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  1. A cena que escolhi dessa vez faz parte do filme 500 dias com ela: a história de um cara inseguro e apaixonado, que encontra uma namorada filha da puta. Ela ilude esse cara, dando esperanças falsas, que ele, mais idiota impossível, acolhe como se fossem verdade. É uma temática muito adolescente, verdade, mas contada de forma inteligente, em um roteiro divertido e dinâmico. Quem foi o cara que nunca passou por essas e outras na vida? E agora olha pra trás e ri da situação ("Como eu pude ser tão mané?"). No trecho, embalado por música da Regina Spektor, duas situações: a expectativa do cara que foi convidado para o aniversário da agora ex-namorada e é recebido com beijos, bebidas e papo animado vs. a realidade de ver que a fila já tinha andado e a ex, insensível, achou que o cara ia ser o "amiguinho" a comemorar o novo namorado. No início das cenas, há uma metáfora inteligente sobre a qual depois vai se desenrolar todo o trecho: no quadro que equivale à expectativa, o moço aparece descendo às escadas para a casa da moça; no quadro "realidade" ele precisa subir esta escada.Vale dar uma olhada no filme.



  2. Um monumento é apenas um monumento?

    Em seu estudo sobre Monumento, política e espaço, Roberto Lobato Corrêa afirma que os monumentos não são apenas objetos estéticos, mas de certa forma, intencionalmente dotados de sentido político. Como “representações materiais de eventos passados” eles carregam simbologias que vão além do concreto e armações metálicas de que são fabricados, e neles estão concentrados sentidos que comunicam interpretações da realidade, sob um ponto de vista temporal.


    Para o município de Volta Redonda (RJ) um monumento específico, o Memorial 9 de Novembro, do arquiteto Oscar Niemeyer, carrega não apenas a memória de uma tragédia, um trauma pelo qual toda a cidade foi obrigada a passar por conta de decisões políticas autoritárias e equivocadas, mas sobretudo a representação simbólica de um momento marcante e decisivo para o Brasil.

    A história deste Memorial começa, na verdade, meses antes de sua construção. No dia 7 de novembro de 1988, os metalúrgicos da CSN iniciaram uma greve e ocuparam a Usina Presidente Vargas (UPV). Comandados pelo líder sindical Juarez Antunes, que inflamava os trabalhadores em assembleias às vezes sem microfone com discursos propagados por outros como em um processo de “ondas”, o ato tinha como principais reivindicações a readmissão dos trabalhadores demitidos por perseguição política, a redução de oito para seis horas da jornada de trabalho para as atividades ininterruptas e ainda um reajuste salarial.

    Mesmo com o fim da Ditadura Militar no início dos anos 1980, o Exército, sob o comando do general José Luiz Lopes, foi autorizado pelo então presidente José Sarney a invadir a usina. Era o sinal mais evidente de resquícios do autoritarismo no governo e, certamente, prova de que a influência militar nas decisões do país não havia cessado (como sabemos, o fim da Ditadura foi fruto de um acordo entre os ‘cabeças’ da política nacional mais do que de pressões sociais como as Diretas Já, entre outros movimentos).

    Com a autorização do presidente, no dia 09 de Novembro, soldados do Exército de Valença e Petrópolis e do Batalhão de Choque da Polícia Militar dispersaram uma manifestação pública pacífica que acontecia em frente ao então Escritório Central da CSN, transformando o centro da Vila Santa Cecília em verdadeiro campo de batalha. Além dos metalúrgicos, estavam naquela manifestação, mulheres e crianças, donas de casas, professores, padres e representantes de movimentos da Igreja Católica, que em Volta Redonda sempre apoiaram o movimento dos operários. A comoção em torno da causa sempre foi generalizada.


    Os militares invadiram a fábrica, atirando nos operários. O saldo da operação foi a morte de William Fernandes Leite de 22 anos, Valmir Freitas Monteiro de 27, Carlos Augusto Barroso de 19 anos, além de 46 feridos (segundo dados oficiais). Segundo relatos, Valmir foi atingido por um tiro na nuca e gritou: "Está doendo, acho que me acertaram". Barroso, além dos tiros recebidos, teve o crânio esmagado por coronhadas de fuzil. William estava voltando do refeitório na hora que os soldados começaram a atirar. Foi surpreendido e, mesmo atingido pelos tiros, ainda andou cerca de 30 metros. Quando caiu, seus companheiros viram que já estava morto e carregaram o corpo para junto dos soldados, pedindo atendimento.

    O enterro dos jovens e a missa de sétimo dia levaram milhares às ruas da cidade nos dias seguintes às mortes. Mesmo depois do assassinato dos três operários, a greve continuou até a conquista das reivindicações e a retirada do Exército do município, o que aconteceu em 24 de novembro. Cabe aqui o relato de Sandra Veiga e Isaque Fonseca retirado do livro Volta Redonda – Entre o aço e as armas.

    “A greve prosseguiu até o dia 23 de novembro, quando realizou-se, em frente ao escritório central da CSN, uma dramática Assembléia. Luiz Albano abre os trabalhos chamando, um a um, os operários mortos no confronto com o Exército, ao que a Assembléia responde: ‘Presente!’ Luizinho, primeiro orador inscrito, exalta a bravura dos operários e conclama ao fim da greve. No mesmo tom, seguem-se Marcelo Felício, Vanderlei Barcellos e, finalmente, Juarez Antunes.”










    No ano seguinte, o 1º de maio de 1989, foi inaugurado o Memorial 9 de Novembro, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, em homenagem aos três operários assassinados. Algumas horas depois, na madrugada do dia 2, um atentado com bomba derrubou o memorial que ficou tombado para frente, preso apenas pelo ferro da armação. Na ocasião, Niemeyer fez questão de reinaugurar o monumento, mantendo as marcas da violência, apenas erguendo o que foi derrubado, para que os acontecimentos ficassem para sempre na memória.


    Revelações sobre o atentado - Anos mais tarde veio ao conhecimento público o testemunho de Dalton Roberto de Melo Franco, ex-capitão do Primeiro Batalhão de Forças Especiais, sobre a bomba que destruiu o memorial. Ele revelou ao JB ter sido punido e logo expulso do Exército porque tinha se recusado a participar do atentado contra o Memorial Nove de Novembro sem uma ordem por escrito. Dalton tinha feito parte de um grupo de oficiais das Forças Especiais infiltrado na CSN em 1988 para identificar e “isolar rapidamente os líderes” durante a invasão pelo Exército.

    Sobre o ano de 1989, quando ia ser erguido o memorial, o ex-oficial relatou o seguinte: “o Exército achou que aquilo era uma afronta, que se estava querendo criar mártires”. Contou ter recebido uma ordem do então coronel Álvaro de Souza Pinheiro para explodir o monumento, e quando se recusou, a tarefa foi cumprida por outros agentes. “A dinamite foi dada pelos bicheiros do Rio e tirada de pedreiras da Baixada Fluminense. Eles ajudaram a montar um paiol com munição que depois seria usada em várias operações irregulares”, disse.


    Memória local e nacional - A praça onde foi erguido o monumento está também impregnada de simbologia. Localizada entre a entrada principal da CSN e o antigo Escritório Central, sede das decisões administrativas da empresa, o local foi palco de assembleias históricas, como a que contou com a presença do ex-presidente Lula, então líder sindical do ABC paulista. Foi o ponto de partida do cortejo fúnebre do prefeito Juarez Antunes, morto em 1988 (logo após a greve), num controverso suposto acidente de automóvel, cortejo este que levou mais de 100 mil pessoas às ruas, entre outros acontecimentos.


    Hoje é comemorado o 24º aniversário da morte de William, Valmir e Barroso. Com exceção de William – que era filiado ao PT – nenhum deles era ativista. Também eles viraram símbolos de uma época crucial para a história do município e do país. 

    Com informações - Jornais Aqui e A Voz da Cidade e The Internacionalist

  3. Um samba de ausência

    1 de novembro de 2012

    Eu fiz um samba sem dor
    Pois a minha, apesar de tê-la
    Não é tamanha que mereça, ela
    Um hino sequer de expiação

    Eu fiz um samba sem mulata
    Pois a minha inspiração
    Apesar das curvas violão
    É branca, de cabelos negros
    E meio desengonçado é o seu requebrado

    Eu fiz um samba sem favela
    Pois apesar da consternação
    Pelos que vivem lá
    E da admiração por suas lutas
    Meus pés sempre estiveram fincados no chão
    Mais próximos do nível do mar

    Eu fiz um samba sem ziriguidum
    Balacobaco, laiaraiá
    Telecoteco, lerêlerê
    Pois apesar de ter aprendido
    Da professora a onomatopeia
    Na escola do sambista não fiz estreia

    Se podem ser chamados de samba
    Esses meus versos de ausência, caro sambista
    Não sei, nem faço questão
    Posso, apesar disso, dizer:
    Fiz um samba com muito respeito e admiração
    A arte que é fazer samba






  4. Em novo post para o Blog Oi Preguiça, falo sobre algumas das experiências que tive ao conhecer Paris. Confere lá (clicando na foto):



  5. Visão cotidiana

    22 de outubro de 2012


    Rio maravilha e suas armadilhas
    De quentes esquinas barulhentas
    Sujas ruas espaçosas
    Estreitos becos
    De escadas, elevadores

    Que elevam dores
    De moças belas
    De pernas dançantes
    Novas, velhas
    Sempre belas

    Elas amores
    de moços fortes, fracos
    sempre belos
    flutuando em seus mares

    De verdes ilhas
    De florestas ameaçadas
    Enfeitadas de flores

    De bares de alegrias bambas
    Rodopiando em tristes sambas
    E batucadas de malandros e mulatas

    De tiros de meninos e meninas
    com máscaras de tiras, traficantes
    em violentas vidas breves

    De vagabundos e seus ócios
    Trabalhadores em seus negócios
    De trilhos que levam
    Às suas trilhas Rio maravilha

  6. Assim fica fácil tirar belas fotos.



     











  7. Soneto do teu corpo

    4 de outubro de 2012

    Moska/Leoni

    Juro beijar teu corpo sem descanço
    Como quem sai sem rumo pra viagem
    Vou te cruzar sem mapa nem bagagem
    Quero inventar a estrada enquanto avanço
    Beijo teus pés
    Me perco entre teus dedos
    Luzes ao norte
    Pernas são estradas
    Onde meus lábios correm a madrugada
    Pra de manhã chegar aos teus segredos
    Como em teus bosques
    Bebo nos teus rios
    Entre teus montes
    Vales escondidos
    Faço fogueira
    Choro, canto e danço
    Línguas de Lua
    Varrem tua nuca
    Línguas de Sol
    Percorrem tuas ruas
    Eu juro beijar teu corpo sem descanço
    Eu juro



  8. Alguns artistas da música conseguiram a façanha de se tornar eternos, ultrapassando barreiras como o tempo e até mesmo a morte. A ida à carinhosa exposição Viva Elis, em passagem pelo Centro Cultural Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, no último domingo, me atestou aquilo que eu já suspeitava. A obra de Elis Regina tem essa estranha força de encantar mesmo gerações de pessoas que nunca a viram num palco, que não estavam lá nos lançamentos de seus discos e especiais de TV.


    Ver crianças de 9, 10 anos balançando as cabeças ao colocar um fone de ouvido e escutar músicas e entrevistas de Elis, assim como nossos pais anos atrás, imersas e atentas, é realmente curioso. Representantes desta nova geração acostumada a ouvir cantoras, brasileiras ou não, com impostações de voz à moda “american diva” e suas batidas extremamente eletrônicas, estavam ali se deliciando ao som de originais interpretações viscerais e emocionadas da Pimentinha (um dos apelidos de Elis).

    E eu também, que nasci um ano e meio depois de sua súbita morte, estava ali envolvido com projeções em telões de alta resolução, sons remasterizados e gravações originais de uma época que não vivi, mas que me remetiam a um sentimento incoerente de nostalgia. Mas saudade de algo que não vivi?

    Talvez tenhamos herdado de nossos pais essa estranha mania de gostar de Elis. Talvez o culto à sua obra foi, sim, transmitido a nós por pessoas que estavam lá, sobretudo pela mídia que, neste caso, soube de alguma forma valorizar e perpetuar o talento dessa grande artista. Talvez a marcante presença de uma “herdeira” do talento de Elis, sua filha e também cantora Maria Rita, tenha despertado o interesse das novas gerações por sua obra. 

    Talvez estas sejam respostas possíveis à minha indagação, porém nenhuma delas é completa. Basta um olhar sobre o cenário musical pra constatar, por exemplo, tantos talentosos filhos de notáveis artistas da música brasileira que tentam levar a obra dos pais às novas gerações e não têm êxito. Basta reconhecer artistas que, apesar de toda mídia em torno de suas memórias musicais, não ultrapassam a barreira da simples memória. Basta olhar a prateleira de vinis de nossos pais e avós pra ver que tanta gente que eles gostam não passam de “música velha” pra nós, os filhos e netos.

    A obra de Elis, porém, é extremamente viva, como o proposital nome do projeto que está levando exposições e shows sobre a artista para os cinco cantos do Brasil. Suas interpretações cheias de teatralidade e, ao mesmo tempo, verdade conseguem falar a todos, pois tocam em temas universais e permanentes. A qualidade musical dos parceiros que escolheu, de músicos e seus arranjos a compositores e suas poesias, agrada aos ouvidos, sem distinção.


    A melhor definição para a comoção causada por Elis Regina e sua música saiu de forma simples da boca da minha boa companhia à exposição, minha noiva. Disse, quando saíamos da última sala que visitamos – onde tivemos acesso à uma playlist interativa da qual podíamos ouvir as gravações de qualquer disco da cantora e ainda ler informações de encartes e matérias jornalísticas:

    - Se desse a gente não saía mais daqui, né? - Elis não saiu...



  9. Eles já chegaram por aqui

    12 de setembro de 2012

    Imagina nas Olimpíadas...


     



  10. XIII*

    28 de agosto de 2012


    Renova-te.
    Renasce em ti mesmo.
    Multiplica os teus olhos, para verem mais.
    Multiplica os teus braços para semeares tudo.
    Destrói os olhos que tiverem visto.
    Cria outros, para as visões novas.
    Destrói os braços que tiverem semeado, 
    Para se esquecerem de colher.
    Sê sempre o mesmo.
    Sempre outro.
    Mas sempre alto.
    Sempre longe.
    E dentro de tudo.

    Cecília Meireles

    *Poesia publicada no livro póstumo da escritora, de 1982, com trechos de textos não finalizados, alguns sem títulos, como este aí que recebeu uma numeração aleatória. Fico imaginando se ela os tivesse finalizado. A foto é deste blogueiro e foi tirada no ano de 2006, em Roma (Itália).


  11. Confesso que sair sozinho no estilo "Independentes Futebol Clube", como diria uma amiga, nunca foi a minha praia. Mas a proposta que me fez um blog na internet era tão tentadora que arrisquei (e no fim das contas acabei na boa companhia de amigos). Acontecia o Borboun Street Fest, no Parque Garota de Ipanema, no Arpoador, Rio de Janeiro, na noite da última segunda-feira, dia 13/08.

    O festival que traz músicos de Nova Orleans (New Orleans) para tocar em terras brasileiras era a boa pedida para quebrar a rotina sono-televisão-cama de todas as segundas-feiras.

    Havia convidado amigos, mas um furou, o outro desanimou, este estava trabalhando, aquele eu não tinha certeza se ia... E assim minhas companhias foram ficando pra trás no caminho do metrô até o local da apresentação. Pensei em desistir, afinal de contas, “nunca foi a minha praia”: prefiro a combinação boa música + boa companhia.

    Ao chegar ao destino, porém, o soul contagiante de Tony Hall e sua banda me fez querer ficar. A estrutura de som do local fazia as músicas soarem perfeitamente aos meus ouvidos leigos. Dava pra distinguir sons de baixo e cada um dos diferentes naipes de metais (sax, trompete,...).

    Não era novidade para Tony Hall, que havia tocada aqui anos antes, mas a energia boa do público chamou sua atenção. O músico que já tocou com Bob Dylan e Stevie Wonder, só pra citar alguns, soube ser simpático: “Acho que vou me mudar pra cá”, disse. E soube empolgar o público presente com seus grooves dançantes de músicas como All Night Long, Smooth (Santana) entre outras.

    O pai com a criança sobre os ombros, o casal de cinquentões, todos balançando o corpo num clima de baile funk (o baile funk original!) me fez esquecer que não estava acompanhado e até arriscar uns passos tímidos. Quem me conhece sabe que meu embaraço dos primeiros contatos não me permite a desenvoltura de puxar assunto com estranhos.

    Com o fim deste show acabara também meus momentos de “solidão na multidão”. Aquele amigo que eu não tinha certeza se ia resolveu aparecer e me acompanhar na cervejinha de segunda-feira. Depois foram chegando os amigos do amigo.

    Queríamos ouvir a atração principal da noite: a banda globalizada Playing for Change formada por artistas de diversas partes do mundo. O grupo que “Toca por uns Trocados” (livre tradução para o nome da banda) era a metáfora para o estilo New Orleans, onde é tradição bandas tocarem nas ruas por gorjetas.


    A mistura de percussão, gaita, instrumentos de corda e piano dá o tom ao repertório da banda – surgida a partir de um documentário com artistas de rua do mundo todo, rodado em 2004. As vozes de soul contemporâneo dos músicos mais jovens, Titi Tsira (voz feminina) e Clarence Bekker (voz masculina), contrastam com o timbre blues antigo do veterano Grandpa Elliot, músico portador de deficiência visual.

    Quem esteve lá sabe dos momentos de catarse coletiva em músicas como Three Little Birds (Bob Marley), e Stand By Me (ou “Fica comigo” na versão abrasileirada do Playnig for Change para o clássico de Bem E. King imortalizado na versão de John Lennon). No fim das contas, valeu muito a pena sair da zona de conforto. Recomendo.

    Em tempo: O Bourbon Fest continua até dia 19 de agosto em cidades brasileiras. É só entrar no site pra conferir.