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  1. Por aquele apartamento

    15 de março de 2013


    Por aquele apartamento já passaram mestrandos em história, concurseiros e micareteiros; socialistas, gays, lésbicas e simpatizantes, tucanos da extrema direita e peladeiros; católicos fervorosos, católicos, espíritas, músicos e bailarinos; maconheiros, loucos, amantes do samba e do rock; nerds, bêbados, engajados e alienados... Quantos rótulos!

    Ele mesmo tenta entender, e a conclusão a que sempre chega é a de que cabe dentro daquelas quatro paredes uma parte da diversidade do mundo, talvez porque caiba na mente e no coração do anfitrião todo respeito a qualquer diversidade. 

    Num determinado ponto de sua vida, ele chegou a conclusão de que valores e crenças que o afastavam das pessoas não valiam a pena. Valores e crenças que o estimulavam a prejulgar e condenar, mesmo sem intenção. Imaginava como poderia dizer que pessoas tão boas, que faziam pelo semelhante mais até do que ele com suas crenças e valores ditos "corretos", estariam excluídas.

    Muitos se espantam e olham torto, com ar solene de preocupação. Deixam transparecer a veia do preconceito velado. Se esforçam por uma complacência desnecessária. Condenam em pensamento, provavelmente. Mostram o lado humano falho, que ele também possui. Segue sem importar com o que vão pensar. 

    Ali, naquele pequeno espaço, batem papo, bebem suco, cerveja, falam sério, falam besteira e riem, debatem, discutem, se ajudam, desabafam. Brigam? Quase nunca. Ouvem música, fazem comida, se preparam pro carnaval. Aquele pequeno espaço, ali, virou, sem que ele quisesse ou esperasse, um reflexo de sua personalidade.



  2. Ser humano / Ser urbano

    8 de março de 2013

    Da série: "Textos que eu gostaria de ter escrito", esta crônica do Marcelo Rubens Paiva (publicada no Estadão em Dezembro do ano passado) expressa algumas verdades e sentimentos sobre morar em um grande centro urbano com suas trilhas labirínticas, mobilidades programadas e pessoas que se acostumaram a viver no ritmo frenético da cidade. É o ser humano transformado em ser urbano. Leia com atenção!

    Xilogravura "Urbanóides" de Rubem Grilo

    O urbano selvagem

    Marcelo Rubens Paiva


    Tenho a sensação de que a maioria que me atende preferia desabafar: "Não estou aqui porque quero, mas porque pre-ci-so".

    E quanto maior a cidade, mais indiferente fica o morador. Como uma defesa. Mais indiferente a problemas que "não são da minha esfera". Como há milhões circulando diariamente, se você reclama atenção exclusiva num guichê, uma fila de gente que aceita as regras se forma atrás. Portanto, se você acredita que há problemas no serviço oferecido, nem vem, pois quem fica do outro lado do balcão, porque pre-ci-sa, não porque adora, grita sem muita consideração: "Próximo!"

    Como aprendemos na infância, a expressão precisa de um reacionário, os incomodados que se retirem.

    Parece uma contradição, afinal, os sumérios inventaram as cidades, os gregos as transformaram em Estado, os romanos as aperfeiçoaram e popularizaram soluções engenhosas de engenharia para civilizar tribos e antigos aldeões selvagens. A burocracia estatal se firmou como solução para problemas criados pelo convívio em massa em espaços apertados. Problemas que não tínhamos quando morávamos em cavernas, tribos, aldeias.
    No ambiente labiríntico da burocracia estatal, a relação atendente & nós é tensa, ele está lá porque pre-ci-sa e ganha direitos específicos, imunidades, uma aposentadoria infinitamente mais justa que a nossa, privilégios do monopólio e estabilidade questionada do serviço público.

    Muita gente não está onde está porque quer, é um paradoxo urbano com que somos obrigados a conviver - a não ser que nos mudemos de chapéu e cuia para a casa do mesmo, onde Judas perdeu as botas, para plantar batatas, bananeiras e vermos se tem alguém na esquina.

    A maioria gostaria de estar numa praia, numa rede, numa ilha deserta, num resort luxuoso, ou numa rede de uma praia de um resort luxuoso de uma ilha deserta a que só se chega de navio, ou até numa espaçonave, não num balcão atendendo às queixas de sujeitos que desconhecem leis, protocolos, imprevistos.

    Estou aqui, pre-ci-so deste emprego, fiz concurso, fui indicado, escuto amigavelmente suas reclamações despropositais, para apontar com toda paciência e precisão o guichê correto, documento que falta, formulário a ser preenchido. E chego em casa afônico de tanto: "Próximo!"

    No metrô, instalaram novas, como chamam aquilo, catracas? Mas não fazem "cá-tra-cá" quando acionadas. São duas lâminas de vidro verticais muito ameaçadoras, nada onomatopeicas. O sujeito enfia o bilhete. Elas abrem. Se não passar rápido, elas fecham, como uma tesoura, cortam você em dois. Não fazem "cá-tra-cá", mas "vupt". Intimidação que começa na entrada. "Tente me enganar, que te quebro!" O vupt pode virar crau!

    Hora do rush. Depois de ultrapassarmos dentes afiados que excluem não pagantes, descemos pelo esôfago do transporte nada acolhedor, nos apertamos na plataforma até chegar nosso trem, o duodeno. Com movimentos peristálticos, viajamos pelos canais do intestino delgado, baldeação para o grosso, para sairmos do outro lado, noutra estação, no orifício de outro bairro, passando pelo esfíncter que dessa vez parece mais amigável e faz um vupt suave como um pum.

    Andar e ser tratado diariamente como um toco de fezes deixa qualquer um abominavelmente selvagem.

    Como em Londres, que tem o notório "mind the gap" (atente ao vão), o sistema de som dos metrôs daqui deveria, entre um quarteto de Mozart e uma ária de Bach, nos acalmar com uma voz doce, frases positivas e de cunho social, "quem espera sempre alcança", "seja justo e dê passagem", "calma, você vai chegar em tempo", "feche os olhos e pense numa rede de uma praia duma ilha deserta", "conte até dez, respire fundo", "acabamos de ouvir Concerto de Brandenburgo, allegro".


  3. Transitoriedade de você

    5 de março de 2013

    Comprei casa, mudei cidade
    Endereço, estado civil e número de sapato
    Fiz a escola da vida
    E você não passou de um poema antigo no arquivo de um blog

    Fui pra Madri, Paris, Itapecerica
    Virei mundo
    Gritei basta*
    E você não passou de um livro cheio de orelhas, empoeirado, guardado no fundo da gaveta

    Escolhi azulejos, cor de tinta, móveis que combinam
    Fui à 25 de março, desci no bonde de Santa Tereza
    Voei alto, aterrissei em abismos
    E você não passou de uma lembrança esquecida na memória

    Aprendi a dançar sozinho, acompanhado
    Desaprendi a fazer contas de matemática
    Dancei samba, rock, samba
    As contas do mês não fecharam
    E você não passou de um esboço de sonho no rascunho que joguei fora

    Ganhei dinheiro, assinei contratos
    Comprei um terno, troquei o carro
    Por fim, desaprendi a caminhar no céu**
    E você não passou de uma música brega no meu aparelho de som

    Beijei moças, abracei amigos,
    Pulei carnaval, sete ondas, cerca
    Tomei mil porres, de Brahma a Jhonny Walker
    Fui pós-mestre doutorado
    E você passou como um dia de sol ou uma tempestade como uma tempestade que, apesar dos estragos que deixa, sempre passa.




    ** Adaptação de trecho da música "Busca Vida" - de Herbert Vianna.

  4. Os amigos bizarros do Ricardinho

    25 de fevereiro de 2013


    Vale a pena assistir e rir das situações cômicas (mas nunca caricatas) deste curta-metragem de nome extenso lançado em 2009. O filme conta a história de um jovem estagiário levado ao limite da tensão em seu ambiente de trabalho. A medida em que a situação torna-se insuportável, Ricardinho reage de forma estranha: começa a contar aos colegas as pequenas e insólitas histórias de seus amigos e familiares no município de Viamão, cidade satélite de Porto Alegre (sinopse baseada no resumo do Cineclick).

    O mais curioso, porém, foi saber, zapeando pela internet, que a história é baseada em personagens reais da vida de Ricardo Lilja. Muita gente fala em comentários e posts que conhece o Ricardinho, foi vizinho dele, etc. A blogueira Marjorie Jonsson contou no seu espaço: "Ricardinho é artefinalista, toca guitarra na GV, é o arranjador das nossa músicas, é responsável pelo nosso layout. Ele é o personagem, argumentista e ator do curta premiadíssimo. Ricardinho passou por 3 meses de preparação de atores para poder fazer o papel de si mesmo na telona".

    O cara tem até um blog onde posta um portifólio com suas artes finais, este aqui:  http://www.incuboweb.blogspot.com.br/. O filmete, que descobri este ano graças ao Canal Brasil, é leve e inteligente, bem roteirizado e com boas atuações amadoras. Como diz outro post que li sobre o curta: separe 21 minutos da sua vida para assistir "Os amigos bizarros do Ricardinho".



  5. Passista, Mestre-sala, Porta-bandeira, Rainha, Velha Guarda, Baianas: personagens que fizeram parte do meu cotidiano nos últimos meses, durante o pré-carnaval na Cidade do Samba. O tour involuntário que fiz por quadras de algumas das Escolas do Rio de Janeiro comprovou a força dessa manifestação cultural popular.

    Sim, porque, a despeito das transformações inevitáveis pelas quais passou o Carnaval (leia mais aqui), ele ainda possui o apelo capaz de mobilizar, e às vezes influenciar, pessoas das mais diversas camadas sociais. É uma celebração que aproxima ricos e pobres, estrangeiros e brasileiros, celebridades e anônimos, Zona Sul e Zona Norte, contribuindo em certa medida para diminuir abismos que separam esses vários “mundos”.

    “Só não vai quem já morreu”

    Repique, tamborim, surdo, caixa e pandeiro arrepiaram pela primeira vez neste pré-carnaval em setembro, pelas mãos dos integrantes da Surdo Um, na quadra da Mangueira. Era a semifinal da escolha do samba enredo que, neste ano, homenageará Cuiabá, a capital do Mato Grosso, com um patrocínio de mais de R$ 7 milhões da prefeitura da cidade.

    Torcidas organizadas defendem samba preferido

    Contrastando com as cifras exorbitantes citadas, a agremiação situada aos pés do morro da Mangueira foi a mais “comunidade” dentre as que visitei. Os moradores do bairro da Zona Norte prestigiam, em peso, formando torcidas organizadas pelo samba preferido e, ao mesmo tempo, acolhendo bem os que "vêm da Zona Sul". É de arrepiar a participação popular na tradicional Verde e Rosa de Cartola, Beth Carvalho, Chico Buarque, Alcione e tantos outros bambas.

    Na Academia do samba

    A Rainha da Bateria, Viviane Araújo, é a maior estrela da festa na quadra do Salgueiro. A celebridade se mistura aos anônimos da Furiosa e, comandada pelo mestre Marcão, toca tamborim fazendo todas as marcações e “paradinhas”, sem perder o ritmo. A simpatia e alegria da moça contagiam e deixam até as mulheres admiradas.



    É a quadra mais “pop” dentre todas aquelas que frequentei, ou seja, a que mais mistura pessoas de classes diferentes. Além de playboys e as patricinhas (esteriótipos utilizados apenas para ilustrar, mas que no fundo são tão preconceituosos quanto qualquer esteriótipo) e a comunidade em peso, centenas de gringos de todas as partes do mundo frequentam a quadra. Alguns desses estrangeiros levam até professores de dança brasileiros, na tentativa de aprender a malemolência tupiniquim. Foi pra sambar até o dia amanhecer.

    “A capital do samba que me faz sonhar”

    O bairro de Madureira e Paulinho da Viola serão os grandes homenageados deste ano pelo enredo da Portela. Ir até a capital do samba pela primeira foi representativo, pois estava num dos berços do samba carioca. O samba-enredo da escola – o melhor este ano, em minha opinião –, já saiu da Sapucaí direto pras rodas de samba Brasil afora.

    A quadra reformada recentemente tem um clima de cidade histórica, com placas de ruas fictícias homenageando integrantes, postes de luz baixos, bancos de praça, ou seja, uma verdadeira "capital do samba". Além do embelezamento, a casa da Portela também ganhou quadra de futebol e salas de aula para os projetos sociais tocados ali.

    Como diz uma amiga: “Quando entrou aquela Velha Guarda sambando eu cheguei a me arrepiar”. Tudo era belo na quadra da Majestade do Samba, desde as fantasias que, mesmo para um ensaio, eram vistosas e bem cuidadas, até os moradores de Madureira, Oswaldo Cruz e adjacências. Crianças, jovens, velhos, famílias, todos juntos sambando “feito uma reza, um ritual”.


    Videoclipe lançado esta semana pela Portela

    “Tijuca querida”

    A Escola que coleciona campeonatos nos últimos tempos e que é, todos os anos, uma das mais aguardadas na Sapucaí me decepcionou no quesito "ensaio de quadra". O som abafado e cheio de ruídos que impede o entendimento das letras e transforma a percussão da bateria em um barulho incômodo, não faz jus à agremiação que o carnavalesco Paulo Barros tem conduzido com maestria.

    O remédio foi cair no samba ao lado de familiares e amigos que foram comigo comemorar o aniversário do meu amor. Não fosse isso, talvez a noite não teria sido tão boa, infelizmente. A Rainha de Bateria da escola do Borel, Juliana Alves, sambou no meio do povo (e sambou até a última música, diga-se de passagem). Assim como na Portela, na Unidos da Tijuca o destaque foi para as iguarias que as donas preparavam e vendiam nas barracas: uma delícia.

    “Berço dourado do samba”

    Os dizeres pintados na parede debaixo de um viaduto em São Cristóvão não poderiam ser mais apropriados: "Berço dourado do samba". Noite de uma segunda-feira chuvosa e lá fui eu para o ensaio de rua da Paraíso do Tuiutí, escola do Grupo de Acesso, na qual desfilo este ano. Como chovia, o ensaio teve que ser embaixo deste viaduto. A bateria respondia de forma precisa aos comandos do mestre que fazia diferentes sinais com as mãos, cada um correspondente a uma cadência ou “parada”. Parecia um maestro regendo a sinfonia.

    Neste dia ficou ainda mais claro que o envolvimento popular com a Festa é genuíno. Pessoas da comunidade trabalhando duro pra fazer o Carnaval de uma escola pequena, a maioria delas de forma voluntária, ou recebendo muito pouco por isso. Dos coordenadores de Ala aos integrantes da comissão de frente, uma dedicação bonita de se ver. Aconteceu o que eu não esperava. E o que me decepcionou muito. A direção da escola em questão resolveu de última hora que as fantasias que seriam distribuídas para algumas pessoas, serão na verdade vendidas para outras que têm pra pagar. Ou seja, estavam precisando de componentes, mas como apareceu quem comprasse, descartaram quem estava "afim". E isso mudou minha opinião sobre o Carnaval? Não, ainda não...

    “Chão da poesia, celeiro de bamba”

    A Vila Isabel vem com tudo este ano e promete um carnaval digno de campeonato ao falar da agricultura familiar e das tradições do interior. Mais um enredo patrocinado, a escola viu seu nome envolvido em uma polêmica nos últimos dias: um dos financiadores é a Basf, empresa que produz e vende agrotóxicos (leia mais aqui).

    O patrocínio foi considerado uma contradição por associações contrárias ao uso de agrotóxicos (a Basf é produtora), uma vez que o enredo exalta o alimento produzido de forma artesanal por famílias de pequenos agricultores espalhados pelo Brasil. O repúdio se torna legítimo quando notamos que o enredo fala da proteção da terra, tão maltratada por agrotóxicos. Há que se pensar uma solução, uma vez que foram os agrotóxicos que permitiram a produção em larga escala, para alimentar a população mundial.
    Polêmicas a parte, o bairro que traz em suas calçadas desenhos de notas musicais de Noel Rosa tem recebido ensaios de rua emocionantes. O belíssimo samba (campeão em algumas eleições promovidas antes do carnaval) composto por Arlindo Cruz, Martinho da Vila, André Diniz, Tonico da Vila e Leonel é entoado na ponta da língua pelos milhares de pessoas que acompanham o desfile.

    Durante os meses que antecedem o maior Carnaval do mundo, a cidade respira samba. E quem mora por aqui e gosta acaba se contagiando. O pré foi muito bom, só não foi melhor do que será o Carnaval.

  6. O caos essencial

    25 de janeiro de 2013

    Os filmes “Efeito Borboleta” (2004) e “Corra Lola, Corra” (1998) têm em comum a linha narrativa de transformações causadas por mudanças mínimas no proceder de seus personagens centrais. Em seus panos de fundo teóricos, ambos remetem à “Teoria do Caos” (o primeiro mais explicitamente que o segundo, uma vez que até o título faz alusão ao bater de asas da borboleta, metáfora que representa a Tese).

    Aplicada primeiramente ao entendimento dos mecanismos de criação das tempestades, das torrentes e dos furacões, a Teoria do Caos foi unificada pelo meteorologista Edward Lorenz tendo como base teorias científicas de outros estudiosos. A conhecida frase "O bater de asas de uma borboleta em Tóquio pode provocar um furacão em Nova Iorque" sintetiza o conceito básico da Hipótese de Lorenz: a de que existe uma interligação oculta entre fatos aparentemente aleatórios.

    Os filmes de linhas cinematográficas divergentes convergem na ideia de que pequenas atitudes podem transformar drasticamente os acontecimentos e a vida de outras pessoas, envolvidas direta ou indiretamente com os fatos narrados. Na surpreendente ficção científica Blockbuster “Efeito Borboleta”, Evan Treborn (Ashton Kutcher) é um jovem estudante de psicologia que, enquanto criança e adolescente, sofreu de desmaios e bloqueios de memória. Após reencontro com seu amor de infância, Kayleigh (Amy Smart), Evan descobre que, ao ler seu diário, consegue enviar sua consciência adulta para o passado. Ele altera atitudes e muda completamente o seu destino, de sua namorada e amigos. Mas Evan rapidamente descobre que ter o dom de manipular o passado, não significa controlar o futuro.

    Ao se valer da Teoria do Caos como referência, o filme demonstra o que defendem Jonh Briggs e F. David Peat no artigo “Sabedoria do Caos”. Para eles a teoria não apenas se aplica aos fenômenos naturais, mas “a tudo, desde a medicina e os conflitos armados até a dinâmica social e as teorias de formação e transformação das organizações”. O caos estaria deixando de ser apenas uma teoria científica para tornar-se uma “metáfora cultural”. Além das transformações na história do filme a cada acesso que Evan faz ao seu passado, na versão em DVD, “Efeito Borboleta” apresenta dois finais diferentes possíveis (e ainda existe um terceiro final que foi censurado pela gravadora por mostrar uma espécie de “aborto”), o que coaduna com a Hipótese de que o universo é “permeado de sistemas caóticos que proporcionam uma resposta sempre criativa a um ambiente em mutação” (Briggs e Peat).

    “A sociedade moderna é obcecada pela conquista e pelo controle do mundo à sua volta e para tanto quer valer-se da ciência. Todavia, os sistemas caóticos e não-lineares – como a natureza, a sociedade e a vida de cada indivíduo – transcendem qualquer tentativa de previsão, manipulação e controle.”

    Os dois finais alternativos:






    Efeito Borboleta: Final alternativo (LEGENDADO-BR) por rodrigokleinmc


    O final censurado:


    Efeito Borboleta: Final do Diretor (LEGENDADO-BR) por rodrigokleinmc


    “Corra Lola, corra” é de outra vertente cinematográfica. Filme alemão independente rodado em 1998 em linguagem quase videoclíptica, com inserções de desenhos animados e trilha sonora alucinante. Tudo com o objetivo de traduzir a histeria que se passa nos 20 minutos que a protagonista do filme tem para salvar o namorado. Diferentemente do filme americano, neste as possibilidades de desfecho são apresentadas como se o tempo sempre voltasse 20 minutos, dando uma “nova chance” aos personagens.

    Pela sinopse, Manni (Moritz Bleibtreu), o coletor de uma quadrilha de contrabandistas, esquece no metrô uma sacola com 100.000 marcos. Ele só tem 20 minutos para recuperar o dinheiro ou irá confrontar a ira do seu chefe, Ronnie, um perigoso criminoso. Desesperado, Manni telefona para Lola (Franka Potente), sua namorada, que vê como única solução pedir ajuda para seu pai (Herbert Knaup), presidente de um banco. Assim, Lola corre pelas ruas de Berlim, sendo apresentados três possíveis finais à sua louca corrida para salvar o namorado.

    O roteiro dialoga diretamente com uma das Teses Caóticas apresentadas no artigo de Briggs e Peat. Eles questionam se a vida é simples ou complexa e respondem que as duas opções estão igualmente corretas. “O caos revela que o que parece incrivelmente complicado pode ter uma origem simples, enquanto a simplicidade pode ocultar algo de assombrosa complexidade”. À complexa situação com a qual Lola se defronta, ela escolhe soluções aparentemente simples (como pedir dinheiro emprestado ao pai), mas acaba se defrontando, por exemplo, com o fato de o pai estar tendo um caso com a secretária, o que torna a situação ainda mais intrincada.

    “Corra Lola, corra” também apresenta que mudanças mínimas no comportamento da protagonista podem ocasionar “ondas” de efeito imprevisíveis para a vida dos demais personagens da narrativa. Entretanto, nesta trama um dos fatores mais importantes é o tempo que se passa entre um telefonema do namorado e sua possível morte ao se encontrar com o chefe criminoso. Para o Caos, o tempo não é linear nem contínuo, mas composto de feixes de minúsculas descontinuidades. Ou seja, existe apenas o tempo presente e é nele que tudo transcorre. E é no tempo presente que Lola vai tomando decisões diferentes à medida que as situações vão se impondo.


    “Durante um acidente com risco de vida, o tempo parece ficar suspenso. Os eventos se sucedem em câmera lenta. Temos um estranho mundo de tempo para decidir se devemos frear ou acelerar para escapar a uma possível batida (...). Em momentos de crise, nós nos desligamos temporariamente do tempo mecânico do relógio(...).”

    A consciência de que tudo está relacionado, interconectado, e de que somos parte de uma única cadeia, se reflete, invariavelmente, na forma como o ser humano pensa e age no mundo. Todos somos feições de uma consciência coletiva: o agir de uma pessoa ou de um pequeno grupo influenciado pelas pessoas que o integra pode afetar o mundo inteiro de maneira profunda e sutil. Em outras palavras, existe uma solidariedade comum e natural entre todas as partes desse todo. Negar isso é negar o essencial.


  7. Pequeno, ouvia o refrão desta música de Chico Buarque cantado pela boca de meu pai, que repetia incessantemente: “Olha aí, é o meu guri”. Era uma de suas formas de demonstrar carinho, imaginava eu, naquela época com meus 3 ou 4 anos. Esta é, provavelmente, a minha primeira memória musical, uma lembrança que me traz bons sentimentos e uma nostalgia tremenda da minha “meninice”.

    Cresci e nunca tinha parado pra prestar atenção de fato ao que dizia toda a letra dessa música. O recorte que meu pai fazia e o gesto de afago que ela representava me deram uma memória afetiva muito boa, mas equivocada. Ouvindo um pouco mais da obra do Chico durante o ano que passou, esta música voltou a fazer parte da minha vida, agora como um curioso ouvinte da grande obra deste compositor.

    E para a minha surpresa, me deparei com uma letra de extrema crítica social. O “guri” não era eu, uma criança que teve de tudo: educação, comida, um nome, um lar e sobretudo muito amor. Ele era na verdade o menino pobre, nascido prematuro (“Não era o momento dele rebentar”), filho talvez de uma mãe solteira, analfabeta que não tinha nem documentos de identificação civil (“E eu não tinha nem nome pra lhe dar”).

    Um menino que, a despeito das condições adversas, queria vencer na vida. Dizia pra mãe que “um dia ele chegava lá”. Apesar de implícito por meio de metáforas, parece que, para realizar seus sonhos, este menino pobre, morador de uma favela (“Chega no morro”), escolheu o caminho do crime (tráfico e assaltos) pra poder realizar seu sonho.

    Esta mãe conta a história para alguém (“Seu moço”), um curioso por saber quem era o menino morto estampado na manchete de um jornal, identificado apenas pelas iniciais de seu nome. Em algumas análises que vi pela internet, falam que a mãe não queria acreditar que o filho era um “marginal” e, por isso, criou em sua cabeça uma ilusão. Com o suor do seu "trabalho" o guri dava a mãe presentes, uma bolsa com tudo dentro (talvez uma bolsa roubada), inclusive com os documentos de outra pessoa, que a mulher acreditava que pudesse identificá-la.

    Poderia também fazer a leitura de que, apesar de todos os indícios, este menino era realmente um trabalhador, que por ter origem humilde é confundido com bandido e morre por um equívoco (preconceituoso) da polícia. Já ouvimos algumas histórias assim, infelizmente.

    Algo, porém, sobre o que todos concordam é o amor desta mãe pelo seu guri. Imagino-a dizendo, com lágrimas nos olhos “Ai o meu Guri, olha aí...”. Mas, sobretudo com um amor carinhoso e incondicional daqueles que, dizem, só uma mãe consegue ter por um filho. O mesmo amor que meu pai, lá na minha tenra infância, demonstrava enquanto, olhando pra mim, cantava os mesmos versos. 


    A bela interpretação de Beth Carvalho pra essa música que eu consigo ouvir de dois jeitos diferentes.

  8. Em 2013...

    31 de dezembro de 2012

    Seja feliz

    (Arnaldo Antunes / Dadi / Marisa Monte)

    Seja feliz
    Com seu país
    Seja feliz
    Sem raiz
    Seja feliz
    Com seu irmão
    Seja feliz
    Sem razão
    Tão longa a estrada
    Tão longa a sina
    Tão curta a vida
    Tão largo o céu
    Tão largo o mar
    Tão curta a vida
    Curta a vida
    Seja legal
    Com seu amor
    Seja legal
    Sem pudor
    Seja gentil
    Com sua figura
    Seja gentil
    Sem frescura
    Tão longa a estrada
    Tão longa a sina
    Tão curta a vida
    Tão largo o céu
    Tão largo o mar
    Tão curta a vida
    Curta a vida


  9. 10 dicas de viagem para o mochileiro

    28 de dezembro de 2012

    Veja as dicas de viagem que preparei para as nossas férias no blog Oi Preguiça.

    http://oipreguica.com/10-dicas-de-viagem-para-o-mochileiro/


  10. Desde que me entendo por gente, o mundo vai acabar. De onde vem esta curiosidade do ser humano por querer saber, prever e antever o tão aguardado fim do mundo? Provavelmente de resquícios de superstição que ainda cismam em perpetuar, mesmo quando tudo parece tão fácil de explicar cientificamente. 

    Dava até pra entender lá atrás, quando a humanidade se resumia a comunidades tribais e não entendia muito bem os fenômenos naturais. Ou depois que se reuniu em feudos, depois burgos, depois cidades, quando era ameaçada por doenças desconhecidas, pestes que se alastravam sem qualquer lógica compreensível.

    Hoje em dia, porém, acredito ser algo residual que acaba virando motivo pra alguma piada ou reportagem na sessão de “comportamento” do jornal. Mesmo assim (não) teve o 'Bug do Milênio', a previsão de Nostradamus, e outras mais...

    Sempre assisti a filmes com esta temática e confesso que, vez ou outra, vem um pesadelo com imagens cinematográficas que afloram direto do meu subconsciente para perturbar meu sono. Explosões, guerras nucleares, maremotos, terremotos, extraterrestres com armas superpotentes capazes de detonar a frágil crosta terrestre, doenças desconhecidas com poder de se alastrar em tempo recorde, ou o próprio anticristo em pessoa subindo das profundezas pra destruir tudo numa batalha celestial. A imaginação dos cineastas é infinita, verdade.

    E como a imprevisibilidade é uma certeza científica tão grande quanto a ordem natural dos fenômenos, sempre existirá uma possibilidade, ainda que remota e sem conexão com alguma previsão espetacular. Os pesquisadores especialistas estimam em anos o prazo de validade do universo. Algo em torno de 5 bilhões, provavelmente por conta de alguma tempestade solar devastadora (não me perguntem se esta seria capaz de acabar com o universo todo, também fiquei intrigado e duvidando quando li esta informação!).

    A possibilidade de a vida humana se tornar insustentável, pra usar o termo da moda, também já é alarmada aos quatro cantos do planeta por cientistas que acompanham as mudanças climáticas. Seria uma destruição de longo prazo, mas que necessitaria de transformações atuais dos meios de vida e de produção. Parece existir um ponto crítico, em que a derrocada do planeta seria irreversível. Não apenas por ameaças naturais, mas ao mesmo tempo por conta de um colapso nas relações entre as nações, o que poderia detonar alguma guerra de proporções globais.

    Se é pra escolher, eu fico com esta segunda hipótese. Até porque, é muito egocêntrico por parte do ser humano imaginar que uma civilização antiga (neste caso atual, os Maias) pudesse ter previsto o fim, se estamos em um universo infinito e mal conhecemos direito o nosso próprio sistema solar. Nós, humanidade que somos, estamos precisando repensar nossas atitudes em relação ao planeta e em relação uns aos outros. Por mais simples e piegas que está afirmação possa parecer. Como já disse por aqui este ano, respaldado por especialistas que deram até algumas dicas práticas (e por isso não vou ficar me estendendo), estamos precisando repensar as formas de relações humanas e com o planeta. 


  11. Como bem escreveu Daniel Brazil em artigo publicado na eletrônica Revista Música Brasileira, dá pra encher um pen drive com gente talentosa entre os novos músicos da nossa MPB. Dá pra encher outro com músicos e bandas sem muito a acrescentar, mas sobre esses não vale a pena escrever uma linha sequer, apesar de ter perdido algum tempo ouvindo neste ano de 2012. É que falam tanto da “nova cena” e colocam todos em um patamar “indie” de “música boa” que acabo ficando curioso. Concordo com o senso comum que diz “música é gosto”, e por isso, pro meu gosto tem muita coisa sem relevância que veio pra passar, não pra ficar.

    É por isso também que nunca deixo de lado as obras musicais antigas, aquelas que já ficaram, deixaram sua marca inconfundível na música brasileira e influenciaram gerações. Gente muito boa que, por não ter sido eu contemporâneo de seu surgimento no cenário musical, acabei perdendo, e por isso “corro atrás” por gostar de música. Dos que vieram pra ficar ou já ficaram (na minha opinião de ouvinte atento), fiz uma lista com aqueles que descobri em 2012, em trabalhos novos ou antigos, mas que embalaram meus ouvidos ao longo do ano.

    Tulipa Ruiz – “Tudo tanto” é o nome do segundo álbum dessa promissora cantora (e desenhista) que emprega em sua voz e interpretação um tom lírico, mas ao mesmo tempo contemporâneo. Foi primeiramente lendo notícias sobre este, de 2012, que cheguei ao álbum de estreia da artista “Efêmera”, de 2010, que trás tesouros como a faixa título, ou a viciante e pop “Às vezes”. O disco novo, mais experimental que o primeiro, também “É” “Ok” (pra citar duas de suas melhores faixas), apesar de menos palatável.

    Thaís Gulin – Das muitas cantoras que aparecem todos os anos, nem todas coloco num patamar que considero “bom”. Entre as que valem a pena ouvir de perto, está Thaís Gulin, que alguns preconceituosos estão achincalhando pelo simples fato de ser “a namorada de Chico Buarque”. Seu som que mistura várias sonoridades e estilos musicais é original. Ela mereceu o título de “musa” do mestre Chico, não apenas pelos seus dotes físicos, mas sobretudo pelo talento evidente. O álbum de estréia “ôÔÔôÔÔôô” é boa MPB do início ao fim.

    Chico Buarque  Entre os vários artistas citados nesta lista, muitos deles são declaradamente influenciados por este poeta, escritor, cantor, compositor e “peladeiro”. Apesar de conhecer muitas de suas músicas (quem não conhece pelo menos uma), nunca tinha me dedicado tanto em ouvir sua obra. Redescobrir Chico Buarque foi prazeroso. A começar pelos seus sambas, os quais compõe com maestria, passando por álbuns mais recentes como “Chico” e “Carioca”, entre outros, fiquei impressionado em ouvi-lo dividindo o microfone com Caetano Veloso, no álbum “Juntos e Ao Vivo” de 1972.

    A Tribute to Caetano Veloso – Por falar no tropicalista, um dos melhores álbuns de 2012 foi a coletânea da Universal Music em comemoração aos seus 70 anos de idade completados este ano. Artistas brasileiros e de outros países como Marcelo Camelo, Jorge Drexler, Miguel Poveda, Seu Jorge e Beck, se uniram para cantar alguns clássicos e vários “lados B” de Caetano. É um disco pra redescobrir parte da vasta obra do cantor em interpretações e arranjos bem diferentes dos originais. Destaque para “London, London”, a música do exílio, com os Mutantes, “You Don’t Know Me”, com o grupo britânico The Magic Numbers, e a contagiante versão de Céu para “Eclipse Oculto”.

    Emerson Leal – Não parou de tocar no meu som nesses últimos meses do ano o álbum desse cantor de Salvador. “Emerson Leal é o nome dele”, disse Chico Buarque há um ano atrás sobre o cantor, prenunciando o lançamento de um álbum de estreia cheio de pérolas musicais. Repito “(o que é que te deu) De repente” algumas vezes quando ouço o disco, que traz composições em parceria com Tom Zé (“Círculo”) e Luiz Tatit (“Das dores e das flores” e “Coisa Perene”).

    Paulinho da Viola – Foi no primeiro dia do ano de 2012 que copiei pro meu pen drive parte da obra desse grande nome do samba brasileiro. Um amigo me passou, e passei o ano entre “Coração Leviano”, “Para ver as meninas”, “Onde a dor não tem razão”, “Coração da gente”,... Não é atoa que o compositor de “Foi um rio que passou em minha vida” é um dos preferidos dos novos cantores de samba Brasil afora.

    Céu – Confesso que não conseguia ouvir um CD inteiro de Céu (há músicas muito experimentais pro meu gosto). Mas é dela a voz que sempre considerei a mais original entre as cantoras da nova safra da MPB – não encontrei ninguém que soasse parecido. Pra ouví-la sempre pegava as mais sonoras de cada um dos discos da cantora e misturava em uma pasta do pendrive, pra ouvir no carro. Sempre estiveram lá “10 contados”, “Malemolência”, “Vira-Lata”, “Bubuia”, “Samba na Sola”, entre outras. Com o CD novo, "Caravana Sereia Bloom", a coisa mudou. A moça encontrou o tom e fez, sem dúvida, o seu melhor trabalho até aqui. Destaque para todas as canções!

    O Baile do Simonal – Contagiante do início ao fim, o álbum de 2011 realizado por Max de Castro e Simoninha, filhos de Wilson Simonal, foi sem dúvidas o mais tocado este ano no meu "radinho". Os arranjos dançantes que abusam dos naipes de metal dão o tom à merecida homenagem ao controverso artista. Se revezam no palco, além dos filhos do cantor, Seu Jorge, Péricles e Thiaguinho, Maria Rita, Frejat, Diogo Nogueira, Martinália, Caetano Veloso, Fernanda Abreu, Lulu Santos e Marcelo D2, entre outros. “Champignon com caviar” à moda brasileira!

    Mallu Magalhães – Há um ano atrás não cogitaria colocar Mallu Magalhães em nenhuma lista de melhores músicas  que eu fizesse. Mas aí veio o álbum Pitanga, lançado no final de 2011, uma mostra do amadurecimento da cantora. Costumava dizer que a música de Mallu era “chatinha”. A influência do marido, Marcelo Camelo, que produziu o álbum, deve ter sido decisiva para este salto de qualidade na música da cantora. Ficou mais brasileiro, mais melódico, com influências de samba, bossa, porém não descaracterizou as referências de Mallu Magalhães, do folk e do country americanos.

    Maglore – Também de Salvador vem o exemplar ‘rock’ da minha lista. Conheci só agora o álbum “Veroz” lançado em 2011 pela banda de pegada BritRock e referências de MPB. Chegou aos meus ouvidos pelo poderoso “boca-boca” da internet e ficou entre as minhas preferências. Destaque para as canções “À vezes um clichê”, “Despedida”, “Enquanto sós” e “Pai mundo” (esta, uma mistura de rock e samba-marchinha ao bom estilo Los Hermanos).

  12. Quatro jornais brasileiros se inspiraram nos traços de Oscar Niemeyer para marcar a homenagem que fizeram no dia seguinte ao de sua morte. Todas tiveram em comum a arte inspirada na "folha de papel branca" com as curvas e linhas retas marcantes do arquiteto.

    Niemeyer Correio Braziliense


    Niemeyer Estado de Minas


    Niemeyer Extra


    Niemeyer O Dia