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  1. Um samba de ausência

    1 de novembro de 2012

    Eu fiz um samba sem dor
    Pois a minha, apesar de tê-la
    Não é tamanha que mereça, ela
    Um hino sequer de expiação

    Eu fiz um samba sem mulata
    Pois a minha inspiração
    Apesar das curvas violão
    É branca, de cabelos negros
    E meio desengonçado é o seu requebrado

    Eu fiz um samba sem favela
    Pois apesar da consternação
    Pelos que vivem lá
    E da admiração por suas lutas
    Meus pés sempre estiveram fincados no chão
    Mais próximos do nível do mar

    Eu fiz um samba sem ziriguidum
    Balacobaco, laiaraiá
    Telecoteco, lerêlerê
    Pois apesar de ter aprendido
    Da professora a onomatopeia
    Na escola do sambista não fiz estreia

    Se podem ser chamados de samba
    Esses meus versos de ausência, caro sambista
    Não sei, nem faço questão
    Posso, apesar disso, dizer:
    Fiz um samba com muito respeito e admiração
    A arte que é fazer samba






  2. Em novo post para o Blog Oi Preguiça, falo sobre algumas das experiências que tive ao conhecer Paris. Confere lá (clicando na foto):



  3. Visão cotidiana

    22 de outubro de 2012


    Rio maravilha e suas armadilhas
    De quentes esquinas barulhentas
    Sujas ruas espaçosas
    Estreitos becos
    De escadas, elevadores

    Que elevam dores
    De moças belas
    De pernas dançantes
    Novas, velhas
    Sempre belas

    Elas amores
    de moços fortes, fracos
    sempre belos
    flutuando em seus mares

    De verdes ilhas
    De florestas ameaçadas
    Enfeitadas de flores

    De bares de alegrias bambas
    Rodopiando em tristes sambas
    E batucadas de malandros e mulatas

    De tiros de meninos e meninas
    com máscaras de tiras, traficantes
    em violentas vidas breves

    De vagabundos e seus ócios
    Trabalhadores em seus negócios
    De trilhos que levam
    Às suas trilhas Rio maravilha

  4. Assim fica fácil tirar belas fotos.



     











  5. Soneto do teu corpo

    4 de outubro de 2012

    Moska/Leoni

    Juro beijar teu corpo sem descanço
    Como quem sai sem rumo pra viagem
    Vou te cruzar sem mapa nem bagagem
    Quero inventar a estrada enquanto avanço
    Beijo teus pés
    Me perco entre teus dedos
    Luzes ao norte
    Pernas são estradas
    Onde meus lábios correm a madrugada
    Pra de manhã chegar aos teus segredos
    Como em teus bosques
    Bebo nos teus rios
    Entre teus montes
    Vales escondidos
    Faço fogueira
    Choro, canto e danço
    Línguas de Lua
    Varrem tua nuca
    Línguas de Sol
    Percorrem tuas ruas
    Eu juro beijar teu corpo sem descanço
    Eu juro



  6. Alguns artistas da música conseguiram a façanha de se tornar eternos, ultrapassando barreiras como o tempo e até mesmo a morte. A ida à carinhosa exposição Viva Elis, em passagem pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, no último domingo, me atestou aquilo que eu já suspeitava. A obra de Elis Regina tem essa estranha força de encantar mesmo gerações de pessoas que nunca a viram num palco, que não estavam lá nos lançamentos de seus discos e especiais de TV.


    Ver crianças de 9, 10 anos balançando as cabeças ao colocar um fone de ouvido e escutar músicas e entrevistas de Elis, assim como nossos pais anos atrás, imersas e atentas, é realmente curioso. Representantes desta nova geração acostumada a ouvir cantoras, brasileiras ou não, com impostações de voz à moda “american diva” e suas batidas extremamente eletrônicas, estavam ali se deliciando ao som de originais interpretações viscerais e emocionadas da Pimentinha (um dos apelidos de Elis).

    E eu também, que nasci um ano e meio depois de sua súbita morte, estava ali envolvido com projeções em telões de alta resolução, sons remasterizados e gravações originais de uma época que não vivi, mas que me remetiam a um sentimento incoerente de nostalgia. Mas saudade de algo que não vivi?

    Talvez tenhamos herdado de nossos pais essa estranha mania de gostar de Elis. Talvez o culto à sua obra foi, sim, transmitido a nós por pessoas que estavam lá, sobretudo pela mídia que, neste caso, soube de alguma forma valorizar e perpetuar o talento dessa grande artista. Talvez a marcante presença de uma “herdeira” do talento de Elis, sua filha e também cantora Maria Rita, tenha despertado o interesse das novas gerações por sua obra. 

    Talvez estas sejam respostas possíveis à minha indagação, porém nenhuma delas é completa. Basta um olhar sobre o cenário musical pra constatar, por exemplo, tantos talentosos filhos de notáveis artistas da música brasileira que tentam levar a obra dos pais às novas gerações e não têm êxito. Basta reconhecer artistas que, apesar de toda mídia em torno de suas memórias musicais, não ultrapassam a barreira da simples memória. Basta olhar a prateleira de vinis de nossos pais e avós pra ver que tanta gente que eles gostam não passam de “música velha” pra nós, os filhos e netos.

    A obra de Elis, porém, é extremamente viva, como o proposital nome do projeto que está levando exposições e shows sobre a artista para os cinco cantos do Brasil. Suas interpretações cheias de teatralidade e, ao mesmo tempo, verdade conseguem falar a todos, pois tocam em temas universais e permanentes. A qualidade musical dos parceiros que escolheu, de músicos e seus arranjos a compositores e suas poesias, agrada aos ouvidos, sem distinção.


    A melhor definição para a comoção causada por Elis Regina e sua música saiu de forma simples da boca da minha boa companhia à exposição, minha noiva. Disse, quando saíamos da última sala que visitamos – onde tivemos acesso à uma playlist interativa da qual podíamos ouvir as gravações de qualquer disco da cantora e ainda ler informações de encartes e matérias jornalísticas:

    - Se desse a gente não saía mais daqui, né? - Elis não saiu...



  7. Eles já chegaram por aqui

    12 de setembro de 2012

    Imagina nas Olimpíadas...


     



  8. XIII*

    28 de agosto de 2012


    Renova-te.
    Renasce em ti mesmo.
    Multiplica os teus olhos, para verem mais.
    Multiplica os teus braços para semeares tudo.
    Destrói os olhos que tiverem visto.
    Cria outros, para as visões novas.
    Destrói os braços que tiverem semeado, 
    Para se esquecerem de colher.
    Sê sempre o mesmo.
    Sempre outro.
    Mas sempre alto.
    Sempre longe.
    E dentro de tudo.

    Cecília Meireles

    *Poesia publicada no livro póstumo da escritora, de 1982, com trechos de textos não finalizados, alguns sem títulos, como este aí que recebeu uma numeração aleatória. Fico imaginando se ela os tivesse finalizado. A foto é deste blogueiro e foi tirada no ano de 2006, em Roma (Itália).


  9. Confesso que sair sozinho no estilo "Independentes Futebol Clube", como diria uma amiga, nunca foi a minha praia. Mas a proposta que me fez um blog na internet era tão tentadora que arrisquei (e no fim das contas acabei na boa companhia de amigos). Acontecia o Borboun Street Fest, no Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, Rio de Janeiro, na noite da última segunda-feira, dia 13/08.

    O festival que traz músicos de Nova Orleans (New Orleans) para tocar em terras brasileiras era a boa pedida para quebrar a rotina sono-televisão-cama de todas as segundas-feiras.

    Havia convidado amigos, mas um furou, o outro desanimou, este estava trabalhando, aquele eu não tinha certeza se ia... E assim minhas companhias foram ficando pra trás no caminho do metrô até o local da apresentação. Pensei em desistir, afinal de contas, “nunca foi a minha praia”: prefiro a combinação boa música + boa companhia.

    Ao chegar ao destino, porém, o soul contagiante de Tony Hall e sua banda me fez querer ficar. A estrutura de som do local fazia as músicas soarem perfeitamente aos meus ouvidos leigos. Dava pra distinguir sons de baixo e cada um dos diferentes naipes de metais (sax, trompete,...).

    Não era novidade para Tony Hall, que havia tocada aqui anos antes, mas a energia boa do público chamou sua atenção. O músico que já tocou com Bob Dylan e Stevie Wonder, só pra citar alguns, soube ser simpático: “Acho que vou me mudar pra cá”, disse. E soube empolgar o público presente com seus grooves dançantes de músicas como All Night Long, Smooth (Santana) entre outras.

    O pai com a criança sobre os ombros, o casal de cinquentões, todos balançando o corpo num clima de baile funk (o baile funk original!) me fez esquecer que não estava acompanhado e até arriscar uns passos tímidos. Quem me conhece sabe que meu embaraço dos primeiros contatos não me permite a desenvoltura de puxar assunto com estranhos.

    Com o fim deste show acabara também meus momentos de “solidão na multidão”. Aquele amigo que eu não tinha certeza se ia resolveu aparecer e me acompanhar na cervejinha de segunda-feira. Depois foram chegando os amigos do amigo.

    Queríamos ouvir a atração principal da noite: a banda globalizada Playing for Change formada por artistas de diversas partes do mundo. O grupo que “Toca por uns Trocados” (livre tradução para o nome da banda) era a metáfora para o estilo New Orleans, onde é tradição bandas tocarem nas ruas por gorjetas.


    A mistura de percussão, gaita, instrumentos de corda e piano dá o tom ao repertório da banda – surgida a partir de um documentário com artistas de rua do mundo todo, rodado em 2004. As vozes de soul contemporâneo dos músicos mais jovens, Titi Tsira (voz feminina) e Clarence Bekker (voz masculina), contrastam com o timbre blues antigo do veterano Grandpa Elliot, músico portador de deficiência visual.

    Quem esteve lá sabe dos momentos de catarse coletiva em músicas como Three Little Birds (Bob Marley), e Stand By Me (ou “Fica comigo” na versão abrasileirada do Playnig for Change para o clássico de Bem E. King imortalizado na versão de John Lennon). No fim das contas, valeu muito a pena sair da zona de conforto. Recomendo.

    Em tempo: O Bourbon Fest continua até dia 19 de agosto em cidades brasileiras. É só entrar no site pra conferir.


  10. “A função da imprensa é ser o cão de guarda público, o denunciador incansável dos dirigentes, o olho onipresente do espírito do povo que guarda com ciúme sua liberdade.”

    “Para combater a liberdade de imprensa é preciso defender a imaturidade permanente da espécie humana.”

    “Uma imprensa censurada é ruim mesmo se produzir bons produtos. Uma imprensa livre é boa mesmo quando produz frutos ruins.”

    “A imprensa em geral é a consumação da liberdade humana.”


  11. Não é de hoje nem de ontem, que o Rio de Janeiro é um dos expoentes culturais palco de convergência das mais diversas referências musicais brasileiras. E foi esta pluralidade que permitiu que dois promissores músicos da MPB, de diferentes lugares do país, fizessem juntos o pré-lançamento de seus respectivos CDs. No show “Da Bahia a Minas”, que marcou as noites de terça-feira durante o mês de Julho, no bar Semente, na Lapa, Emerson Leal, o baiano, e César Lacerda, o mineiro, apresentaram ao público suas composições.

    Em um primeiro momento a mistura de tão diferentes referências pode soar improvável, como pão de queijo e acarajé. Mas no palco a distância geográfica se dilui e a originalidade musical de ambos faz do show um momento de celebração da MPB.

    Emerson Leal vira “músico da banda” de Cesar Lacerda e vice-versa. As canções, composições próprias de ambos que serão lançadas em álbuns distintos até o final do ano, são apresentadas aos ouvidos curiosos e atentos da plateia presente no espaço localizado aos pés dos arcos, no bairro boêmio carioca.

    A primeira parte do show fica por conta de César Lacerda, mineiro de Diamantina, que já participou de projetos como o “Por um passadomusicável” e “Coletivo Abgail”, de repercussões relativas na internet e nos palcos da cena alternativa Brasil afora.

    As canções autorais de César, algumas delas já disponíveis em EP no Musicoteca, ganham roupagem acústica bem diferente dos arranjos conhecidos. A originalidade das experimentações sonoras presentes no EP em canções como “Herói” e “Namorin”, dá lugar à crueza da “voz e violão” (com um pouquinho de percussão em alguns momentos) e o tom intimista das composições prevalece. O mineiro até se arrisca em compartilhar: “essa (música) foi feita em homenagem a uma prostituta portuguesa que conheci em Lisboa”.

    Esquentando a segunda parte da noite, Emerson Leal chega com sua música de referências diversas e tons coloridos. Seu repertório que remete a vários estilos musicais é recheado de boas composições assimiláveis em termos de conteúdo – letras que contam situações com as quais qualquer um se identificaria –, mas que fogem a obviedades na forma. A sonoridade das palavras ganha peso em suas composições que, por isso, se arriscam em neologismos de expressões como “me love-me”. O efeito surpresa é outro recurso poético presente em canções como a divertida “Blues da Vampira”.

    Soteropolitano radicado no Rio de Janeiro, Emerson tem a musicalidade na sua formação.  Músico intuitivo, montou show próprio intitulado “Arte final”, apresentado em teatros na capital Baiana, no início dos anos 2000. A participação na extinta banda de blues tupiniquim Oda Mae Brown possibilitou ao compositor explorar um tom descontraído, ecoado hoje em algumas de suas atuais poesias musicadas.

    Sua participação como músico em shows e gravações de diversos artistas da cena da MPB rendeu parcerias com nomes como Tom Zé e Luiz Tatit. Parcerias estas que, promete, “estarão registradas no CD de estréia”, antes de emendar a bonita composição em conjunto com Tatit “Das dores e das flores”.



    Os duetos de César e Emerson no final do show para levar, além de canções autorais, músicas de Caetano Veloso e Chico Buarque (só para citar dois deles) apresenta uma amostra do vasto universo de referências que influenciaram musicalmente seus repertórios. A participação da cantora e compositora também estreante Luiza Brina foi um regalo a mais para quem já estava satisfeito por ter ouvido amostras de MPB de qualidade ao longo da noite.