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  1. SAMBA E FÉ Roda do Sambastião nasceu de uma promessa ao santo e se consolidou na amizade dos integrantes


    O padroeiro da cidade do Rio de Janeiro abençoa a Roda do Sambastião, que acontece uma vez por mês, na praça Luís de Camões, na Glória. Fruto de uma promessa feita por um dos músicos, a roda teve sua primeira edição na semana de 20 de janeiro de 2012, e está prestes a completar 3 anos como uma das rodas populares que mais respaldo tem entre os bambas do samba.

    Tudo começou em 2011, quando o músico Marcelo Gimenez, o Paxú, teve um grave problema de saúde. Ainda no hospital, ele prometeu a São Sebastião que, caso fosse curado, faria uma roda de samba no bairro onde foi criado.

    "A intenção era fazer apenas uma roda, mas os moradores e amigos pediram a segunda, a terceira. Desde pequeno eu frequentava as festas de São Sebastião que aconteciam na praça do Russel e me tornei devoto", lembra.

    Com o passar dos anos outras histórias de superação se uniram à de Paxú, e hoje em dia a reunião mensal é sagrada. A roda tem inclusive um samba, o "Hino da Roda", composto por Raphael Moreira, Thiago Freitas e Vinicius Oliveira, que diz: "Hoje tem samba na praça / Hoje tem flecha no ar / É Oxossi quem nos guia", cantada para o orixá que é São Sebastião no sincretismo.

    A roda não tem sábado fixo para acontecer. Os organizadores do evento costumam dizer que ela acontece "no melhor sábado do mês". Por isso, é importante acompanhar a página da Roda do Sambastião no facebook, onde as datas são divulgadas.

    RESPALDO DE BAMBAS


    Ataulpho Alves Júnior e os músicos do Sambastião
    Foto: Divulgação

    A Roda do Sambastião é apadrinhada pelo cantor Ataulpho Alves Jr., filho do sambista precursor Ataulfo Alves, cantor e compositor de grandes pérolas do samba e da MPB como "Ai, que saudades da Amélia", "Laranja Madura", "Atire a primeira pedra", entre outras.

    Também morador da rua do Russel, Ataulpho é um padrinho exigente mas orgulhoso dos apadrinhados. "Quando o Paxú me falou sobre a idéia, eu disse: 'se for para fazer roda de samba de brincadeira eu não apoio. Eu coopero se for a vera'. Era 'a vera' e hoje a roda está ficando cada vez mais bonita. Eu fico orgulhoso e levo o nome dessa roda onde puder", garante.

    O padrinho não é o único que atesta a qualidade da roda. Já frequentaram o Sambastião os bambas Monarco, Noca da Portela, Wilson Moreira, Dorina, entre outros.

    UMA RODA DE AMIGOS


    A amizade é a marca principal da Roda do Sambastião. Grande parte dos músicos nasceram ou foram criados ali na rua do Russel e, por isso, a afinidade transparece no clima familiar da roda.

    Os amigos músicos que integram o Sambastião são Raphael Moreira, pandeiro e voz, Marcos Santos, cavaco e voz, Marcelo Gimenez (Paxú), cuíca, Emerson Lopes, tantã e caixa, Fumaça, no surdo, Ney 7 cordas, violão 7 cordas, Romulo Frazão, flauta e Leandro Henrique, no banjo.


    Samba menino é opção para a criançada na Roda do Sambastião


    LIVRO DE RUA Estante itinerante promove a "libertação de livros" no espaço da roda


    Levar as crianças para o samba não é um problema para quem frequenta o Sambastião. O escritor Raphael Moreira, que também é músico na roda, leva para a praça do Russel, o espaço Samba Menino. Inspirado no nome do personagem do livro escrito por Raphael, o espaço tem "contação musical da história do samba", desenhos e pintura, confecção manual de mini-instrumentos, cantigas de roda e outras brincadeiras.

    Samba menino é o samba personificado na pele de uma criança, que veio da África para o Brasil. O personagem vive aventuras na Bahia e no Rio de Janeiro, onde encontra personalidades importantes para a história do estilo musical como Tia Ciata.

    "Foi a forma que encontrei de levar a história do samba para as crianças. No espaço Samba Menino elas aprendem se divertindo", afirma o escritor.

    O Sambastião também é um dos pontos de "libertação de livros" do projeto Livro de Rua. Uma estante fica disponível no local para que qualquer pessoa possa emprestar ou pegar emprestados livros diversos.

    SERVIÇO

    Roda do Sambastião
    Onde: Praça Luís de Camões, Glória
    Quando: "No melhor sábado do mês"
    Preço: Gratuito

    * Publicado na ediçao de 24/7/2014 do jornal Brasil de Fato - RJ (http://issuu.com/brasildefatorj/docs/web_60?e=0)

  2. INTERVENÇÃO URBANA Roda de samba comemora dois anos de resistência cultural no coração do Rio

    A expressão "Resistência Cultural" está presente na arte gráfica criada para simbolizar a roda de samba que acontece todo o segundo sábado do mês no Castelo, Centro do Rio. A ocupação cultural do Samba do Castelo está comemorando dois anos em 2014, com a intenção de proporcionar acesso gratuito a arte e a música.

    Mais do que uma roda de samba, o evento tem ares de intervenção numa das regiões mais significativas para a história urbanística do Rio de Janeiro. Ali ficava localizado o morro do Castelo, removido no início do século passado para dar lugar aos largos, avenidas e edifícios que agora formam o Centro.

    Enquanto rola o samba, são projetadas na parede de um dos edifícios da Avenida Churchil imagens que representam parte da história e da identidade carioca. A lateral do prédio vira um telão onde os filmetes ajudam a compor o cenário dessa reinvenção do espaço público.

    "As imagens conversam com o que está se passando na roda de samba naquele momento. Se estão tocando sambas de compositores da Mangueira, aparecem imagens do morro, da escola de samba. Quando tocam João Nogueira, a imagem do músico também é projetada", exemplifica Rodrigo Furtado, o publicitário que edita os vídeos e acumula também as funções de produtor do evento e DJ nos intervalos.

    A Fotografia também está presente. Ierê Ferreira, fotógrafo que há anos captura imagens da cultura afro-brasileira, expõe e vende suas fotografias no local.

    O Samba do Castelo é divulgado pelas redes sociais e conta com a parceria do bar São Quim, que abriu espaço para a roda. São servidos petiscos e bebidas e o aluguel de mesa com quatro cadeiras, apenas para quem quiser, é de R$ 15.



    Fotos: Divulgação/Paula Chaves

    Passeio pelo samba

    Para Makley Matos, percussionista e vocalista que comanda a roda, tocar no Centro Histórico do Rio é significativo. "Tocamos neste lugar onde, no passado, haviam cortiços, morros. Foi com certeza um celeiro de bambas", afirma.

    O repertório da roda passeia por diversas vertentes do samba tradicional. Canções de Cartola, Paulo Cesar Pinheiro, Wilson Moreira dividem espaço com sambas de Martinho da Vila, Moacyr Luz, Elton Medeiros, Hermínio Bello de Carvalho, entre outros.

    As canjas são corriqueiras e há espaço para a mistura de samba com estilos como o hip hop, por exemplo.

    Acompanham a roda os músicos Jorge Alexandre, Fabrício Reis, Marcos Antonio Alcides, Rafael Rodrigues, além de músicos convidados.


    Do Jazz ao Forró, eventos culturais movimentam o Castelo


    OPÇÕES Jazz acontece todo terceiro sábado do mês e Forró será o próximo estilo musical explorado

    Em sua 9ª edição agendada para dia 21/6, o Jazz do Castelo já está se consolidando como mais um espaço de difusão cultural no Centro do Rio. Rodrigo Furtado organiza o movimento que está levando o público a conhecer o estilo musical que, originário dos Estados Unidos, ganha contornos brasileiros nas mãos do Trio Guga Pellicciotti.

    O grupo, formado pelo baterista Guga Pellicciotti, o tecladista João Braga, e o baixista Rômulo Duarte, recebe a cada mês outros músicos que integram o nipe de metais, voz e outros instrumentos.

    "Buscamos oferecer ao público uma deliciosa experiência musical temperados de Standards do Jazz e da música brasileira passando por sessões muito criativas marcadas pela espontaneidade e vigor", afirmam os músicos.

    A intenção dos organizadores é realizar outros eventos. O Forró do Castelo, já teve sua primeira edição, mas ainda está em fase experimental. Já aconteceram também eventos de hip hop e mpb.

    Serviço

    Samba e Jazz do Castelo
    Quando: Samba - todo o segundo sábado do mês
    Jazz - terceiro sábado do mês
    Onde: Avenida Churchill, Castelo, Centro
    Preço: gratuito

    *Publicado na edição 54 do Jornal Brasil de Fato, de 12 de junho.


  3. PATUSCADA Grupo Jequitibá do Samba conduz roda que acontece uma vez por mês na ilha que é considerada o refúgio dos cariocas


    Gabriel Araujo
    O mar sempre inspirou sambistas de todas as épocas. E é num cenário que tem o mar como pano de fundo que, todo o terceiro domingo do mês, acontece a Roda de Samba em Paquetá. Conduzida pelo grupo Jequitibá do Samba, a roda leva centenas de pessoas ao Paquetá Iate Clube, situado na ilha que tem a fama de ser o refúgio do carioca.
    Divulgado no boca-a-boca e principalmente nas redes sociais pelas produtoras musicais Áurea Alves e Régia Macêdo, organizadoras e idealizadoras do Samba em Paquetá, o evento começa na viagem de barca que custa de R$ 3,10 (bilhete único) a R$ 4,50 (passagem avulsa), e sai da Praça XV com destino à ilha. O ideal, afirmam as organizadoras, é pegar a barca de 11h30, pois a patuscada começa às 14h em Paquetá, mas também há balsas saindo às 13h e às 14h30.
    O passeio de pouco mais de uma hora pelo mar da Baía de Guanabara é um alento para os olhos. Na paisagem, Rio de Janeiro, Niterói e um conjunto de belas ilhotas ao longo do percurso. Já no desembarque, vê-se o cenário bucólico de casas baixas com quintais espaçosos e arborizados, praça com igreja, além de adultos e crianças passeando de bicicleta e carruagem.
    A apresentação, sem sonorização - acústica -, é na beira do mar, como os versos da canção de Paulo César Pinheiro, compositor unanimidade entre os sambistas do Jequitibá do Samba: "Tem palma na beira da praia / Samba de roda na beira do mar".
    Para os músicos do grupo, tocar na ilha é inspirador. "Muita gente canta Paquetá", aponta o violonista Iuri Bittar. "É um momento de encontro entre amigos que tem o gosto pelo samba em comum e que imprimem suas influências naquilo que tocamos", completa.
    No repertório, sambas de compositores das escolas mais tradicionais como Mangueira, Portela, Salgueiro e Vila Isabel, mas há espaço para composições da nova safra, que surgem à margem do monopólio das grandes gravadoras. "Não tocamos apenas os sambas mais antigos. Tem muita gente escrevendo samba atualmente", pondera o percussionista Anderson Balbueno.
    O Jequitibá do Samba é formado pelos músicos Ronaldo Gonçalves (Cavaquinho e voz), Leonardo Pereira (Cavaquinho e voz), João Camarero (Violão 7 cordas e voz), Iuri Bittar (Violão 6 cordas e voz), Julião Rabello Pinheiro (Percussão e voz), Joao Gabriel Menezes (Cavaco e voz), Anderson Balbueno (Percussão e voz), Jeferson Scott (Percussão e voz), Marcos Tadeu (Percussão e voz), Magno Julio (Percussão), Bidu Campeche (Percussão) e Leo Careca (Percussão e voz).


    História cultural de Paquetá tem choro e samba
    NATIVO O músico Anacleto Medeiros, um dos principais representantes do Choro, nasceu e foi criado em Paquetá
    O Samba em Paquetá representa a continuidade de uma relação antiga do local com o ritmo musical. A produtora Aurea Alves, uma das idealizadoras do projeto, descreve que nas décadas de 40 e 50 integrantes das primeiras escolas de samba faziam da ilha seu local preferido para piqueniques aos finais de semana.
    No filme "Com minha sogra em Paquetá" (1961), com Dercy Gonçalves no elenco, há uma escola de samba que viaja de balsa até a ilha e depois faz um desfile pelas ruas do distrito. "Paquetá também tem sua história ligada ao Choro. Anacleto Medeiros, um dos mais importantes representantes do gênero, nasceu e foi criado ali", acrescenta.
    Na história mais recente, a cantora e compositora Cristina Buarque e o grupo paulista Terreiro Grande, realizaram rodas de samba na ilha. Cristina Buarque é moradora de Paquetá e inclusive uma das assíduas frequentadoras do Samba. "Acompanho este samba desde o início e gosto muito das músicas e da qualidade dos músicos que conduzem a roda", declara a musista.
    "A idéia dessa roda surgiu justamente  em uma entrevista que fiz sobre o lançamento do CD da Cristina (Buarque ) e Terreiro Grande. Naquele momento pensamos que seria legal fazer um samba ali em Paquetá", conta Aurea Alves.
    O samba começou em 2009 na calçada do Bar Tia Leleta (Bar do Zarur ou do Paulão), mas cresceu e mudou para o Iate Clube. "Somos duas produtoras que gostam de samba e, por isso, tocamos o projeto sem almejar retorno financeiro", afirma Régia Macêdo.


    SERVIÇO
    Dia: Todo terceiro domingo do mês
    Horário: 14 horas (barcas saindo da Praça XV às 11h30, 13h e 14h30)
    Local: Paquetá Iate Clube, Praia das Gaivotas, Paquetá
    Preço: Gratuito





    FOTOS: Pedro Verísssimo

    Publicada na edição 44 do jornal Brasil de Fato, disponível no link: http://issuu.com/brasildefatorj/docs/44_web

  4. CHICLETE E BANANA Blocos como Sargento Pimenta, Toca Rauuul e Cru arrastam foliões de diversas tribos

    O carnaval é uma festa democrática. É neste espírito que alguns dos blocos mais originais do carnaval de rua do Rio misturam, sem restrições, o rock com ritmos carnavalescos como o samba, o frevo e a marchinha. Bloco Cru, Sargento Pimenta e Toca Rauuul estão entre os blocos que experimentaram a combinação de "chiclete com banana" da famosa canção de Jackson do Pandeiro.

    Para Lu Baratz a 'front woman' do Bloco Cru, que se apresentará na tarde da segunda-feira de carnaval na praça XV, no Centro, a música transcende fronteiras e estigmas. "Carnaval no amplificador. Metallica num ponto de Ogum. Canto de Ossanha, Mutantes, João Bosco e Patti Smith. A universalidade do rock e o brasileirismo das raízes. E tudo isso cru", afirma o texto de apresentação do Cru na internet.


    Este será o sexto ano do carnaval "moderninho" do Cru, que começou, em 2009, na porta da Casa da Matriz, reunindo cerca de 3 mil pessoas. Na formação principal estão o 'power trio' de rock, junto a ritmistas, egressos de escolas de samba. Na bateria, os ritimistas da Escola de Rock e Batuqueria, oficina de percussão criada pelo Cru.


    "Os roqueiros também se sentiram acolhidos e agregamos diferentes tribos", conta Lu Baratz, que comandará o desfile do Cru, este ano, grávida de 7 meses de Catarina, que nasce em maio, fruto do casamento com um dos ritmistas do bloco, Felipe Bellard.

    Agenda do bloco Cru
    16 e 23/02 - Solar de Botafogo/Rio de Janeiro (Ingresso R$ 40, R$ 30 e R$ 20)
    02/03 - SESC/Barra Mansa-RJ
    03/03 - Desfile de Carnaval no Rio
    04/03 - Desfile de Carnaval em São Gonçalo-RJ


    Carnaval "Maluco Beleza" do bloco Toca Rauuul

    SUCESSO Grupo já se apresentou em São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto e Juiz de Fora

    A frase que se tornou uma brincadeira em bares e casas de show Brasil afora foi a escolhida para dar nome ao bloco que homenageia o mais brasileiro dos roqueiros, Raul Seixas. Um grupo de fãs do artista tiveram a ideia de fundar o bloco, depois que um deles, o músico Ricardo Dias, mostrou versões de canções do rei do rock brasileiro, em ritmo de marchinha.

    As canções de Raulzito são misturadas também ao frevo, samba, maracatu, ijejá, funk, surf music, reggae, de acordo com o que cada música sugere. Outra marca do grupo são as fantasias escolhidas para representar personagens inspirados nas canções. Este ano, a apresentação do Toca Rauuul acontece na tarde do domingo de carnaval, na Praça Tiradentes.


    Os músicos contam que a escolha das combinações se dá por meio de um trabalho minucioso, respeitando ao máximo a originalidade de cada canção. "Inserimos também músicas incidentais, temas de clássicos do carnaval e de outros artistas do rock. Isso faz com que o universo carnavalesco não seja deixado de lado", pontua Dias.

    Agenda do Toca Rauuul
    22/02 - Cultural Bar/Juiz de Fora-MG
    02/03 - Desfile de Carnaval no Rio
    04/03 - SESC/ Barra Mansa-RJ


    Beatles viram bambas no carnaval

    CLÁSSICOS Sucessos dos 'Garotos de Liverpool' ganham versões brasileiras

    A banda de rock de maior sucesso de todos os tempos também encanta os foliões do carnaval de rua do Rio. No último ano, mais de 50 mil pessoas participaram da festa que o bloco do Sargento Pimenta promoveu no Aterro do Flamengo.


    O bloco surgiu da ideia de amigos que sempre pularam o carnaval e compartilhavam uma admiração pelos Beatles. O primeiro desfile foi em 2011, ainda no bairro de Botafogo. A expectativa dos músicos do Sargento Pimenta, para este ano, é de uma folia "espetacular". O desfile será na segunda-feira de carnaval, a partir das 15h.

    "A preparação começa, literalmente, assim que o último carnaval termina. Após um mês de descanso, nossa bateria volta a ensaiar", afirma Leonardo Stul, um dos diretores do bloco. Há uma banda principal, com sopros, cordas e bateria e os ritmistas, integrantes fixos e alunos da oficina de percussão que acontece , a partir do meio do ano, na Fundição Progresso, na Lapa.

    A mistura entre ritmos carnavalescos e as canções que embalam gerações há mais de 50 anos considera o "potencial de carnavalização das músicas". "A escolha leva em conta a harmonização entre a canção original e um dos ritmos brasileiros que tocamos", finaliza.

    Agenda do Sargento Pimenta
    15/02 - Cultural Bar/Juiz de Fora-MG
    28/02 - Cine Joia/SP
    01/03 - Desfile de Carnaval em BH
    03/03 - Desfile de Carnaval no Rio de Janeiro

    * Publicado no jornal Brasil de Fato em duas partes: 
    Edição 40 http://issuu.com/brasildefatorj/docs/web  
    Edição 39 http://issuu.com/brasildefatorj/docs/web_39

  5. Lista - Sambas do Chico Buarque

    22 de dezembro de 2013



    Tem muito mais, eu sei...

  6. Até que é bom

    25 de outubro de 2013

    Legião Urbana sempre foi a banda mais tocadas nas rodas de violão da minha adolescência. E, entre tantas outras, uma daquelas músicas da banda brasiliense sempre me intrigou pelo tema tão adulto tratado de forma tão simples. Não entendia como a vida funcionava, mesmo assim, imaginava que poderia ser como dizia aquela canção.

    Os versos de “O Mundo anda tão Complicado” soavam como um destino inevitável para mim. Eu que, mesmo sabendo da distância que me separava daquela sina derradeira, já vislumbrava um dia a vida de casado, esposa, filhos (quem sabe)...

    Acontece que o momento da música chegou pra mim, exatamente há duas semanas atrás, quando concretizei o sonho adolescente de construir uma família com a pessoa escolhida, que também me escolheu. Desde então, as coisas vem acontecendo um pouco como na música.

    Vê-la dormir que nem criança com a boca aberta. E vê-la acordar não tão arrumada, como quase sempre a via nos tempos de namoro, e mesmo assim achá-la linda (mesmo que ela duvide disso!).

    Deixei a segurança do meu mundo por amor. Ela deixou a segurança do mundo dela pelo mesmo motivo. Talvez isso explique a estranheza que tenho sentido nesses primeiros dias de vida juntos. Não uma estranheza ruim, apenas uma estranheza. Os amigos casados falam que é assim mesmo.

    Éramos dois em nossas individualidades, que às vezes se encontravam pra namorar. Agora somos dois tendo que dividir nossas individualidades, ceder em prol de objetivos comuns. Ainda que as individualidades continuem lá. Vi gestos de respeito a elas, por parte dos dois, nesses primeiros dias juntos, e espero que isso se mantenha assim.

    Até que é fácil acostumar-se um com o jeito do outro. Apesar de saber que o mundo anda tão complicado. Ainda mais morando em uma cidade grande. Longe da maioria dos amigos e da maioria da família.

    E como diz a música, a “mudança grande” tá chegando aos poucos. Além da grande mudança que é, simplesmente, casar-se. Terça-feira buscamos a televisão. Sexta chegou a máquina de lavar. Por enquanto, ainda precisamos dormir no chão, pelo menos até que termine a reforma que começamos faz alguns meses. Até que é bom!

    Escolhemos cor de tinta. Ela fez um pavê pra mim. Eu fiz um strogonoff pra ela. Fomos à casa dos amigos pra esquecer um pouco do trabalho, ficar de bate-papo. Ainda não dá pra fazer uma feijoada, mas prometemos em breve. Cheguei tarde do trabalho. Ela me esperou. Caminhamos no Flamengo. Compartilhamos carinho e rotinas.

    Até que é muito bom!



  7. Mais um texto sobre rodas de samba, publicado no Brasil de Fato.

    Na segunda-feira – tradicional dia de folga dos músicos - um grupo de sambistas sob o comando de Moacyr Luz promove, há oito anos, o Samba do Trabalhador, roda que já se tornou referência para os apreciadores do estilo.
    O Clube Renascença, um dos espaços mais tradicionais da cultura negra do Rio de Janeiro, fundado há 62 anos, abre as portas para trabalhadores que fazem do dia que inicia a semana útil, considerado ingrato para muitos, mais um momento de diversão e encontro.
    Além de Moacyr Luz, violão e voz, levam o Samba do Trabalhador os músicos Gabriel Cavalcante (da Muda), violão, cavaco e voz; Alexandre Nunes, cavaco e voz; Álvaro Santos, percussão e voz; Luiz Augusto, percussão; Junior de Oliveira, percussão; Mingos Silva, percussão e voz e Daniel Neves, violão de sete cordas.
    Apesar da coincidência com o nome da conhecida canção de Darcy da Mangueira, Samba do Trabalhador (ocioso), que tem versos como “Na segunda-feira não vou trabalhar”, Moacyr Luz ressalta que a intenção da roda é justamente o oposto.
    “Os trabalhadores músicos emprestam seu dia de folga para os outros trabalhadores, num espaço com música de qualidade. A música do saudoso Darcy fala da pessoa que não quer trabalhar”, esclarece o compositor, que tem canções gravadas por sambistas como Zeca Pagodinho, entre outros.
    A roda que acontece no Renascença já foi registrada em CD e DVD duas vezes. A última, em 2013, no recém-lançado “Moacyr Luz e Samba do Trabalhador”.

    Clube Renascença
    A história do Renascença, erguido por negros de classe média que sofriam preconceito ao tentar frequentar clubes, no início do século, e, por isso, se juntaram para criar um espaço próprio, reforça a singularidade do local escolhido para a roda.
    Se em clubes comuns o lazer é a finalidade mais explícita, no “Rena”, como é apelidado, a cultura é o ponto forte. Já na entrada do Clube, barracas vendem CDs de samba e músicas de referências afro-brasileiras, literatura de cordel com títulos curiosos comoArlindo Cruz e a Incrível história do Bagaço da Laranja, acarajé das mãos de baianas, e guias (colares de umbanda) montadas na hora por artesãos.

    Encontro de gerações
    O Samba do Trabalhador serve também como ponto de encontro para gerações de sambistas. Moacyr Luz, de uma geração mais antiga, conta que a ideia inicial do samba era que os mais velhos apresentassem os novos talentos. E este papel foi cumprido, segundo ele.
    Dentre os músicos que tocam ali, dois já lançaram CDs próprios. Gabriel Cavalcante lançou, em 2010, o álbum intitulado O que vai ficar pelo salão e Alexandre Nunes, o álbum Marmita, de 2011.
    Nova promessa do Samba do Trabalhador, o percussionista Álvaro Santos foi citado pela cantora Beth Carvalho em recente entrevista. “Eu fiquei lisonjeado e muito agradecido por ter meu trabalho aqui no Samba do Trabalhador reconhecido”, comemora.

    Samba de Roda
    O clima de samba de roda permeia todo o encontro musical de segunda-feira. “Músicas que não são aceitas pelos programadores de rádio, aqui são cantadas de ponta a ponta”, defende Moacyr Luz.
    A roda abre espaço para outros músicos que queiram puxar sambas de improviso. Na última segunda-feira, o compositor Eros Fidelis (da canção Falsa Consideração) participou com algumas de suas músicas.
    O público fiel também vira destaque no Renascença. Além de dançar e cantar todas as letras, as palmas das mãos das mais de mil pessoas ali presentes viram percussão. Uma delas é Dona Dalila, moradora da Tijuca e portelense de coração, que comemorou 89 anos na última segunda-feira, no Samba do Trabalhador, ao lado da família.
    Ela conta que participa da roda desde seu início. “O samba é a minha vida”, afirma, cantando e sambando.

    Samba do trabalhador
    Local: Clube Renascença, Rua Barão de São Francisco, 54, Tijuca
    Dia: Todas as segundas-feiras
    Preço: R$ 10
    Horário: a partir das 16h30

  8. Publicado na edição do jornal Brasil de Fato de 29/8/2013

    Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel, é palco para o Movimento Cultural Roda de Samba do Barão todas as quartas-feiras

    As calçadas com notas musicais de sambas de Ary Barroso, Pixinguinha, Vadico e Chiquinha Gonzaga, entre outros, anunciam que, em Vila Isabel, a música encontra um de seus principais palcos na cidade do Rio de Janeiro. É neste inspirador cenário que os músicos do Movimento Cultural Roda de Samba do Barão levam, todas as quartas-feiras, na praça Barão de Drummond, mais uma das opções de rodas populares de samba na cidade.
    O bairro que já foi reduto de Noel Rosa e tem atualmente Martinho da Vila como principal referência musical, recebe os sambistas cuja proposta é reverenciar músicos e compositores tradicionais do samba e do choro. “Tocar em um bairro tradicionalmente musical, que já foi frequentado por tanta gente boa do mundo do samba, como Vila Isabel, é muito significativo”, afirma o músico Marcelo Moraes, um dos idealizadores do projeto cultural.
    A roda, que acontece há um ano e meio, resgata para Vila Isabel a característica comunitária e familiar das rodas de samba do passado. Data de 25 anos atrás a última manifestação cultural desse gênero no bairro, quando mestre Trambique (atualmente um dos mestres de honra da bateria da Unidos de Vila Isabel) promovia uma reunião musical naquela região.
    E é a comunidade o principal público da Roda de Samba do Barão. A praça onde acontece o evento fica lotada de famílias que levam os filhos para brincar nos parques públicos, casais de namorados e jovens e adultos que frequentam bares instalados ali. São os próprios moradores que organizam barracas de cerveja, caldo de feijão e churrasquinho, produtos que são vendidos para manter a estrutura do evento, que tem até cadeiras e mesas para o público.
    Um desses moradores, Aldo de Vila Isabel, como fez questão de se apresentar, afirma que apoia o movimento por uma motivação pessoal. “Não sou sambista, sou um ‘sambador’, e por isso incentivo rodas como esta, cada vez mais difíceis de encontrar hoje em dia no Rio de Janeiro”, opina.
    Entre os colaboradores da roda, estão também os familiares de Martinho da Vila - considerado o patrono do Movimento pelos músicos - e integrantes da Velha Guarda da escola de samba Unidos de Vila Isabel.
    Movimento Cultural
    Com a proposta de levar muito mais do que uma roda de samba ao bairro, que no século XIX era a Fazenda do Macaco (aos pés do atual morro dos Macacos), os sambistas promovem, além do encontro de todas as quartas, um evento mensal no primeiro domingo do mês. Teatro infantil, balcão de emprego, feijoada, varal de poesias, exposição de fotografias, sarau e circo integram a atividade que termina com a projeção de um filme sobre o samba ou a história do Rio de Janeiro.

    O início e os projetos
    Em 2009, os músicos Marcelo Moraes, Beto Timbó e PC se reuniram para uma roda de samba no local. Com o tempo outros músicos foram se unindo ao movimento que, há um ano e meio, ganhou o formato atual. A roda é conduzida pelos instrumentistas Freitas, no trombone, Hugo Batera, no pandeiro, Luciano Bom Cabelo e Jorge Nei, no cavaco e voz, Vinicius Magno, violão sete cordas, Beto Timbó, no surdo, PC, tantã e Marcelo Moraes, violão.
    Atualmente, o grupo está finalizando o projeto da gravação de um CD com composições de Noel Rosa voltado para o público infantil. Sem patrocínios até então, eles também pensam em gravar futuramente canções de compositores desconhecidos de Vila Isabel, muitos deles integrantes da escola de samba do bairro.


    Serviço
    Roda de Samba do Barão
    Dia: Quarta-feira
    Horário: a partir das 19 horas
    Local: Praça Barão de Drummond, Vila Isabel
    Preço: Gratuito




  9. Minha estreia como colaborador do jornal Brasil de Fato foi em uma matéria sobre o samba, mais especificamente o Samba da pedra do Sal, tradicional evento musical do Rio de Janeiro. Aqui publico a versão integral do texto que foi para o jornal em "versão resumida", por conta de espaço editorial. Era tanto assunto interessante que não cabia no espaço que havia sido designado. A versão que foi publicada está neste link: http://www.brasildefato.com.br/node/23896 ou neste http://issuu.com/brasildefatorj/docs/bdf_rj_016/1?e=8798584/4441947, na página 11.

    ______________________________________________

    Samba da Pedra do Sal exalta cultura negra em um dos berços do samba

    Roda de samba completa seis anos levando a tradição do samba para um dos lugares mais significativos para a negritude do Rio de Janeiro

    No lugar onde, há mais de 200 anos, soavam os primeiros batuques que dariam origem ao estilo musical hoje conhecido como samba e a manifestações culturais como o carnaval de rua, um grupo de sete sambistas realizam nos últimos seis anos, todas as segundas-feiras, o Samba da Pedra do Sal. Mais do que uma roda de samba, como os próprios músicos gostam de se auto definir, o movimento cultural popular representa a ocupação de um espaço originalmente pertencente à música popular brasileira.

    As vielas estreitas daquela área da Zona Portuária conduzem ao Largo da Baiana, no final da Rua Argemiro Bulcão, na Gamboa, onde fica a Pedra do Sal – local onde baianos buscaram moradia mais barata na chegada ao Rio de Janeiro no início século XV, para trabalhar nas primeiras docas do Cais Porto. Duas crianças moradoras do bairro brincam de escorregar numa das partes lisas da Pedra do Sal, antes que o samba comece, ali onde a historiografia aponta ter existido o grande mercado de escravos e os trapiches para arregimentação dos estivadores do porto.

    O passado e o presente se misturam também na arquitetura das casas e estabelecimentos comerciais do local e nos grandes refletores instalados para iluminar a área onde os músicos se reúnem em torno de duas mesas de madeira para tocar sambas de todas as épocas. Os grafites de artistas diversos colorem, com referências ao samba, as paredes e muros das casas antigas ao redor do Largo. Apesar de as caixas de som instaladas para que os instrumentos de corda (violão e cavaquinho) não sejam abafados pelo som das percussões, lembrarem a modernidade, a roda é levada propositalmente sem microfone, com os músicos e o público entoando as canções como era no passado.


    “Nossa intenção é dar continuidade a algo que já existe há mais de 200 anos, respeitando e divulgando a cultura ancestral, no local onde tanto sangue negro foi derramado”, afirma o percussionista Peterson Vieira. Ele cita Hilária Batista de Almeida, a “Tia Ciata”, negra baiana que veio para o Rio e se instalou ali, naquela região, e foi, na casa de Candomblé de João Alabá, uma das precursoras do movimento que daria origem ao samba. “Estamos continuando o que eles começaram”.

    Naquela segunda-feira, a roda começa com sambas como “Transformação”, de Jurandir da Mangueira e João da Gente, “Falsas Juras”, de Milton Casquinha, e “Eu agora sou Feliz”, de Mestre Gato e José Bispo. E segue noite adentro com sambas que fizeram sucesso nas interpretações de Fundo de Quintal, João Nogueira, Zeca Pagodinho, Cartola, entre outros. Como se trata de uma roda aberta, outros sambistas chegam e puxam um samba ou trazem seu instrumento para tocar.


    Em determinado momento da noite, a luz acaba no bairro, o que não é suficiente para acabar com a animação dos sambistas que continuam a tocar, mesmo com as caixas de som desligadas. Todos pegam uma percussão e o público ajuda na palma da mão. Depois de algumas músicas a luz retorna e os instrumentos de corda voltam a ser ouvidos com mais nitidez. O local vai aos poucos ficando lotado de gente de todas as partes do Rio de Janeiro, muitas saindo do trabalho direto para a roda e até estrangeiros.

    “Gostaríamos de envolver mais as pessoas da própria comunidade daqui. Eu sinto que hoje o samba está precisando fazer o caminho inverso: se antes ele veio do morro para o asfalto e é bem aceito por pessoas de várias classes sociais, agora precisa ter a adesão de mais pessoas das comunidades”, acredita o músico Rogério Família. Apesar disso, ele conta que o samba é bem aceito pelos moradores do local, que fica aos pés do Morro da Conceição.

    Mas nem sempre foi assim. Os instrumentistas lembram que antes de o samba se firmar como uma atividade reconhecida no bairro, denúncias anônimas pediam a saída da roda do local. “A polícia chegava, mas como tínhamos autorização, não podiam acabar com a roda. Houve até uma denúncia absurda de que estaríamos envolvidos com o tráfico de drogas. Nunca tivemos este envolvimento e não sabemos como esta denúncia pode ter acontecido”, afirma Walmir Pimentel, professor de geografia e músico.

    A maior dificuldade, porém, veio quando eles precisaram romper com os comerciantes donos de bares no local, que davam parte do dinheiro conseguido com as vendas de bebidas para os músicos. A partir daí passaram a contar com iniciativas privadas de pessoas que gostam do samba e investem quando os músicos precisam comprar algum equipamento, ou fazer a manutenção de instrumentos. Além disso, eles têm autorização para vender cerveja para o público da roda. “Todas as segundas-feiras fazemos também uma mini experiência de economia. Mas não podemos deixar de agradecer às pessoas que nos ajudam”, enfatiza Rogério Família.

    Aniversário de seis anos

    A Roda de Samba começou em 2006 com músicos independentes, que não tocavam em bandas fixas, mas também com alguns sambistas egressos do grupo Batuque na Cozinha. A ideia inicial era que a roda fosse um espaço onde o sambista pudesse tocar o que quisesse, de forma livre, depois de um fim de semana tocando profissionalmente. Por isso, a escolha da segunda-feira, tradicionalmente conhecido como o dia de folga do músico.

    Completando seis anos de existência este ano, a Roda de Samba comemora a conquista de mais uma vitória: os músicos foram convidados para uma apresentação no teatro Rival, que aconteceu no último dia 26 de Julho.

    “Neste show, nossa intenção foi levar este clima de roda de samba para o palco do teatro Rival. Foi legal por ser algo que nós nunca tínhamos buscado e aconteceu”, afirma Júnior Silva, instrumentista do violão de sete cordas.

    Para a apresentação no Rival, os músicos também ganharam uma composição inédita. A canção “Samba da Pedra do Sal”, composta por Mingo, Chiquinho Vírgula e Marquinho Diniz (filho do sambista Monarco), retrata um pouco do que acontece no samba das segundas-feiras.

    Além disso, os músicos fazem parte de um documentário, em fase de produção, com o nome provisório de “O Porto do Rio”, que recebe apoio cultural da concessionária que administra as obras do Porto Maravilha e do poder público.


    Atualmente, integram a roda de samba os músicos Júnior Silva, violão de 7 cordas, Peterson Vieira, pandeiro e caixa, Wando Azevedo, surdo, Paulo Cezar, tantam e reco, Walmir Pimentel, cuíca e tamborim, e Júnior Travassos e Rogério Família, cavaco.

    Incerteza em relação às obras do Porto Maravilha

    Os músicos que fazem a Roda de Samba da Pedra do Sal estão entre os principais interessados nas transformações pelas quais passa a Zona Portuária do Rio de Janeiro, com o projeto do Porto Maravilha. Apesar da expectativa otimista em relação às modificações planejadas para o local, eles temem que a especulação imobiliária e o mercado musical possam contribuir para uma descaracterização cultural do bairro.

    “Diante dos movimentos relacionadas aos eventos esportivos e religiosos no Rio de Janeiro, este espaço, que se manteve abandonado pelo poder público e por investimentos particulares durante mais de 80 anos, agora está no centro dos interesses de vários grupos”, afirma Walmir Pimentel, acrescentando que o grupo já foi procurado por entes públicos e representantes da concessionária para assegurar que a roda de samba será mantida como é e que aquele local, tombado pelo patrimônio histórico, será preservado.

    Mesmo assim, o instrumentista enxerga o momento com certa desconfiança. “Se você perguntasse a um sambista da praça Onze no início do século XX, sobre as expectativas em relação às reformas de Pereira Passos ele tremeria. Quando esta pergunta é feita hoje, para nós sambistas da Pedra do Sal, que somos um movimento cultural,  vemos um avanço, mas acontecem retrocessos. Esta região está sendo muito visada pelo capital imobiliário, pelo mercado da música, e a gente sabe  que o oportunismo pode se encaixar muito bem nisso”, afirma Pimental, citando as reformas sanitaristas conduzidas durante a gestão do prefeito Pereira Passos no século passado.

    SERVIÇO

    Dia: Todas as segundas-feiras
    Horário: À partir das 19 horas
    Local: Largo da Baiana, Gamboa, Zona Portuária

    Preço: Gratuito

  10. Círculo

    18 de abril de 2013

    (Emerson Leal/Tom Zé)

    Todos finos e educados
    Todos elegantes e limpos
    Asseados, sérios, sisudos

    Todos são compenetrados
    Todos são católicos, castos
    Argumentam com fluência
    Pois são alfabetizados

    Porém, quanto à hipocrisia
    E no seu dom perdulário
    Têm nível universitário

    Todos são contra o vício
    Todos abominam o vício
    E combatem tudo o que é vício

    Não aceitam viciados
    Nunca comem no mesmo prato
    Não perdoam nenhum vício
    Não sabem de nenhum vício

    Não querem saber de vícios
    Mas no seu vício diário
    Têm nível universitário


  11. A música cantada e tocada na língua inglesa está tão ou mais presente na vida dos brasileiros quanto a música de nossos conterrâneos. Muito por conta de um processo histórico de aquisição de cultura pelo nosso país, que sempre recebeu entusiasticamente “de fora” manifestações artísticas diversas. Especificamente a música de raízes anglo-saxônicas, por sua vez, ganhou força nos moldes atuais, mais expressivamente em decorrência de um processo de expansão cultural norte-americano a partir de meados do século passado (também por influência de uma pressão político-ideológica da época).

    O fato é que, para muitos brasileiros, a música cantada em inglês soa com muito mais fluidez aos ouvidos do que canções lusitanas, por exemplo. Em geral, nossa geração atribui qualidade superior aos sons da Billboard. Sou um apreciador declarado da música tupiniquim e procuro entrar em contato com músicas de outras línguas, que não a inglesa, sempre que possível. Mas ao sintonizar nossas rádios – uma das formas que tenho de ficar “antenado” no que está acontecendo no mundo da música –, a predominância anglo-saxã é evidente.

    De tempos em tempos, entre centenas de pops pasteurizados e outros milhares dances contagiantes (e uniformes), surgem sons que me chamam atenção pelo inusitado, pela possibilidade de ser algo inovador (ainda que, no fundo, nem seja tão novidade assim) e fora das fórmulas para o “sucesso garantido”. Tem sido assim com um som que sempre me chamou a atenção e recentemente descobri se tratar da música Folk (da palavra folclórica mesmo), atualizada em Folk-Rock ou Folk-Pop.

    Um dos expoentes e responsáveis por influenciar este estilo é Bob Dylan, um dos grandes  músicos norte-americanos, que despontou para o sucesso na década de 1960, e cuja música carrega influências de Blues e Country. 

    (Ouça alguns dos clássicos do Folk-Rock de Dylan enquanto lê este post, para você saber do que estou falando!).


    Recentemente, conseguiu espaço nas rádios brasileiras (sem grandes destaques) a banda The Lumineers, de Nova Jersey, que lançou álbum homônimo de estreia em 2012. Além da contagiante canção “Ho Hey”, sucesso que garantiu ao grupo estar listado entre as 10 maiores vendas nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido no ano passado, o disco traz outras pérolas musicais, como “Stubborn Love”, “Submarines”, só pra citar algumas entre tantas. 

    (Continue ouvindo, agora o som dessa banda, e veja se não é realmente diferente e bom de ouvir)


    Entre outras bandas que fazem sucesso relativo dentro do universo deste rótulo musical estão a Mumford and Sons, esta inglesa de Londres, muito querida entre os brasileiros que gostam de descobrir música pela internet. Outros que chamam a atenção são os americanos do  Vetiver, grupo com ótimas canções, entre elas a quase country “Hook e Ladder” ou a pop “More of this”.

    Folk à moda brasileira

    No Brasil, o Folk também influenciou bandas do chamado universo “indie”, que ganhou a cena musical nos últimos anos com o crescimento da relevância da internet como difusora cultural. Música brasileira com referências anglo-saxônicas ou música de língua inglesa cantada em português – vai depender do grau de crítica que seu ouvido faz à músicos nacionais que bebem da fonte estrangeira –, o Vanguart é o maior expoente nacional desse gênero atualmente (num passado não muito distante, podemos considerar o som de Raul Seixas e Mutantes, com alguma proximidade com o estilo de Dylan).

    Desde os primeiros acordes da banda, passando pelo primeiro disco “Vanguart”, lançado em 2007 (cantado parcialmente em inglês), até o mais recente e ótimo "Boa Parte de Mim Vai Embora", de 2011 (este predominantemente em português), a influência do Folk-Rock é evidente. Em canções do primeiro - como “Semáforo” , “The last time I saw you” - ou do segundo – mais rock com “Se tiver que ser na bala, vai”, mais melancólico em “Nessa cidade”, ou flertando com referências latinas em “Mi vida eres tu” – encontramos o Folk à moda brasileira.

    O estilo, como remete a própria raiz etimológica da palavra - resultado da sabedoria popular (folk lore) -, era a música feita fora dos círculos da alta cultura urbana. Em nossa aldeia global, o Folk-Rock/Folk-Pop também corre às margens dos holofotes do 'mainstream'  (ou aportuguesando a expressão: indústria cultural), e, apesar de ter algumas exceções radiofônicas, ainda é propagado, sobretudo, por meios alternativos de difusão cultural. 

    Ouça outra lista variada com bandas citadas neste post, e outras que não foram:

    https://soundcloud.com/gabriel-araujo-16/sets/folk-rock-e-folk-pop

  12. Passista, Mestre-sala, Porta-bandeira, Rainha, Velha Guarda, Baianas: personagens que fizeram parte do meu cotidiano nos últimos meses, durante o pré-carnaval na Cidade do Samba. O tour involuntário que fiz por quadras de algumas das Escolas do Rio de Janeiro comprovou a força dessa manifestação cultural popular.

    Sim, porque, a despeito das transformações inevitáveis pelas quais passou o Carnaval (leia mais aqui), ele ainda possui o apelo capaz de mobilizar, e às vezes influenciar, pessoas das mais diversas camadas sociais. É uma celebração que aproxima ricos e pobres, estrangeiros e brasileiros, celebridades e anônimos, Zona Sul e Zona Norte, contribuindo em certa medida para diminuir abismos que separam esses vários “mundos”.

    “Só não vai quem já morreu”

    Repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro arrepiaram pela primeira vez neste pré-carnaval em setembro, pelas mãos dos integrantes da Surdo Um, na quadra da Mangueira. Era a semifinal da escolha do samba enredo que, neste ano, homenageará Cuiabá, a capital do Mato Grosso, com um patrocínio de mais de R$ 7 milhões da prefeitura da cidade.

    Torcidas organizadas defendem samba preferido

    Contrastando com as cifras exorbitantes citadas, a agremiação situada aos pés do morro da Mangueira foi a mais “comunidade” dentre as que visitei. Os moradores do bairro da Zona Norte prestigiam, em peso, formando torcidas organizadas pelo samba preferido e, ao mesmo tempo, acolhendo bem os que "vêm da Zona Sul". É de arrepiar a participação popular na tradicional Verde e Rosa de Cartola, Beth Carvalho, Chico Buarque, Alcione e tantos outros bambas.

    Na Academia do samba

    A Rainha da Bateria, Viviane Araújo, é a maior estrela da festa na quadra do Salgueiro. A celebridade se mistura aos anônimos da Furiosa e, comandada pelo mestre Marcão, toca tamborim fazendo todas as marcações e “paradinhas”, sem perder o ritmo. A simpatia e alegria da moça contagiam e deixam até as mulheres admiradas.



    É a quadra mais “pop” dentre todas aquelas que frequentei, ou seja, a que mais mistura pessoas de classes diferentes. Além de playboys e as patricinhas (esteriótipos utilizados apenas para ilustrar, mas que no fundo são tão preconceituosos quanto qualquer esteriótipo) e a comunidade em peso, centenas de gringos de todas as partes do mundo frequentam a quadra. Alguns desses estrangeiros levam até professores de dança brasileiros, na tentativa de aprender a malemolência tupiniquim. Foi pra sambar até o dia amanhecer.

    “A capital do samba que me faz sonhar”

    O bairro de Madureira e Paulinho da Viola serão os grandes homenageados deste ano pelo enredo da Portela. Ir até a capital do samba pela primeira foi representativo, pois estava num dos berços do samba carioca. O samba-enredo da escola – o melhor este ano, em minha opinião –, já saiu da Sapucaí direto pras rodas de samba Brasil afora.

    A quadra reformada recentemente tem um clima de cidade histórica, com placas de ruas fictícias homenageando integrantes, postes de luz baixos, bancos de praça, ou seja, uma verdadeira "capital do samba". Além do embelezamento, a casa da Portela também ganhou quadra de futebol e salas de aula para os projetos sociais tocados ali.

    Como diz uma amiga: “Quando entrou aquela Velha Guarda sambando eu cheguei a me arrepiar”. Tudo era belo na quadra da Majestade do Samba, desde as fantasias que, mesmo para um ensaio, eram vistosas e bem cuidadas, até os moradores de Madureira, Oswaldo Cruz e adjacências. Crianças, jovens, velhos, famílias, todos juntos sambando “feito uma reza, um ritual”.


    Videoclipe lançado esta semana pela Portela

    “Tijuca querida”

    A Escola que coleciona campeonatos nos últimos tempos e que é, todos os anos, uma das mais aguardadas na Sapucaí me decepcionou no quesito "ensaio de quadra". O som abafado e cheio de ruídos que impede o entendimento das letras e transforma a percussão da bateria em um barulho incômodo, não faz jus à agremiação que o carnavalesco Paulo Barros tem conduzido com maestria.

    O remédio foi cair no samba ao lado de familiares e amigos que foram comigo comemorar o aniversário do meu amor. Não fosse isso, talvez a noite não teria sido tão boa, infelizmente. A Rainha de Bateria da escola do Borel, Juliana Alves, sambou no meio do povo (e sambou até a última música, diga-se de passagem). Assim como na Portela, na Unidos da Tijuca o destaque foi para as iguarias que as donas preparavam e vendiam nas barracas: uma delícia.

    “Berço dourado do samba”

    Os dizeres pintados na parede debaixo de um viaduto em São Cristóvão não poderiam ser mais apropriados: "Berço dourado do samba". Noite de uma segunda-feira chuvosa e lá fui eu para o ensaio de rua da Paraíso do Tuiutí, escola do Grupo de Acesso, na qual desfilo este ano. Como chovia, o ensaio teve que ser embaixo deste viaduto. A bateria respondia de forma precisa aos comandos do mestre que fazia diferentes sinais com as mãos, cada um correspondente a uma cadência ou “parada”. Parecia um maestro regendo a sinfonia.

    Neste dia ficou ainda mais claro que o envolvimento popular com a Festa é genuíno. Pessoas da comunidade trabalhando duro pra fazer o Carnaval de uma escola pequena, a maioria delas de forma voluntária, ou recebendo muito pouco por isso. Dos coordenadores de Ala aos integrantes da comissão de frente, uma dedicação bonita de se ver. Aconteceu o que eu não esperava. E o que me decepcionou muito. A direção da escola em questão resolveu de última hora que as fantasias que seriam distribuídas para algumas pessoas, serão na verdade vendidas para outras que têm pra pagar. Ou seja, estavam precisando de componentes, mas como apareceu quem comprasse, descartaram quem estava "afim". E isso mudou minha opinião sobre o Carnaval? Não, ainda não...

    “Chão da poesia, celeiro de bamba”

    A Vila Isabel vem com tudo este ano e promete um carnaval digno de campeonato ao falar da agricultura familiar e das tradições do interior. Mais um enredo patrocinado, a escola viu seu nome envolvido em uma polêmica nos últimos dias: um dos financiadores é a Basf, empresa que produz e vende agrotóxicos (leia mais aqui).

    O patrocínio foi considerado uma contradição por associações contrárias ao uso de agrotóxicos (a Basf é produtora), uma vez que o enredo exalta o alimento produzido de forma artesanal por famílias de pequenos agricultores espalhados pelo Brasil. O repúdio se torna legítimo quando notamos que o enredo fala da proteção da terra, tão maltratada por agrotóxicos. Há que se pensar uma solução, uma vez que foram os agrotóxicos que permitiram a produção em larga escala, para alimentar a população mundial.
    Polêmicas a parte, o bairro que traz em suas calçadas desenhos de notas musicais de Noel Rosa tem recebido ensaios de rua emocionantes. O belíssimo samba (campeão em algumas eleições promovidas antes do carnaval) composto por Arlindo Cruz, Martinho da Vila, André Diniz, Tonico da Vila e Leonel é entoado na ponta da língua pelos milhares de pessoas que acompanham o desfile.

    Durante os meses que antecedem o maior Carnaval do mundo, a cidade respira samba. E quem mora por aqui e gosta acaba se contagiando. O pré foi muito bom, só não foi melhor do que será o Carnaval.