pelo menos orientavam meus gostos.

    Estes me abriam um leque de opções reduzido ao que já “existia” e já tinha “dado certo” e algumas poucas “novidades” que seguiam certo “padrão” de qualidade: o “pop” no sentido pejorativo da palavra. É fato que desde sempre, muita gente já apresenta gostos musicais diferentes daquilo que está “na moda”. Também é fato, porém, que agora ficou mais fácil e democrático “ser diferente”.

    Muitos afirmam que Pierre Lévy consegue exercitar em seus livros o dom da premonição. De fato ele “previu”, em meados dos anos 1990, vários dos acontecimentos que mexeriam com a vida de todos no novo milênio. Desde o mundo dos negócios, até o mundo dos relacionamentos íntimos, tudo está sendo transformado pelos avanços da web – a “grande rede”.

    Verdade que ainda existe uma grande parcela da população segregada dessas transformações. O próprio Lévy não nega a existências desses “marginais tecnológicos”, entretanto, como ele afirmou na palestra que tive o prazer de assistir, os números mostram que esta diferença está diminuindo, com tendência a deixar de existir.

    Para o filósofo, a interação é a base de tudo o que se almeja na internet. Segundo afirma, ainda não se chegou ao grau de interação total, mas muitos avanços aconteceram. Lévy criou a idéia da “web semântica”, que seria um nível mais elevado dessa interação. Na verdade, já existem centros de pesquisa pelo mundo trabalhando no desenvolvimento da ferramenta.

    Já imaginaram um mundo onde tudo o que há, desde pessoas, até objetos, bens de consumo, obras de arte, etc. “exista” também dentro da rede? Ouviram falar do “avatar” do Second Life? Pois é esta a idéia do cara.

    A minha lista de artistas para dividir - ainda que dentro das limitações dessa “web não-semântica” - é um sinal dessa interação. Traz artistas que fazem sentido pra mim e um grupo de pessoas que se relacionam comigo, que por sua vez se relacionam com outras pessoas na web, que numa das pontas desta rede ouviram um artista com músicas postadas em seu blog, myspace ou canal no youtube, ou simplesmente “pirateado” de um CD emprestado. Pelo menos 3 dos artistas citados disponibilizam as músicas gratuitamente para baixar pelo site Trama Virtual.

    O que mais me marcou da apresentação de Pierre Lévy, foi a compreensão de que o homem está tentando, cada vez mais, com as permissões das tecnologias, reproduzir aquilo que ele é na web. Só que de maneira ampliada, com possibilidades infinitas. O projeto da “realidade virtual” nada mais é do que poder ver, ouvir, falar, interagir e até sentir o que não pode estar ali de fato.

    Fiquei deslumbrado recentemente, com e-mails de amigos que me mandavam links para uma viagem em 360º pela capela Sistina ou o Santo Sepulcro. “Fui” ao outro lado do mundo ao abrir minha caixa de entrada. Imaginem quando estiverem mais acessíveis financeiramente as tecnologias 3D para o meu laptop!

    Terminei minha lista com a sensação de ter “criado” a minha própria “tendência”. Para mim mesmo mais do que para os outros, que provavelmente não vão gostar de tudo o que ouviram por aqui. Mas utilizando as tecnologias, consegui transportar um pouco de mim para este veículo interativo de possibilidades quase infinitas que é a web. É a mídia que cada um de nós está construindo.


    Ps.: confiram a lista nos posts abaixo:

  12. A lista nacional

    16 de maio de 2011

    A lista nacional começa com Meu Tio Matou Um Cara, que não está na minha seleção por causa da sempre boa atuação de Lázaro Ramos, no papel do tio “assassino”. Nem por ter a sempre seminua Débora Secco no papel da namorada do tio. Mas sim por ter uma historinha pano de fundo de um amor adolescente, desses que a gente sente saudade, entre Duca, vivido por Darlan Cunha – o Laranjinha, e Isa, vivida por Sophia Reis. A trilha sonora, assinada por Caetano Veloso, se encaixa perfeitamente ao clima do filme. Na mesma linha adolescente, vale muito a pena As Melhores Coisas do Mundo. Ver este filme, que tem no elenco Denise Fraga brilhante e quebrando ovos (quem viu sabe do que estou falando!), foi uma prazerosa volta aos meus tempos de escola.

    Já O Homem Que Copiava, tem de novo Lázaro Ramos no papel principal, vivendo André, um operador de Xerox que quer impressionar Silvia (Leandra Leal). Acaba se envolvendo com Luana Piovani (a sedutora Marinês) e Pedro Cardoso (Cardoso) num esquema de falsificação de dinheiro. O diferente nesse filme é o fato de ter um herói fora dos padrões do “bom-moço”. Acabamos torcendo para que ele saia impune das falcatruas e até para que consiga assassinar uma pessoa. Atualização do anti-herói da literatura.

    Bicho de Sete Cabeças revelou o grande ator Rodrigo Santoro na pele de Neto, um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico depois que seu pai descobre um cigarro de maconha em suas roupas. No tal hospital o jovem passa por “tratamentos” dignos de torturas da idade média. O filme tem ainda Cássia Kiss no papel da mãe de Neto, e Gero Camilo, engraçadíssimo encarnando o interno Ceará. É “político” por tratar abertamente da questão dos manicômios e, ao mesmo tempo, “sensível” ao tocar sem pudores nas dificuldades do relacionamento familiar. Sem falar na música tema do filme do Zeca Baleiro.

    Elegi Cidade de Deus e Carandiru como os dois exemplos de filmes que tratam da questão social brasileira. O primeiro mostrou ao mundo, pela primeira vez, as entranhas do crime organizado no Brasil. E fez isso num ótimo thriller de ação. O segundo é um exemplo de boa adaptação de livro para o cinema. No caso, o livro Estação Carandiru de Dráuzio Varella, sobre o tempo em que foi médico no presídio paulista que seria palco da maior chacina do sistema prisional brasileiro.

    O Brasil também sabe fazer bons romances. É o que provam dois exemplares nacionais do gênero: Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis. E os dois filmes trazem sacadas inteligentes para falar de amor, tema tão batido nos cinemas. Pequeno Dicionário Amoroso, com Andréia Beltrão e Daniel Dantas vivendo o par romântico, fala das várias fases de um relacionamento de A a Z. Já Amores Possíveis tem como ponto de partida um desencontro entre os personagens de Carolina Ferraz e Murilo Benício. A partir daí são contadas três histórias com os diferentes rumos que este desencontro poderia ter tomado.

    Fernanda Montenegro dispensa apresentações. Infelizmente não conheço toda a sua filmografia, até pelo fato de ser um ainda jovem interessado no cinema nacional. Mas três dos recentes filmes desta atriz não poderiam deixar de fazer parte da minha lista: Central do Brasil, o ganhador do Oscar, O Outro Lado da Rua, em que temos o privilégio de vê-la vivendo um par romântico de terceira idade com Raul Cortez, e Casa de Areia, que mostra que o talento pode estar no DNA, já que divide a cena com a filha Fernanda Torres.

    Quando escreveu, em 1955, a peça teatral em forma de auto, Ariano Suassuna, não imaginaria que O Auto da Compadecida faria sucesso nas telas de cinema do Brasil. Engraçado demais este filme. Atuações fora de série. Matheus Nachtergale vive o aproveitador João Grilo, Selton Mello é o covarde e mentiroso Chicó, Marco Nanini é o cangaceiro Severino de Aracaju, Fernanda Montenegro encarna a Compadecida entre outros artistas de peso... Não sei, só sei que foi assim.

    Como já disse antes, quando o cinema e a música se complementam, o filme não pode ser ruim. É assim em Os Desafinados, que tem como pano de fundo a história da Bossa Nova, com suas belas canções de amor, humor e poesia. O elenco tem Rodrigo Santoro, Alessandra Negrini, e uma das melhores atrizes brasileiros na minha opinião, Cláudia Abreu. (Por falar em música e Cláudia Abreu, outro filme bom de se ver é O Caminho das Nuvens, que tem as músicas de Roberto Carlos embalando a trajetória de uma família retirante nordestina).

    No quesito documentário, Faixa de Areia é um ótimo filme que fala sobre as praias do Rio. Os documentaristas vão desmontando o pensamento coletivo lugar comum de que “a praia é o lugar onde todo mundo se mistura”, “na praia não tem preto, branco, pobre, rico”. Apresentam as segregações culturais e sociais que existem ao percorrerem o litoral carioca, abençoado por belas e diferentes praias. A diversidade convive no mesmo espaço, mas nem por isso ela deixa de existir.

    Muito Gelo e Dois Dedos D’água foi indicado pela amiga blogueira Clara Del Vale. É a história, regada a drogas lícitas e ilícitas, de duas irmãs que armam uma vingança para a avó megera, vivida por Laura Cardoso. Neste filme percebi que Mariana Ximenes e Thiago Lacerda sabem atuar. Como a Globo pode limitar um ator não é mesmo? A bela atriz vive uma jovem perturbada e traumatizada pelas torturas psicológicas promovidas pela avó. O galã mostra que sabe ser engraçado e vive um tipo desajeitado e tapado, marido de Paloma Duarte, a outra irmã traumatizada. Os desenhos que formam os flashbacks da infância das irmãs são bem utilizados. Muito Bom.

  13. Foi tudo verdade... e grátis

    18 de abril de 2011

    Estreando no 16º Festival “É tudo verdade”, que aconteceu no Rio e em São Paulo entre os dias 31 de março e 10 de abril, o documentário “Granito” mostrou de modo objetivo as atrocidades cometidas pelo exército da Guatemala no período ditatorial do final do século passado. Sob a perspectiva das tentativas de julgamento e punição dos ditadores guatemaltecos, a documentarista americana Pamela Yates, retratou como as imagens de um documentário anterior - “When the mountains tremble” - foram imprescindíveis para os desdobramentos do processo contra os acusados.

    Em suma, é uma narrativa cheia de esperança de que “um dia” a “justiça será feita” para os familiares e ex-prisioneiros políticos nativos do país da América Central. A situação na Guatemala não é diferente da de vários países latino-americanos entre 1970 e 80, quando o fantasma do comunismo aliado a interesses de grupos políticos locais tomou conta, fazendo surgir vários regimes absolutistas.

    No entanto, a singularidade deste episódio está justamente na atitude quase heróica da própria diretora do filme, que saiu dos Estados Unidos com o objetivo de documentar os acontecimentos na Guatemala. Como ela mesma conta, o que motivou as filmagens foram as informações de que o Tio Sam financiaria todas as atrocidades cometidas pelos líderes do Exército no país. “Não conseguiria entrar no país não fosse a ajuda de colegas jornalistas que tinham credenciais para trabalhar no país”, diz.

    As imagens gravadas no início dos anos 80, período mais duro da ditadura na Guatemala, seriam utilizadas nos anos 2000 em um tribunal internacional instituído pelo governo da Espanha. Imagens de valas onde eram encontrados centenas de corpos, repressão do exército a manifestantes nas ruas e até entrevistas exclusivas com os generais e líderes da ditadura, que achavam a moça americana uma repórter que não representava ameaças. Tudo documentado.

    Ao final das investigações e depois de ouvidos depoimentos de várias vítimas e familiares, porém, o tribunal só poderia chegar a um veredicto depois de ouvir os principais acusados de serem os mandantes do genocídio. O governo da Guatemala, ainda contaminado por grupos ligados aos acusados, porém, se negaria a deportá-los para serem ouvidos. Do final da edição do documentário pra cá, pouca coisa mudou.

    Ao contrário do que eu pensava ao ler o nome do filme na programação do festival, “Granito” traz, na verdade, a proposta de ser um ‘grãozinho de areia’ na defesa da verdade e da justiça (antes de assistir havia feito relação do nome do filme com a rocha que em português leva o nome de Granito, o que acabou sendo um interessante ‘fator surpresa’ na hora em que assisti ao filme).

    Melhor do que assistir ao documentário sem pagar um centavo por isso, foi poder participar de um bate-papo com a própria documentarista. No fim da sessão ela nos falou um pouco mais sobre a experiência que teve com o povo da Guatemala durante os vários anos de convívio com extermínios, desaparecimentos, prisões e a corrupção. Uma das vitórias alcançadas após a finalização do filme, segundo contou Yates, foi a proibição dos acusados de viajarem para fora da Guatemala. O bloqueio, porém não é nada comparado aos crimes cometidos ainda impunes.



  14. Lista

    17 de fevereiro de 2011

    Resolvi fazer listas. A gente sempre faz listas do tipo “as melhores músicas que eu já ouvi”, “os melhores lugares onde eu fui”, “os melhores amigos (do momento)”, “as melhores festas da minha vida”, livros... Enfim, temos a necessidade de classificar. É humano e faz bem. Ajuda a definir padrões, mesmo que eles sejam apenas momentâneos. “Todas as pessoas classificam, porque classificar é uma ordem de raciocínio”, diz a teoria. E resolvi ordenar um pouco as minhas paixões. Começo pelo cinema – primeiro o internacional – pelo qual sou um aficionado convicto e confesso. Não é uma lista definitiva, e sempre pode haver mudanças, dependendo do momento da classificação. Era pra ser um Top 10, mas não queria ordenar e no fim das contas acabei selecionando 11 filmes.

    Matrix – A trilogia: começo com esse novo clássico da ficção científica. Filmaço que inovou nos efeitos especiais. Dizem os críticos que apenas o primeiro filme foi bom porque trouxe vários questionamentos filosóficos sobre a sociedade líquida. Eu discordo. A “filosofia Matrix” foi muito bem explorada no primeiro filme e continuar aprofundando o que já estava profundo nos outros dois poderia tornar a história repetitiva, além disso, já no primeiro filme dava pra ter idéia do rumo que o roteiro ia nos levar.

    O Senhor dos Anéis – A trilogia: trilogias precisam ser histórias que não caberiam em duas, três horas de reprodução. E três é um bom número, quatro fica um pouco demais. Não só pela extensão da obra de J.R.R. Tolkien, mas pelo instigante conteúdo, a saga do anel não poderia deixar de ser uma. Gosto de filmes que trazem a fantasia de universos irreais e este é um épico do gênero. Sobram atos heróicos para fazer quem assiste vibrar no banco do cinema. Memorável a atuação de Andy Serkis na pele de Gollum.

    American Pie – A trilogia: Fechando a lista de trilogias, um título bem pipoca com guaraná. Contrariando as críticas mais intelectuais, o filme é um ícone do gênero “filme adolescente americano”. As situações são hilárias e num roteiro muito bem amarrado. Fora todos os clichês da sociedade colegial do Tio Sam, pessoalmente, tratou com humor vários dilemas da minha própria adolescência. As outras continuações dessa série não entram na minha lista, primeiramente porque não vi todos, segundamente porque não têm a mesma qualidade e principalmente porque não falam da mesma história com o mesmo grupo de personagens.

    Queime depois de ler: os filmes dos irmãos Cohen (Ethan Jesse e Joel David) são sempre surpreendentemente maravilhosos. Escolhi este dentre os vários deles que vejo e revejo no meu DVD (Onde os fracos não têm vez, Um homem sério, E aí, meu irmão, cadê você?...). Os caras são vanguarda no que fazem, e seus filmes sempre deixam uma sensação de incômodo. “Queime...” é uma comédia inteligente que trouxe Brad Pitt num papel diferente do usual e mostrou que o galã sabe atuar.

    Diamante de Sangue: inexplicavelmente (?!) filmes sobre jornalistas chamam minha atenção. Foi assim em Quase famosos, Todos os homens do presidente, O Informante, é assim em Diamante de Sangue. Tendo como pano de fundo o caos e a guerra civil que dominou Serra Leoa, África, na década de 1990, a película conta a história de Danny Archer, um ex-mercenário do Zimbábue que contrabandeava os diamantes de sangue (usados para financiar a compra de armas de guerra), e Solomon Vandy, um pescador da etnia Mende. Maddy Bowen é uma jornalista americana idealista que está em Serra Leoa para desvendar a verdade por trás dos diamantes. Maddy vai atrás de Archer como personagem para seu artigo, porém logo descobre que é ele quem precisa muito mais dela. Archer precisa de Solomon para encontrar e recuperar um valioso diamante rosa, porém Solomon pensa em algo muito mais precioso... seu filho. Reproduzi a descrição Wiki do filme porque não existiriam opiniões que traduzissem o quanto este filme é “valioso”. Só vendo mesmo.

    Um grande Garoto: além dos bons roteiros, filmes conseguem me encantar quando trazem uma trilha sonora que complementa cenas, falas e personagens. Um grande garoto começa e termina com músicas que emolduram toda a boa história baseada no livro do escritor Nick Hornby. O elenco tem a talentosa Toni Collette, a bela Rachel Weisz e o regular (no melhor sentido da palavra) Hugh Grant. É a história de um garoto que ensina um marmanjo a crescer. Assista a dois clipes da trilha sonora do filme no post abaixo.

    Volver: Escolhi este para falar do grande diretor Pedro Almodóvar, ostentor de uma filmografia cheia de obras-primas, como Má Educação e Mulheres a beira de um ataque de nervos, entre outros. Seus filmes são singulares porque sempre arrumam um jeito de tocar em questões tidas como tabus, principalmente em sociedades conservadoras como as de origem latina (Almodóvar é espanhol). Este filme traz a boa atriz Penélope Cruz no papel principal, da esposa que precisa se virar depois que o marido abusa da filha. Não conto mais porque o filme é surpreendente e vale a pena assistir.

    Em busca da terra do nunca: Dois dos meus atores preferidos atuam juntos neste filme: Kate Winslet e Johnny Depp. Ambos estão brilhantes nesta história que nada mais é do que a metáfora da vida do escritor James Matthew Barrie, comparada com a de seu principal personagem, Peter Pan. Na “vida real” o menino sério que queria ser adulto rápido, mas que no fundo escondia a mais infantil das crianças, vira Peter no livro. A avó rabugenta, brava e superprotetora é a metáfora para capitão Gancho, o pirata vilão. A fada sininho é o sopro de vida que o escritor tenta levar à mãe dos meninos, que no livro como na vida real, acabam virando órfãos.

    Vivendo a vida adoidado: é o típico filme “sessão da tarde”, clássico dos anos oitenta, sobre um jovem que mata aula com os amigos, passa o dia aprontando e no final não é pego. O sonho de qualquer estudande. Na mesma sacola coloco os ótimos Goonies, Mulher nota Mil e A dama de vermelho, entre outros, que fizeram a minha diversão na infância e que ainda fazem a minha cabeça.

    O Monstro: comédia engraçadíssima do ator, produtor, diretor, roteirista, palhaço e gênio italiano Roberto Benigni. Já vi três filmes deste grande artista contemporâneo, entre eles o emocionante e triste A vida é bela, e gostaria de conhecer mais de sua obra. O Monstro conta de forma irreverente a história de um ladrão barato que se apaixona por uma policial (Nicoletta Braschi, esposa de Benigni na vida real e parceira em praticamente todos os seus filmes) e, por isso, acaba sendo confundido com um estuprador-assassino em série que anda à solta pela cidade.

    Uma linda mulher: exemplar de um gênero de filmes que os americanos sabem fazer bem: as comédias românticas “mamão com açúcar”, que nem por isso deixam de ser bons filmes. Poderia citar uma série deles como Mensagem pra você, A teoria do amor, Um lugar chamado Nothing Hill, entre tantos... O filme tem Julia Roberts (ganhadora do Oscar pela consistente atuação em Erin Brockovich) no papel de uma prostituta que se apaixona por um ricaço e vive um romance digno de Cinderela. Aliás, esta é a grande sacada do filme, atualizar um velho e empoeirado conto de fadas.

  15. Os “sem cultura”

    23 de abril de 2010

    Saindo de um evento de samba em comemoração ao Dia Nacional do Choro, ontem a noite, ouço em tom pejorativo a seguinte frase: “Muitas pessoas de cultura não vêm aqui”. Achei no mínimo pretensioso da parte dessa pessoa que não conheço, pra não dizer pedante.

    Afinal o que define uma pessoa “de cultura”? Será que aqueles que estavam num pagode, ou num baile funk são as pessoas “sem cultura” que não mereciam estar ali?

    Me senti até mal por estar num evento para pessoas “de cultura”. Esta é uma afirmação que só fazem os metidinhos a intelectuais que existem aos montes por aí. Me causa repulsa.

    Será que ele sabia que o choro surgiu, no século XVIII, de uma mescla da cultura erudita da época -entre elas a valsa européia - com ritmos africanos? Muitas das pessoas “de cultura” daquele período torciam o nariz para o que acreditavam ser uma vulgarização cultural.

    E o samba que era a música popular dos morros do Rio - o que hoje equivaleria ao funk em termos de popularidade. Imaginem só, daqui há uns 50 anos, um evento “de cultura” que toque o funkadão “de raiz”. O grande sambista Ataulfo Alves, em parceria com Wilson Batista, cantou em 1940: "não posso mais, eu quero é viver na orgia". Quantas letras do famigerado funk não querem dizer a mesmíssima coisa?

    Não estou querendo misturar "alhos com bugalhos" e nem discutindo aqui o gosto musical de ninguém. Não gosto, por exemplo, de funk (mas também, como muitas pessoas que se dizem “de cultura”, não consigo deixar de me mexer quando toca o “batidão”). Gosto menos ainda, porém, de quem menospreza uma autêntica manifestação cultural, seja ela qual for.

    Músicos considerados “de cultura” gravaram os “sem cultura”, e a coisa se tornou “cult” da noite pro dia. Adriana Calcanhoto, por exemplo, gravou Claudinho e Buchecha (que eu já confessei a uma amiga gostar muito), e muita gente que torcia o nariz passou a cantar.

    A mais nova “cult” das paradas, Maria Gadú, pode ter transformado em clássico da MPB (?), a clássica “sem cultura” Baba Baby, da Kelly Key.

    Marisa Monte, a cantora de MPBs, Sambas, Choros e Bossas Novas, ao cantar “jujuba, goiabada, sorvete”, não soa tão diferente da Xuxa cantando “hoje vai ter uma festa, bolo e guaraná muitos doces pra você”. Só pra citar alguns exemplos.

    Por isso hoje, mais do que nunca, quero deixar aqui o meu protesto: Abaixo ao preconceito musical! Abaixo à hipocrisia cultural!

  16. Sinceridade negra

    19 de junho de 2007

    A sinceridade dos políticos é negra no “país da piada pronta”. As piadas de humor negro são aquelas que, apesar de engraçadas, dizem respeito a uma realidade nada engraçada. Como aquelas anedotas do leproso ou das crianças em países da áfrica. Pois o “país da piada pronta” fabrica não só piadas de humor negro, mas também declarações políticas de “sinceridade negra”. Nos últimos meses a verdade tem andado nua e crua na boca dos ditos nossos representantes. A última foi a da ministra-sexóloga Marta Suplicy que admitiu que a situação do caos dos aeroportos não teria jeito e que o melhor para os passageiros seria “relaxar e gozar”, disse ela, para logo em seguida tentar se desculpar. Mas pelas bandas de cá também existe muita declaração de “franqueza negra”. Semana passada na Câmara de Vereadores, em Volta Redonda, um dos parlamentares afirmou taxativo: “Não vamos pensar que existem santos nessa Casa. Enquanto olhamos o rabo dos outros, o nosso fica descoberto”. Rabo por rabo, não afirmo que todos os políticos seriam “demônios”, mas a sinceridade é negra. Na sucessão de escândalos pecuário-políticos e extra-conjugais em Brasília, mais um exemplar. O ex-deputado Roberto Jefferson - aquele do mensalão - fez uma confissão estarrecedora. Disse sobre o caso e o caso do senador Renan Calheiros com a jornalista (!) Mônica Veloso: “Pelo menos deveria ter feito vasectomia. Eu fiz”. Aliás, Bob Jefferson é pioneiro na sucessão de declarações de “sinceridade negra”. Na época do mensalão confessou ter usado R$ 4 milhões de caixa 2 em sua campanha. E quanta gente aplaudiu essa “sinceridade”, mas pelo menos dessa vez, dizer a “verdade” foi bom. O país não teve que aturar mais quatro anos do mister Bob Jeff e sua franqueza. Tem que rir pra não chorar... e acreditar porque é sincero.

  17. Gabriel Araujo

    Teoria da conspiração? Com certeza não. Enquanto o papa Bento XVI inicia sua visita ao Brasil, os deputados federais votaram e aprovaram o próprio aumento salarial, do presidente da república e dos ministros. Aproveitaram que a opinião pública está toda voltada para a visita do pontífice, e enfiaram goela a baixo do brasileiro um reajuste que vai custar míseros R$ 610 milhões aos nossos bolsos. Tadinhos, os deputados ganhavam muito pouco mesmo, apenas R$ 12.847, agora ganham o justo salário de R$ 16.512,19, fora os R$ 15 mil da verba de gabinente. O presidente também, que tinha R$ 8.885, e passa agora a R$ 11.420. Os deputados até tentaram votar o aumento na semana passada, mas adiaram, estrategicamente, a discussão.

    Agora, falando sobre a visita do papa, temos que concordar: Bento XVI não é pop. Não veremos o sumo pontífice beijando o chão do Brasil ao descer do avião, como fez João Paulo II em sua primeira visita. No máximo um sorriso torto e um aperto de mão no presidente. Não ouviremos em seu discurso piadas como: "Se Deus é brasileiro, o papa é carioca" (JP II). Provavelmente não veremos o sumo pontífice ganhar um abraço caloroso de uma cantora peituda, como fez Fafá de Belém, no Maracanã. Não veremos entoar: "A benção João de Deus", no máximo um "Bendito o que vem em nome do senhor".

    Veremos sim, o papa firmar posições. Posições sobre o aborto, como já fez em seu primeiro discurso. Posições sobre o divórcio, união homossexual, avanço das igrejas pentecostais, entre outros polêmicos. Este papa não é pop e não tem pretensão de ser. Isso é bom ou ruim? Não sei, é assunto para outra postagem. Mas que as lentes das câmeras de TV e fotografia gostariam de um JP III isso não há dúvidas.

  18. Música

    9 de maio de 2007

    Gabriel Araujo

    Abelhas em vôo solo.
    Dois dos integrantes de uma das mais conceituadas bandas do cenário nacional, o Kid Abelha, lançam CD’s em carreiras solo este mês. É a melhor banda na visão deste “blogueiro”, diga-se de passagem. As músicas belas e despretensiosas, fazem do Kid (para os íntimos) uma banda que consegue falar a todos. Na maior parte do tempo somos despretensiosos, e queremos o simples. E assim é o Kid.

    Mas voltando a falar sobre os vôos solos, Paula Toller e George Israel (o cara do sax) na verdade estão, ambos, na segunda arriscada fora da colméia. Paula lançou o disco homônimo em 1996, com sons totalmente diferentes do que o Kid faz. Em um trecho da música Derretendo Satélites, fala de sexo como nunca havia falado: “onde a tua mão está agora?/ a minha você sabe bem/ quanto mais tempo demora, mais violento vem”. Fala do filho, na música “Oito anos” (aquela que outra cantora regravou no CD Adriana Partimpim). Faz regravações de sambas, xotes e baladas rock.


    autógrafos: Paula Toller e Bruno Fortunato (guitarra) no encarte do CD Surf
    .
    No CD novo, Paula inova. Como ela mesmo diz no diário do seu site (ver links abaixo), “Só Nós” será um disco “autoral”. Duas letras de suas músicas já podem ser conhecidas no site. Uma com o cantor de surf music Donovan Frankheiter, parceiro do Kid em duas músicas do DVD do último álbum da banda, “Pega Vida”.


    Sobre o outro abelha, George Israel lança seu álbum também este mês. Trecho da primeira música de trabalho, “A noite perfeita”, parceria com o ex-abelha Leoni, já pode ser conferida na net (ver link). É o segundo solo de sua carreira. O primeiro foi “4 letras”, CD muito bom, com letras verdadeiras e despretensiosas. Em “4 letras”, que pode ser ouvido no site do Kid Abelha, George traz composições suas com Cazuza que estavam na gaveta. A música do CD novo é uma balada pop, perfeita de se cantar antes da “noite perfeita”. Aumenta o som!

    Bom, está aí um pouco da “paixão pela música” deste blogueiro. Não deixem de conferir os links:


    - Site da Paula Toller.

    - Música nova do George Israel.

    - Portal do
    Kid.