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  1. Aridez, paz, amor

    26 de abril de 2013


    Ante a aridez dos corações,
    Alguma paz, algum amor.





  2. Círculo

    18 de abril de 2013

    (Emerson Leal/Tom Zé)

    Todos finos e educados
    Todos elegantes e limpos
    Asseados, sérios, sisudos

    Todos são compenetrados
    Todos são católicos, castos
    Argumentam com fluência
    Pois são alfabetizados

    Porém, quanto à hipocrisia
    E no seu dom perdulário
    Têm nível universitário

    Todos são contra o vício
    Todos abominam o vício
    E combatem tudo o que é vício

    Não aceitam viciados
    Nunca comem no mesmo prato
    Não perdoam nenhum vício
    Não sabem de nenhum vício

    Não querem saber de vícios
    Mas no seu vício diário
    Têm nível universitário




  3. Nascemos num campo de futebol
    Carregamos no peito, cada um, batalhas incontáveis
    Projetamos a perigosa imagem do sonho.
    Nada causa mais horror à ordem do que homens e mulheres que sonham.
    Nós sonhamos. E organizamos o sonho.
    Nascemos negros, nordestinos, nisseis, índios,
    mulheres, mulatas, meninas de todas as cores,
    filhos, netos de italianos, alemães, árabes, judeus,
    portugueses, espanhóis, poloneses, tantos...
    Nascemos assim, desiguais, como todos os sonhos humanos.
    Fomos batizados na pia, na água dos rios, nos terreiros.
    Fomos, ao nascer, condenados a amar a diferença.
    A amar os diferentes.
    Viemos da margem.
    Somos a anti-sinfonia
    que estorna da estreita pauta da melodia.
    Não cabemos dentro da moldura...
    Somos dilacerados como todos os filhos da paixão.
    Briguentos. Desaforados. Unidos. Livres:
    como meninos de rua.
    Assombrados pela vertigem dos ventos que desatamos.
    Venceu a solidez da mentira, do preconceito.
    Desta vez a fortaleza ruiu diante dos nossos olhos.
    E só havia ratos depois dos muros.
    A fortaleza agora está vazia
    ou povoada de fantasmas.
    O caminho que conduz a ela passa por muitos lugares.
    Caravanas: pelas estradas empoeiradas,
    pela esperança empoeirada do povo,...
    mas sobretudo pela invencível alegria
    que o rosto castigado da gente demonstra à sua passagem.
    Os filhos da margem têm os olhos postos sobre nós.
    Eles sabem, nós sabemos que a vida não nos concederá outra oportunidade.
    Hoje temos uma cara. Uma voz. Bandeiras.
    Temos sonhos organizados.
    Queremos um país onde não se matem crianças
    que escaparam do frio, da fome, da cola de sapateiro.
    Onde os filhos da margem tenham direito à terra,
    ao trabalho, ao pão, ao canto, à dança,
    às histórias que povoam nossa imaginação,
    às raízes de nossa alegria.
    Nosso retrato futuro resultará
    da desencontrada multiplicação
    dos sonhos que desatamos.

    Pedro Tierra - 1994

  4. A música cantada e tocada na língua inglesa está tão ou mais presente na vida dos brasileiros quanto a música de nossos conterrâneos. Muito por conta de um processo histórico de aquisição de cultura pelo nosso país, que sempre recebeu entusiasticamente “de fora” manifestações artísticas diversas. Especificamente a música de raízes anglo-saxônicas, por sua vez, ganhou força nos moldes atuais, mais expressivamente em decorrência de um processo de expansão cultural norte-americano a partir de meados do século passado (também por influência de uma pressão político-ideológica da época).

    O fato é que, para muitos brasileiros, a música cantada em inglês soa com muito mais fluidez aos ouvidos do que canções lusitanas, por exemplo. Em geral, nossa geração atribui qualidade superior aos sons da Billboard. Sou um apreciador declarado da música tupiniquim e procuro entrar em contato com músicas de outras línguas, que não a inglesa, sempre que possível. Mas ao sintonizar nossas rádios – uma das formas que tenho de ficar “antenado” no que está acontecendo no mundo da música –, a predominância anglo-saxã é evidente.

    De tempos em tempos, entre centenas de pops pasteurizados e outros milhares dances contagiantes (e uniformes), surgem sons que me chamam atenção pelo inusitado, pela possibilidade de ser algo inovador (ainda que, no fundo, nem seja tão novidade assim) e fora das fórmulas para o “sucesso garantido”. Tem sido assim com um som que sempre me chamou a atenção e recentemente descobri se tratar da música Folk (da palavra folclórica mesmo), atualizada em Folk-Rock ou Folk-Pop.

    Um dos expoentes e responsáveis por influenciar este estilo é Bob Dylan, um dos grandes  músicos norte-americanos, que despontou para o sucesso na década de 1960, e cuja música carrega influências de Blues e Country. 

    (Ouça alguns dos clássicos do Folk-Rock de Dylan enquanto lê este post, para você saber do que estou falando!).


    Recentemente, conseguiu espaço nas rádios brasileiras (sem grandes destaques) a banda The Lumineers, de Nova Jersey, que lançou álbum homônimo de estreia em 2012. Além da contagiante canção “Ho Hey”, sucesso que garantiu ao grupo estar listado entre as 10 maiores vendas nos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido no ano passado, o disco traz outras pérolas musicais, como “Stubborn Love”, “Submarines”, só pra citar algumas entre tantas. 

    (Continue ouvindo, agora o som dessa banda, e veja se não é realmente diferente e bom de ouvir)


    Entre outras bandas que fazem sucesso relativo dentro do universo deste rótulo musical estão a Mumford and Sons, esta inglesa de Londres, muito querida entre os brasileiros que gostam de descobrir música pela internet. Outros que chamam a atenção são os americanos do  Vetiver, grupo com ótimas canções, entre elas a quase country “Hook e Ladder” ou a pop “More of this”.

    Folk à moda brasileira

    No Brasil, o Folk também influenciou bandas do chamado universo “indie”, que ganhou a cena musical nos últimos anos com o crescimento da relevância da internet como difusora cultural. Música brasileira com referências anglo-saxônicas ou música de língua inglesa cantada em português – vai depender do grau de crítica que seu ouvido faz à músicos nacionais que bebem da fonte estrangeira –, o Vanguart é o maior expoente nacional desse gênero atualmente (num passado não muito distante, podemos considerar o som de Raul Seixas e Mutantes, com alguma proximidade com o estilo de Dylan).

    Desde os primeiros acordes da banda, passando pelo primeiro disco “Vanguart”, lançado em 2007 (cantado parcialmente em inglês), até o mais recente e ótimo "Boa Parte de Mim Vai Embora", de 2011 (este predominantemente em português), a influência do Folk-Rock é evidente. Em canções do primeiro - como “Semáforo” , “The last time I saw you” - ou do segundo – mais rock com “Se tiver que ser na bala, vai”, mais melancólico em “Nessa cidade”, ou flertando com referências latinas em “Mi vida eres tu” – encontramos o Folk à moda brasileira.

    O estilo, como remete a própria raiz etimológica da palavra - resultado da sabedoria popular (folk lore) -, era a música feita fora dos círculos da alta cultura urbana. Em nossa aldeia global, o Folk-Rock/Folk-Pop também corre às margens dos holofotes do 'mainstream'  (ou aportuguesando a expressão: indústria cultural), e, apesar de ter algumas exceções radiofônicas, ainda é propagado, sobretudo, por meios alternativos de difusão cultural. 

    Ouça outra lista variada com bandas citadas neste post, e outras que não foram:

    https://soundcloud.com/gabriel-araujo-16/sets/folk-rock-e-folk-pop


  5. A vida do líder africano Nelson Mandela não caberia em uma trilogia, quanto menos em um único filme. Recentemente, duas inspiradas e inspiradoras produções americanas, A luta pela liberdade (Goodbye Bafana) - 2007 e Invictus – 2009, retrataram parte da biografia do ex-presidente, símbolo da resistência ao apartheid (regime de segregação racial adotado entre 1948 e 1994 na África do Sul) e referência mundial na luta contra o racismo.

    Apesar de não esgotarem as facetas dessa figura tão importante para a história contemporânea, os filmes mostram em meio aos dramas vividos pelos personagens centrais, momentos cruciais da biografia de Madiba (o apelido carinhoso de Mandela que remete ao clã da qual sua família descende). O primeiro termina no momento em que Mandela ganha a liberdade, em 1990, depois de 26 anos na prisão. O segundo começa justamente com cenas de Mandela sendo solto e se tornando presidente da África do Sul.

    Portanto, são filmes que, mesmo não sendo continuações oficiais, servem muito bem à transição entre os dois períodos da história do líder africano. E as semelhanças entre as narrativas vão além do fato de tratarem da biografia de uma única personalidade. Ambos têm como co-protagonistas homens brancos que veem suas vidas serem modificadas pelo relacionamento marcante com Mandela. É a metáfora para a influência de Mandela nas transformações ocorridas em seu país.

    A luta pela liberdade conta a história de James Gregory (Joseph Fiennes), um típico branco sul-africano, que enxerga os negros como seres inferiores, assim como a maioria da população branca que vivia na África do Sul sob o apartheid dos anos 60. Crescido no interior, ele fala bem o dialeto Xhosa. Exatamente por isso, não é um carcereiro comum: atua, na verdade, como espião do governo com a missão de repassar informações do grupo de Nelson Mandela (Dennis Haysbert) para o serviço de inteligência.

    A convivência com Madiba, porém, cria um forte laço de amizade entre eles e transforma James em um defensor dos direitos negros na África do Sul. Dirigido por Bille August, é um filme que apela para relatos mais objetivos dos fatos, sem cenas de forte apelo emocional ou ufanismos que engrandeçam a figura dos protagonistas.

    Numa das melhores cenas de Goodbye Bafana, Mandela e James se aproximam ainda mais relembrando a infância de ambos num jogo/luta tribal.

    Invictus é o típico filme americano de exaltação aos feitos heroicos de seus personagens diante de uma situação desafiadora – não necessariamente algo negativo ou que distorça a realidade quando se sabe que Mandela ganhou, por exemplo, o Nobel da Paz por suas ações à frente do país. Nesta produção, do diretor Clint Eastwood, Nelson Mandela (Morgan Freeman), recentemente eleito presidente, tinha consciência que a África do Sul continuava sendo um país social e economicamente dividido pelo racismo, em decorrência do apartheid.

    A proximidade da Copa do Mundo de Rúgbi (o esporte mais popular na África do Sul), pela primeira vez realizada no país, dá a Mandela a ideia de usar o esporte para tentar unir a população. Para tanto, chama o jogador Francois Pienaar (Matt Damon), capitão da equipe sul-africana, para uma reunião e o incentiva a levar a seleção nacional ao campeonato. Pienaar vira um aliado de Mandela na empreitada e acaba lutando por algo muito maior do que a vitória nas partidas: ele consegue fazer com que os jogadores, até aquele momento todos brancos, aceitem jogar ao lado de atletas negros. E com isso, representar que era possível a convivência e cooperação entre pessoas de cores de pele diferentes.

    Uma das últimas cenas de Invictus, quando a seleção de Pienaar vence e negros e brancos torcem e comemoram juntos

    A trajetória de Nelson Mandela provavelmente dará outros bons filmes, já que sua história apresenta fatos singulares que chamam a atenção. Assim como outras personalidades históricas importantes, há em sua biografia fatos contraditórios, como a conduta de pessoas próximas a Mandela (entre elas uma de suas ex-esposas, Winnie, envolvida em vários escândalos políticos). Nada, porém, que diminua seu valor para os direitos humanos.

    Com sinopses do site www.adorocinema.com

  6. *Escrito especialmente para o blog da Verinha (Oi Preguiça).

    Sempre associei viajar a São Paulo com “comprar” e “resolver problemas de documentação”. Fluminense por nascimento e carioca por opção (moro na cidade do Rio de Janeiro há prazerosos 6 anos), confesso que olhava para a Terra da Garoa com uma certa indiferença. A cidade nunca me foi atrativa, como não era para o baiano Caetano Veloso que cantou os seguintes versos sobre:

    IMG_8070 - Cópia

    “É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
    Da dura poesia concreta de tuas esquinas
    Da deselegância discreta de tuas meninas”

    Acontece que, recentemente, precisei ir à cidade a trabalho. Como era um fim de semana e estava acompanhado por bons amigos, entre um compromisso e outro pude conhecer um lado novo de Sampa, pelo menos pra mim.

    Primeira parada: compras

    Como não poderia deixar de ser, meu roteiro em São Paulo começou, claro, pelas compras. Sábado de manhã fomos até a região do Brás comprar roupas e assessórios de marcas conhecidas a “preços de atacado” como costumam dizer.

    Fiz uma parada gastronômica nas carrocinhas espalhadas nas proximidades da Rua Maria Marcolina para comer milho cozido e pamonha. Depois desci até a Rua Oriente, onde estão concentradas as principais lojas.

    Dica para o mochileiro(1): grande parte dos estabelecimentos de roupas não tem provador, ou seja, os clientes não podem experimentar. Na verdade, por conta do objetivo principal das lojas que é vender “no atacado”. O preço compensa, mas se prepare para uma compra às escuras.

    Segunda parada: à noite, boteco e show musical

    A intensidade cultural de Sampa chega a ser impressionante. Shows, teatro, cinema, exposições, boates, tudo com uma diversidade singular entre as capitais brasileiras, estimulado pelos paulistas, que dão um show no quesito “consumo cultural”.

    Fui ao ótimo show do cantor e compositor Emerson Leal, no teatro Juca Chaves, bairro Itaim Bibi. Merece uma atenção especial a programação desse teatro, sempre muito variada e de qualidade.

    Dica para o mochileiro (2): Acompanhe o site Catraca Livre, uma iniciativa de jornalismo comunitário que reúne os principais eventos culturais gratuitos na cidade.

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    Mais tarde fomos ao Bar Genésio, localizado em um dos pontos de encontro mais conhecidos da noite na Paulicéia Desvairada: a Rua Fidalga no bairro Pinheiros. O local mistura a informalidade dos botecos com a sofisticação gastronômica das cantinas italianas. Acompanhando os chopps gelados pedimos uma boa massa como aperitivo.

    Terceira parada: As delícias do Mercado Municipal

    O café da manhã de domingo foi especial no Mercado Municipal, localizado em um dos corações da cidade, a Sé. Os sanduíches de pão francês com ingredientes os mais diversos (mortadela, queijos, presuntos variados, hortaliças e molhos) e os pastéis "tamanho família" são indispensáveis.

    Nas diversas quitandas espalhadas pelo mercado a dica é pedir uma prova das frutas exóticas ou não, de diversas regiões do país, sempre frescas e saborosas. Comemos Dekopon (deliciosa mistura de laranja com tangerina), Pitaya Rosa e Branca (de textura parecida com Kiwi), Ameixas diversas, entre outras, e levamos algumas pra casa.

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    Quarta parada: Feira da Liberdade

    O bairro que abriga imigrantes de descendência japonesa foi um dos passeios mais interessantes em São Paulo. Artesanato, Origamis, Bonsais, entre outros objetos podem ser adquiridos a preços atrativos. A parada obrigatória foi na barraca de Guioza, um tipo de pastel japonês grelhado com recheio de carnes diversas e aqueles molhos orientais que, todo mundo sabe, são uma delícia.

    Quinta Parada: Almoço napolitano

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    Nossos guias na capital paulistana acertaram em terminar nosso fim de semana em uma das típicas cantinas que servem vinho e comida italiana, especialidade na cidade. Fomos ao restaurante Vico d'O Scugnizzo (nome que no dialeto napolitano significa “Beco do Moleque de Rua”). Lá pudemos conhecer um pouco sobre um povo sonoro e alegre, através da arquitetura, da música (em apresentação ao vivo com canções típicas) e da tradicional cozinha napolitana.

    Dica para o mochileiro (3): A ampla malha metroviária da Terra da Garoa permite um deslocamento barato, fácil e rápido pelos bairros deste roteiro. Procure fazer tudo, ou quase tudo, de metrô.

    Sexta e última parada: Beco do Batman

    No fim do passeio, fizemos ainda uma ida rápida ao Beco do Batman, como é mais conhecida a Rua Gonçalo Afonso, na Vila Madalena. Uma verdadeira galeria a céu aberto, a viela passou a ter seus muros e paredes de casas grafitadas ainda na década de 1980. Contam que a área estava em decadência e a arte urbana foi a responsável por tornar o local um dos novos pontos turísticos da cidade. Vale muito a pena conferir a “energia criativa” do Beco do Batman.

    Como o mochileiro pode notar, foi um final de semana regado a muita comida boa e passeios interessantes. Não deixamos de curtir opções culturais, mas o melhor de tudo foi conhecer Sampa com novos olhares.

    “Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
    Mais possível novo quilombo de Zumbi
    E os novos baianos passeiam na tua garoa
    E novos baianos te podem curtir numa boa” (Caetano Veloso)

    As fotos desse post foram feitas por Renam Brandão.

  7. Por aquele apartamento

    15 de março de 2013


    Por aquele apartamento já passaram mestrandos em história, concurseiros e micareteiros; socialistas, gays, lésbicas e simpatizantes, tucanos da extrema direita e peladeiros; católicos fervorosos, católicos, espíritas, músicos e bailarinos; maconheiros, loucos, amantes do samba e do rock; nerds, bêbados, engajados e alienados... Quantos rótulos!

    Ele mesmo tenta entender, e a conclusão a que sempre chega é a de que cabe dentro daquelas quatro paredes uma parte da diversidade do mundo, talvez porque caiba na mente e no coração do anfitrião todo respeito a qualquer diversidade. 

    Num determinado ponto de sua vida, ele chegou a conclusão de que valores e crenças que o afastavam das pessoas não valiam a pena. Valores e crenças que o estimulavam a prejulgar e condenar, mesmo sem intenção. Imaginava como poderia dizer que pessoas tão boas, que faziam pelo semelhante mais até do que ele com suas crenças e valores ditos "corretos", estariam excluídas.

    Muitos se espantam e olham torto, com ar solene de preocupação. Deixam transparecer a veia do preconceito velado. Se esforçam por uma complacência desnecessária. Condenam em pensamento, provavelmente. Mostram o lado humano falho, que ele também possui. Segue sem importar com o que vão pensar. 

    Ali, naquele pequeno espaço, batem papo, bebem suco, cerveja, falam sério, falam besteira e riem, debatem, discutem, se ajudam, desabafam. Brigam? Quase nunca. Ouvem música, fazem comida, se preparam pro carnaval. Aquele pequeno espaço, ali, virou, sem que ele quisesse ou esperasse, um reflexo de sua personalidade.



  8. Ser humano / Ser urbano

    8 de março de 2013

    Da série: "Textos que eu gostaria de ter escrito", esta crônica do Marcelo Rubens Paiva (publicada no Estadão em Dezembro do ano passado) expressa algumas verdades e sentimentos sobre morar em um grande centro urbano com suas trilhas labirínticas, mobilidades programadas e pessoas que se acostumaram a viver no ritmo frenético da cidade. É o ser humano transformado em ser urbano. Leia com atenção!

    Xilogravura "Urbanóides" de Rubem Grilo

    O urbano selvagem

    Marcelo Rubens Paiva


    Tenho a sensação de que a maioria que me atende preferia desabafar: "Não estou aqui porque quero, mas porque pre-ci-so".

    E quanto maior a cidade, mais indiferente fica o morador. Como uma defesa. Mais indiferente a problemas que "não são da minha esfera". Como há milhões circulando diariamente, se você reclama atenção exclusiva num guichê, uma fila de gente que aceita as regras se forma atrás. Portanto, se você acredita que há problemas no serviço oferecido, nem vem, pois quem fica do outro lado do balcão, porque pre-ci-sa, não porque adora, grita sem muita consideração: "Próximo!"

    Como aprendemos na infância, a expressão precisa de um reacionário, os incomodados que se retirem.

    Parece uma contradição, afinal, os sumérios inventaram as cidades, os gregos as transformaram em Estado, os romanos as aperfeiçoaram e popularizaram soluções engenhosas de engenharia para civilizar tribos e antigos aldeões selvagens. A burocracia estatal se firmou como solução para problemas criados pelo convívio em massa em espaços apertados. Problemas que não tínhamos quando morávamos em cavernas, tribos, aldeias.
    No ambiente labiríntico da burocracia estatal, a relação atendente & nós é tensa, ele está lá porque pre-ci-sa e ganha direitos específicos, imunidades, uma aposentadoria infinitamente mais justa que a nossa, privilégios do monopólio e estabilidade questionada do serviço público.

    Muita gente não está onde está porque quer, é um paradoxo urbano com que somos obrigados a conviver - a não ser que nos mudemos de chapéu e cuia para a casa do mesmo, onde Judas perdeu as botas, para plantar batatas, bananeiras e vermos se tem alguém na esquina.

    A maioria gostaria de estar numa praia, numa rede, numa ilha deserta, num resort luxuoso, ou numa rede de uma praia de um resort luxuoso de uma ilha deserta a que só se chega de navio, ou até numa espaçonave, não num balcão atendendo às queixas de sujeitos que desconhecem leis, protocolos, imprevistos.

    Estou aqui, pre-ci-so deste emprego, fiz concurso, fui indicado, escuto amigavelmente suas reclamações despropositais, para apontar com toda paciência e precisão o guichê correto, documento que falta, formulário a ser preenchido. E chego em casa afônico de tanto: "Próximo!"

    No metrô, instalaram novas, como chamam aquilo, catracas? Mas não fazem "cá-tra-cá" quando acionadas. São duas lâminas de vidro verticais muito ameaçadoras, nada onomatopeicas. O sujeito enfia o bilhete. Elas abrem. Se não passar rápido, elas fecham, como uma tesoura, cortam você em dois. Não fazem "cá-tra-cá", mas "vupt". Intimidação que começa na entrada. "Tente me enganar, que te quebro!" O vupt pode virar crau!

    Hora do rush. Depois de ultrapassarmos dentes afiados que excluem não pagantes, descemos pelo esôfago do transporte nada acolhedor, nos apertamos na plataforma até chegar nosso trem, o duodeno. Com movimentos peristálticos, viajamos pelos canais do intestino delgado, baldeação para o grosso, para sairmos do outro lado, noutra estação, no orifício de outro bairro, passando pelo esfíncter que dessa vez parece mais amigável e faz um vupt suave como um pum.

    Andar e ser tratado diariamente como um toco de fezes deixa qualquer um abominavelmente selvagem.

    Como em Londres, que tem o notório "mind the gap" (atente ao vão), o sistema de som dos metrôs daqui deveria, entre um quarteto de Mozart e uma ária de Bach, nos acalmar com uma voz doce, frases positivas e de cunho social, "quem espera sempre alcança", "seja justo e dê passagem", "calma, você vai chegar em tempo", "feche os olhos e pense numa rede de uma praia duma ilha deserta", "conte até dez, respire fundo", "acabamos de ouvir Concerto de Brandenburgo, allegro".


  9. Transitoriedade de você

    5 de março de 2013

    Comprei casa, mudei cidade
    Endereço, estado civil e número de sapato
    Fiz a escola da vida
    E você não passou de um poema antigo no arquivo de um blog

    Fui pra Madri, Paris, Itapecerica
    Virei mundo
    Gritei basta*
    E você não passou de um livro cheio de orelhas, empoeirado, guardado no fundo da gaveta

    Escolhi azulejos, cor de tinta, móveis que combinam
    Fui à 25 de março, desci no bonde de Santa Tereza
    Voei alto, aterrissei em abismos
    E você não passou de uma lembrança esquecida na memória

    Aprendi a dançar sozinho, acompanhado
    Desaprendi a fazer contas de matemática
    Dancei samba, rock, samba
    As contas do mês não fecharam
    E você não passou de um esboço de sonho no rascunho que joguei fora

    Ganhei dinheiro, assinei contratos
    Comprei um terno, troquei o carro
    Por fim, desaprendi a caminhar no céu**
    E você não passou de uma música brega no meu aparelho de som

    Beijei moças, abracei amigos,
    Pulei carnaval, sete ondas, cerca
    Tomei mil porres, de Brahma a Jhonny Walker
    Fui pós-mestre doutorado
    E você passou como um dia de sol ou uma tempestade como uma tempestade que, apesar dos estragos que deixa, sempre passa.




    ** Adaptação de trecho da música "Busca Vida" - de Herbert Vianna.

  10. Os amigos bizarros do Ricardinho

    25 de fevereiro de 2013


    Vale a pena assistir e rir das situações cômicas (mas nunca caricatas) deste curta-metragem de nome extenso lançado em 2009. O filme conta a história de um jovem estagiário levado ao limite da tensão em seu ambiente de trabalho. A medida em que a situação torna-se insuportável, Ricardinho reage de forma estranha: começa a contar aos colegas as pequenas e insólitas histórias de seus amigos e familiares no município de Viamão, cidade satélite de Porto Alegre (sinopse baseada no resumo do Cineclick).

    O mais curioso, porém, foi saber, zapeando pela internet, que a história é baseada em personagens reais da vida de Ricardo Lilja. Muita gente fala em comentários e posts que conhece o Ricardinho, foi vizinho dele, etc. A blogueira Marjorie Jonsson contou no seu espaço: "Ricardinho é artefinalista, toca guitarra na GV, é o arranjador das nossa músicas, é responsável pelo nosso layout. Ele é o personagem, argumentista e ator do curta premiadíssimo. Ricardinho passou por 3 meses de preparação de atores para poder fazer o papel de si mesmo na telona".

    O cara tem até um blog onde posta um portifólio com suas artes finais, este aqui:  http://www.incuboweb.blogspot.com.br/. O filmete, que descobri este ano graças ao Canal Brasil, é leve e inteligente, bem roteirizado e com boas atuações amadoras. Como diz outro post que li sobre o curta: separe 21 minutos da sua vida para assistir "Os amigos bizarros do Ricardinho".



  11. Passista, Mestre-sala, Porta-bandeira, Rainha, Velha Guarda, Baianas: personagens que fizeram parte do meu cotidiano nos últimos meses, durante o pré-carnaval na Cidade do Samba. O tour involuntário que fiz por quadras de algumas das Escolas do Rio de Janeiro comprovou a força dessa manifestação cultural popular.

    Sim, porque, a despeito das transformações inevitáveis pelas quais passou o Carnaval (leia mais aqui), ele ainda possui o apelo capaz de mobilizar, e às vezes influenciar, pessoas das mais diversas camadas sociais. É uma celebração que aproxima ricos e pobres, estrangeiros e brasileiros, celebridades e anônimos, Zona Sul e Zona Norte, contribuindo em certa medida para diminuir abismos que separam esses vários “mundos”.

    “Só não vai quem já morreu”

    Repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro arrepiaram pela primeira vez neste pré-carnaval em setembro, pelas mãos dos integrantes da Surdo Um, na quadra da Mangueira. Era a semifinal da escolha do samba enredo que, neste ano, homenageará Cuiabá, a capital do Mato Grosso, com um patrocínio de mais de R$ 7 milhões da prefeitura da cidade.

    Torcidas organizadas defendem samba preferido

    Contrastando com as cifras exorbitantes citadas, a agremiação situada aos pés do morro da Mangueira foi a mais “comunidade” dentre as que visitei. Os moradores do bairro da Zona Norte prestigiam, em peso, formando torcidas organizadas pelo samba preferido e, ao mesmo tempo, acolhendo bem os que "vêm da Zona Sul". É de arrepiar a participação popular na tradicional Verde e Rosa de Cartola, Beth Carvalho, Chico Buarque, Alcione e tantos outros bambas.

    Na Academia do samba

    A Rainha da Bateria, Viviane Araújo, é a maior estrela da festa na quadra do Salgueiro. A celebridade se mistura aos anônimos da Furiosa e, comandada pelo mestre Marcão, toca tamborim fazendo todas as marcações e “paradinhas”, sem perder o ritmo. A simpatia e alegria da moça contagiam e deixam até as mulheres admiradas.



    É a quadra mais “pop” dentre todas aquelas que frequentei, ou seja, a que mais mistura pessoas de classes diferentes. Além de playboys e as patricinhas (esteriótipos utilizados apenas para ilustrar, mas que no fundo são tão preconceituosos quanto qualquer esteriótipo) e a comunidade em peso, centenas de gringos de todas as partes do mundo frequentam a quadra. Alguns desses estrangeiros levam até professores de dança brasileiros, na tentativa de aprender a malemolência tupiniquim. Foi pra sambar até o dia amanhecer.

    “A capital do samba que me faz sonhar”

    O bairro de Madureira e Paulinho da Viola serão os grandes homenageados deste ano pelo enredo da Portela. Ir até a capital do samba pela primeira foi representativo, pois estava num dos berços do samba carioca. O samba-enredo da escola – o melhor este ano, em minha opinião –, já saiu da Sapucaí direto pras rodas de samba Brasil afora.

    A quadra reformada recentemente tem um clima de cidade histórica, com placas de ruas fictícias homenageando integrantes, postes de luz baixos, bancos de praça, ou seja, uma verdadeira "capital do samba". Além do embelezamento, a casa da Portela também ganhou quadra de futebol e salas de aula para os projetos sociais tocados ali.

    Como diz uma amiga: “Quando entrou aquela Velha Guarda sambando eu cheguei a me arrepiar”. Tudo era belo na quadra da Majestade do Samba, desde as fantasias que, mesmo para um ensaio, eram vistosas e bem cuidadas, até os moradores de Madureira, Oswaldo Cruz e adjacências. Crianças, jovens, velhos, famílias, todos juntos sambando “feito uma reza, um ritual”.


    Videoclipe lançado esta semana pela Portela

    “Tijuca querida”

    A Escola que coleciona campeonatos nos últimos tempos e que é, todos os anos, uma das mais aguardadas na Sapucaí me decepcionou no quesito "ensaio de quadra". O som abafado e cheio de ruídos que impede o entendimento das letras e transforma a percussão da bateria em um barulho incômodo, não faz jus à agremiação que o carnavalesco Paulo Barros tem conduzido com maestria.

    O remédio foi cair no samba ao lado de familiares e amigos que foram comigo comemorar o aniversário do meu amor. Não fosse isso, talvez a noite não teria sido tão boa, infelizmente. A Rainha de Bateria da escola do Borel, Juliana Alves, sambou no meio do povo (e sambou até a última música, diga-se de passagem). Assim como na Portela, na Unidos da Tijuca o destaque foi para as iguarias que as donas preparavam e vendiam nas barracas: uma delícia.

    “Berço dourado do samba”

    Os dizeres pintados na parede debaixo de um viaduto em São Cristóvão não poderiam ser mais apropriados: "Berço dourado do samba". Noite de uma segunda-feira chuvosa e lá fui eu para o ensaio de rua da Paraíso do Tuiutí, escola do Grupo de Acesso, na qual desfilo este ano. Como chovia, o ensaio teve que ser embaixo deste viaduto. A bateria respondia de forma precisa aos comandos do mestre que fazia diferentes sinais com as mãos, cada um correspondente a uma cadência ou “parada”. Parecia um maestro regendo a sinfonia.

    Neste dia ficou ainda mais claro que o envolvimento popular com a Festa é genuíno. Pessoas da comunidade trabalhando duro pra fazer o Carnaval de uma escola pequena, a maioria delas de forma voluntária, ou recebendo muito pouco por isso. Dos coordenadores de Ala aos integrantes da comissão de frente, uma dedicação bonita de se ver. Aconteceu o que eu não esperava. E o que me decepcionou muito. A direção da escola em questão resolveu de última hora que as fantasias que seriam distribuídas para algumas pessoas, serão na verdade vendidas para outras que têm pra pagar. Ou seja, estavam precisando de componentes, mas como apareceu quem comprasse, descartaram quem estava "afim". E isso mudou minha opinião sobre o Carnaval? Não, ainda não...

    “Chão da poesia, celeiro de bamba”

    A Vila Isabel vem com tudo este ano e promete um carnaval digno de campeonato ao falar da agricultura familiar e das tradições do interior. Mais um enredo patrocinado, a escola viu seu nome envolvido em uma polêmica nos últimos dias: um dos financiadores é a Basf, empresa que produz e vende agrotóxicos (leia mais aqui).

    O patrocínio foi considerado uma contradição por associações contrárias ao uso de agrotóxicos (a Basf é produtora), uma vez que o enredo exalta o alimento produzido de forma artesanal por famílias de pequenos agricultores espalhados pelo Brasil. O repúdio se torna legítimo quando notamos que o enredo fala da proteção da terra, tão maltratada por agrotóxicos. Há que se pensar uma solução, uma vez que foram os agrotóxicos que permitiram a produção em larga escala, para alimentar a população mundial.
    Polêmicas a parte, o bairro que traz em suas calçadas desenhos de notas musicais de Noel Rosa tem recebido ensaios de rua emocionantes. O belíssimo samba (campeão em algumas eleições promovidas antes do carnaval) composto por Arlindo Cruz, Martinho da Vila, André Diniz, Tonico da Vila e Leonel é entoado na ponta da língua pelos milhares de pessoas que acompanham o desfile.

    Durante os meses que antecedem o maior Carnaval do mundo, a cidade respira samba. E quem mora por aqui e gosta acaba se contagiando. O pré foi muito bom, só não foi melhor do que será o Carnaval.

  12. O caos essencial

    25 de janeiro de 2013

    Os filmes “Efeito Borboleta” (2004) e “Corra Lola, Corra” (1998) têm em comum a linha narrativa de transformações causadas por mudanças mínimas no proceder de seus personagens centrais. Em seus panos de fundo teóricos, ambos remetem à “Teoria do Caos” (o primeiro mais explicitamente que o segundo, uma vez que até o título faz alusão ao bater de asas da borboleta, metáfora que representa a Tese).

    Aplicada primeiramente ao entendimento dos mecanismos de criação das tempestades, das torrentes e dos furacões, a Teoria do Caos foi unificada pelo meteorologista Edward Lorenz tendo como base teorias científicas de outros estudiosos. A conhecida frase "O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque" sintetiza o conceito básico da Hipótese de Lorenz: a de que existe uma interligação oculta entre fatos aparentemente aleatórios.

    Os filmes de linhas cinematográficas divergentes convergem na ideia de que pequenas atitudes podem transformar drasticamente os acontecimentos e a vida de outras pessoas, envolvidas direta ou indiretamente com os fatos narrados. Na surpreendente ficção científica Blockbuster “Efeito Borboleta”, Evan Treborn (Ashton Kutcher) é um jovem estudante de psicologia que, enquanto criança e adolescente, sofreu de desmaios e bloqueios de memória. Após reencontro com seu amor de infância, Kayleigh (Amy Smart), Evan descobre que, ao ler seu diário, consegue enviar sua consciência adulta para o passado. Ele altera atitudes e muda completamente o seu destino, de sua namorada e amigos. Mas Evan rapidamente descobre que ter o dom de manipular o passado, não significa controlar o futuro.

    Ao se valer da Teoria do Caos como referência, o filme demonstra o que defendem Jonh Briggs e F. David Peat no artigo “Sabedoria do Caos”. Para eles a teoria não apenas se aplica aos fenômenos naturais, mas “a tudo, desde a medicina e os conflitos armados até a dinâmica social e as teorias de formação e transformação das organizações”. O caos estaria deixando de ser apenas uma teoria científica para tornar-se uma “metáfora cultural”. Além das transformações na história do filme a cada acesso que Evan faz ao seu passado, na versão em DVD, “Efeito Borboleta” apresenta dois finais diferentes possíveis (e ainda existe um terceiro final que foi censurado pela gravadora por mostrar uma espécie de “aborto”), o que coaduna com a Hipótese de que o universo é “permeado de sistemas caóticos que proporcionam uma resposta sempre criativa a um ambiente em mutação” (Briggs e Peat).

    “A sociedade moderna é obcecada pela conquista e pelo controle do mundo à sua volta e para tanto quer valer-se da ciência. Todavia, os sistemas caóticos e não-lineares – como a natureza, a sociedade e a vida de cada indivíduo – transcendem qualquer tentativa de previsão, manipulação e controle.”

    Os dois finais alternativos:






    Efeito Borboleta: Final alternativo (LEGENDADO-BR) por rodrigokleinmc


    O final censurado:


    Efeito Borboleta: Final do Diretor (LEGENDADO-BR) por rodrigokleinmc


    “Corra Lola, corra” é de outra vertente cinematográfica. Filme alemão independente rodado em 1998 em linguagem quase videoclíptica, com inserções de desenhos animados e trilha sonora alucinante. Tudo com o objetivo de traduzir a histeria que se passa nos 20 minutos que a protagonista do filme tem para salvar o namorado. Diferentemente do filme americano, neste as possibilidades de desfecho são apresentadas como se o tempo sempre voltasse 20 minutos, dando uma “nova chance” aos personagens.

    Pela sinopse, Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de contrabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos. Ele só tem 20 minutos para recuperar o dinheiro ou irá confrontar a ira do seu chefe, Ronnie, um perigoso criminoso. Desesperado, Manni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda para seu pai (Herbert Knaup), presidente de um banco. Assim, Lola corre pelas ruas de Berlim, sendo apresentados três possíveis finais à sua louca corrida para salvar o namorado.

    O roteiro dialoga diretamente com uma das Teses Caóticas apresentadas no artigo de Briggs e Peat. Eles questionam se a vida é simples ou complexa e respondem que as duas opções estão igualmente corretas. “O caos revela que o que parece incrivelmente complicado pode ter uma origem simples, enquanto a simplicidade pode ocultar algo de assombrosa complexidade”. À complexa situação com a qual Lola se defronta, ela escolhe soluções aparentemente simples (como pedir dinheiro emprestado ao pai), mas acaba se defrontando, por exemplo, com o fato de o pai estar tendo um caso com a secretária, o que torna a situação ainda mais intrincada.

    “Corra Lola, corra” também apresenta que mudanças mínimas no comportamento da protagonista podem ocasionar “ondas” de efeito imprevisíveis para a vida dos demais personagens da narrativa. Entretanto, nesta trama um dos fatores mais importantes é o tempo que se passa entre um telefonema do namorado e sua possível morte ao se encontrar com o chefe criminoso. Para o Caos, o tempo não é linear nem contínuo, mas composto de feixes de minúsculas descontinuidades. Ou seja, existe apenas o tempo presente e é nele que tudo transcorre. E é no tempo presente que Lola vai tomando decisões diferentes à medida que as situações vão se impondo.


    “Durante um acidente com risco de vida, o tempo parece ficar suspenso. Os eventos se sucedem em câmera lenta. Temos um estranho mundo de tempo para decidir se devemos frear ou acelerar para escapar a uma possível batida (...). Em momentos de crise, nós nos desligamos temporariamente do tempo mecânico do relógio(...).”

    A consciência de que tudo está relacionado, interconectado, e de que somos parte de uma única cadeia, se reflete, invariavelmente, na forma como o ser humano pensa e age no mundo. Todos somos feições de uma consciência coletiva: o agir de uma pessoa ou de um pequeno grupo influenciado pelas pessoas que o integra pode afetar o mundo inteiro de maneira profunda e sutil. Em outras palavras, existe uma solidariedade comum e natural entre todas as partes desse todo. Negar isso é negar o essencial.