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  1. As frases do Millôr

    29 de março de 2012

    A esse mestre das palavras, Millôr Fernandes, minha admiração com uma seleção de frases irônicas, engajadas, céticas, engraçadas, ácidas, sábias, virtuosas, polêmicas, enfim, iluminadas:

    "Em geral as pessoas que se perdem em pensamentos é porque não conhecem muito bem esse território."

    "O mal de se tratar um inferior como igual é que ele logo se julga superior."

    "Os nossos amigos poderão não saber muitas coisas, mas sabem sempre o que fariam no nosso lugar."

    "A girafa, calada, lá de cima vê tudo e não diz nada."

    "Metade da vida é estragada pelos pais. A outra metade, pelos filhos."

    "O homem é um animal que adora tanto as novidades que se o rádio fosse inventado depois da televisão haveria uma correria a esse maravilhoso aparelho completamente sem imagem."

    "De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência."

    "Por mais violento que seja o argumento contrário, por mais bem formulado, eu tenho sempre uma resposta que fecha a boca de qualquer um: vocês têm toda a razão."

    "Se uma imagem vale mais do que mil palavras, então diga isto com uma imagem."

    "O melhor movimento feminino ainda é o dos quadris."

    "Gastronomia é comer olhando pro céu."

    "Toda uma biblioteca de Direito apenas para melhorar quase nada os dez mandamentos."

    "Há homens que devem à esposa tudo o que são, mas em geral, os homens devem à esposa tudo o que devem."

    "Algumas pessoas matam. As outras pessoas se satisfazem lendo a notícia dos assassinatos."

    "Todo homem nasce original e morre plágio."

    "Eu não quero viver num mundo em que não possa fazer uma piada de mau gosto."

    "Você pode evitar descendentes. Mas não há nenhuma pílula para evitar certos antepassados."

    "Quão maravilhosas as pessoas que não conhecemos bem."

    "O mal do mundo é que Deus envelheceu e o Diabo evoluiu."

    "A ocasião em que a inteligência do homem mais cresce, sua bondade alcança limites insuspeitados e seu carácter uma pureza inimaginável é nas primeiras 24 horas depois da sua morte."

    "Você está começando a ficar velho quando, depois de passar uma noite fora, tem que passar dois dias dentro."

    "As pessoas que falam muito acabam sempre contando coisas que ainda não aconteceram."

    "Não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora."

    "O cara só é sinceramente ateu quando está muito bem de saúde."

    "Com muita sabedoria, estudando muito, pensando muito, procurando compreender tudo e todos, um homem consegue, depois de mais ou menos quarenta anos de vida, aprender a ficar calado."

    "Cada ideologia tem a inquisição que merece."

    "Sim, do mundo nada se leva. Mas é formidável ter uma porção de coisas a que dizer adeus."

    "O desespero eu aguento. O que me apavora é essa esperança."

    "Você pode desconfiar de uma admiração, mas não de um ódio. O ódio é sempre sincero."

    "O coração tem imbecilidades que a estupidez desconhece."

    "Esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar."

    "Anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor."

    "Paz na terra aos homens de boa vontade. Isto é, paz para muito poucos."

    "O que esse país realmente precisa é que alguém apague a luz no fim do túnel."

    "Toda alegria é assim: já vem embrulhada numa tristezinha de papel fino."

    "E convém não esquecer que bitributação é quando arrancam seis vezes o dinheiro do cidadão. Pois o normal já é tributação."

    "Não devemos resisitir às tentações: elas podem não voltar."

    "Viver é desenhar sem borracha."

    "Viva o Brasil onde o ano inteiro é primeiro de abril!"

    "Depois de bem ajustado o preço, a gente deve sempre trabalhar por amor à arte."

    "Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono."

    "Dizem que o Governo, depois de proibir ao cidadão comum usar armas, vai proibir ao Exército possuir armas de uso exclusivo dos traficantes."

    "Nunca faço planos pro futuro, mas ele faz cada um pra mim..."

    "Ser gênio não é difícil. Difícil é encontrar quem reconheça isso."

    "Certas coisas só são amargas se a gente as engole."

  2. Coluna "Sempre na estrada" (2)

    22 de março de 2012

    Confira novo texto da coluna 'Sempre na estrada' no blog Oi Preguica!.

  3. A lição de Hugo Cabret

    13 de março de 2012



    “Monsieur Labisse me deu um livro. Ele(o livro) tem um propósito. Tudo tem um propósito. Até as máquinas:os relógios dizem as horas;os trens levam a lugares. Servem seus propósitos. Por isso as máquinas quebradas me deixam triste. Não servem a seus propósitos. Talvez seja assim com as pessoas. Perder o nosso propósito é como estar quebrado. Eu imaginava o mundo inteiro como uma grande máquina. Máquinas nunca vêm com todas as peças extras, você sabe. Elas sempre vêm com a quantidade exata de que necessitam. Então percebi que, se o mundo inteiro era uma grande máquina, eu não poderia ser uma parte extra. Eu tive que ficar aqui por algum motivo.”

    Este é talvez o diálogo mais marcante no filme A INVENÇÃO DE HUGO CABRET, do diretor Martin Scorsese, que assisti no último final de semana. É um pensamento que Hugo divide com a amiga Isabelle do alto do relógio da estação ao olhar para Paris, em mais uma das bonitas cenas do “filme infanto-juvenil” para adultos.

    A fala nem é tão original assim, uma vez que já ouvimos inúmeras vezes em livros, cinema, televisão ou palestras, reflexões sobre “o propósito de cada um de nós no mundo”. Mas se encaixa perfeitamente dentro da metáfora criada para o enredo do filme que conta a história de um menino órfão que trabalhava cuidando das engrenagens dos relógios de uma estação de trem. O que mais marcou, porém, foi a cena real que presenciei na saída da sala do cinema.

    Mãe e filha que estavam sentadas na mesma fileira que eu e assistiam empolgadas ao longa, vencedor de 5 prêmios Oscar, acabaram fazendo do diálogo entre Hugo e Isabelle um momento de aprendizado de uma lição. Já durante o filme a filha, que devia ter uns 4 ou 5 anos, fazia perguntas e observações como esta: “Olha mamãe: ele gostou dela e ela gostou dele”, durante a engraçada cena em que o inspetor da estação tenta se aproximar da florista da estação com um sorriso forçado.

    Ao sair da sessão a mãe aproveitou a deixa e perguntou à menina: “Você viu filha? Todos nós temos um propósito no mundo.” Ao que a filha indagou: “Onde mamãe?”. “No filme”, respondeu a mãe. A menina lembrou empolgada: “Vi! E qual é o meu propósito, mamãe?”. Deu pra imaginar a ponderação da mãe num desses momentos em que a criança faz uma pergunta difícil, não deu?Depois de uma breve pausa a mãe respondeu: “Você vai descobrir com a vida, minha filha”.

    É uma pergunta que geralmente fazemos pela primeira vez lá pelos anos da adolescência e que aquela menina acabou antecipando por causa do filme. E talvez fosse a resposta mais simples e palpável para uma criança.

    Mas eu, com essa minha mania de pensar, tentei encontrar uma resposta para A GRANDE QUESTÃO DA VIDA, e eis um esboço: “Você vai procurar e em vários momentos vai acreditar ter encontrado. Mas depois vai ver que aquilo não te basta. Vai encontrar novamente e ficar satisfeito por um tempo. Depois vai acreditar que precisa procurar mais. E vai continuar procurando, talvez pelo resto de sua vida. Provavelmente por que não deve existir apenas um grande propósito, ou ainda, por que o nosso grande propósito no mundo seja a busca constante por um”.



  4. (Auto) Negação

    7 de março de 2012

    Não demonstrarei meus afetos displicentemente. Nem falarei o que penso quando acreditar ser importante. Não falarei sobre as notícias da revista de fofocas. Nem tampouco dos altos e baixos da economia e da política. Me calarei por discrição. Não deixarei tocar meu celular e nem falarei mais em reuniões quando achar necessário expor minha opinião. Mesmo assim, não emudecerei. Não. Não olharei com desejo salutar as belas moças que passam num doce balanço a caminho de qualquer lugar. Nem pra minha moça olharei com desejo verdadeiro e apaixonado. Nem cego serei. Ser romântico será proibido, e cético em relação aos meus sentimentos também o será. Negarei crer em Jesus, na Eucaristia ou em Nossa Senhora Maria. E fé na ciência, e todas as suas provas científicas, tampouco terei. Negarei todo sinal da cruz e ave-maria (pura superstição). E em todo avanço comprovado nas descobertas da evolução das espécies desacreditarei. Não enxergarei música. Nem escutarei a voz de Deus nas paisagens mais belas. Nem pensar. Não acolherei as pessoas que se aproximam de mim, pois elas podem não ser aquilo que eu penso. Independente de raça, credo, ou gênero dentre os diversos que existem, não as acolherei. Nem todas as pessoas são tão boas quanto eu cismo em notar que são. “E o mundo não é cor de rosa” (tentam sempre me convencer). Não terei convicção de mais nada. E nem tão pouco relativizarei. Não sonharei, pois quem sonha não pisa os pés firmes no chão da realidade. Nem à dura e cruel realidade me apegarei. Não serei eu: inquieto, contraditório. Uma negação de mim; niilista às avessas. Pois nem sei na verdade quem eu sou.

    P.S.: A palavra “não” (advérbio de negação) tem a força de um verbo de ação. Daqueles que podem paralisar, fazer pensar, obstruir e até intensificar o desejo pelo proibido se transformando em afirmação. Desde pequenos ao ouvirmos da boca de nossos pais, o “não” tem a força de nos enquadrar naquilo que é socialmente aceito. É de fato importante para a educação. Mas o “não” sem reflexão se torna uma imposição acéfala a qual respondemos automaticamente.

    *Ouvindo “Eu não sei na verdade quem eu sou” (Fernando Anitelli - O Teatro Mágico) e “Garota de Ipanema” (Tom Jobim e Vinicius de Moraes)


  5. Panela do samba

    4 de março de 2012

    Escrevo este post ouvindo uma boa seleção de um canal do youtube. Ao ver e ouvir os vídeos notei que todos os artistas deste estilo parecem se conhecer, pois em algum momento eles se encontram pra cantar alguma coisa juntos. Os velhos sambistas recebem os velhos amigos, ou abrem a "casa" pra jovens no estilo. Os jovens estão sempre fazendo alguma parceria, compondo uns pros outros, cantando em shows e dvd's. Todos estão sempre, de alguma forma, homenageando aqueles sambistas que já morreram. É uma grande panela onde até se misturam outros estilos: rockeiros, artistas da mpb e do axé estão sempre se infiltrando e fazendo alguma parceria. Por essas e outras que na minha lista de belos duetos da música brasileira não podia faltar o samba. Parece que ele existe mesmo pra reunir as pessoas.


























  6. Primeiro Destino

    27 de fevereiro de 2012

    Estou colaborando, à partir de hoje, com o blog da amiga Vera Paiva, com textos sobre viagens e dicas para "mochileiros". O primeiro da coluna "Sempre na estrada" já está no ar. Você pode conferir clicando no link:


    Espero que gostem!

  7. Coração a batucar

    17 de fevereiro de 2012

    Maria Rita (composição: Alvinho Lancellotti/Davi Moraes)

    Batuque o coração para me ver chegar
    Que eu abro meu cordão quando você passar
    E o nosso bloco sobe a ladeira da ilusão
    De pé no chão...
    Batuque o coração que a gente é carnaval!
    E nada irá conter essa folia
    Atrás do nosso amor
    Até quando esse samba tocar
    Vem marcando em nosso peito
    Coração a Batucar
    Pra gente ser feliz
    Pra gente desfilar por essa vida

  8. Rodrigo Amarante e Marcelo Camelo fazem parte de uma das bandas mais influentes dos últimos 15 anos. Los Hermanos é referência para várias bandas e cantores da cena musical atual. Fazem parte do início do cenário de propagação cultural pelas redes sociais sem a intermediação da grande mídia. O boca a boca da internet.

    Mas o que Los Hermanos tem a ver com Duetos e Parcerias? Explico. É que para os fãs da banda (para os fãs! Não para a banda) sempre existiu uma diferenciação nítida entre os dois Hermanos. É como se houvesse duas bandas distintas em uma só. Quantas vezes estes mesmos fãs não se pegam debatendo quem é o melhor: Amarante ou Camelo? Quais são as melhores músicas: as de um ou as de outro?

    Para quem gosta do som é fácil distinguir quando algo tem a mão desse ou daquele. Eles são diferentes. O jeito de cada um de conceber música também é diferente. Tanto que saíram para projetos solo tão distintos um do outro. Porém, nos projetos solo, apesar de muito bons, fã que é fã sentiu que faltava alguma coisa.

    Isto porque, é a parceria entre os dois que faz da banda o que ela é. Musicalmente, Amarante e Camelo se completam e fazem o som dos Hermanos soar tão bem e atingir tantas pessoas. E formar uma legião de fãs tão “fiéis” e “dedicados”. Não digo que os outros integrantes não sejam importantes para a banda, mas é a personalidade forte dos “líderes” que faz a marca Los Hermanos tão singular.

    É por isso que eles figuram na minha lista de belos duetos/parcerias da música. Escolhi uma canção em que os dois cantam juntos - algo difícil de encontrar, pois a divisão é tanta que quase nunca dividem os vocais. A canção Lisbela é um xote gostoso, composto por Caetano Veloso e José Almino para o filme Lisbela e o Prisioneiro.



    Eu quero a sina de um artista de cinema
    Eu quero a cena onde eu possa brilhar
    Um brilho intenso, um desejo, eu quero um beijo
    Um beijo imenso, onde eu possa me afogar
    Eu quero ser o matador das cinco estrelas
    Eu quero ser o Bruce Lee do Maranhão
    A Patativa do Norte, eu quero a sorte
    Eu quero a sorte de um chofer de caminhão
    Pra me danar por essa estrada, mundo afora, ir embora
    Sem sair do meu lugar
    Pra me danar, por essa estrada, mundo afora, ir embora
    Sem sair do meu lugar
    Ser o primeiro, ser o rei, eu quero um sonho
    Moça donzela, mulher, dama, ilusão
    Na minha vida tudo vira brincadeira
    A matinê verdadeira, domingo e televisão
    Eu quero um beijo de cinema americano
    Fechar os olhos fugir do perigo
    Matar bandido, prender ladrão
    A minha vida vai virar novela
    Eu quero amor, eu quero amar
    Eu quero o amor de Lisbela
    Eu quero o mar e o sertão
    Eu quero amor, eu quero amar
    Eu quero o amor de Lisbela
    Eu quero o mar e o sertão

  9. Zé e Paulinho

    31 de janeiro de 2012

    Quando o assunto é fazer um bom dueto, Marisa Monte é professora. Desde o início de sua carreira que a cantora nos brinda com belos encontros musicais. Velha Guarda da Portela, Novos Baianos, Ed Motta, Adriana Calcanhoto, Renato Russo, David Byrne, e os tribalistas Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown, com quem ela tem um CD e mais uma lista de músicas espalhadas por projetos isolados e álbuns.

    Mas são os encontros com Paulinho da Viola que têm proporcionado os melhores momentos desta grande artista. É o encontro do samba elegante de Paulinho com a voz brilhante de Zé (o apelido de Marisa), interpretando músicas que são poesia pura.

    Nesta seleção, trechos dos documentários "O Mistério do Samba" e "Meu Tempo é Hoje":








  10. Os acústicos

    26 de janeiro de 2012

    A fórmula já é conhecida e batida. Uma banda decadente (ou não) do rock Brasil dos anos 80 grava seus antigos sucessos em versões acústicas, com instrumentos sofisticados. Chama uma meia dúzia de convidados para cantar junto e pronto: sucesso de vendas e, às vezes, um novo fôlego pra carreira.

    Alguns desses acústicos acabaram proporcionando encontros memoráveis que valem a pena ser citados na minha lista. Um deles é o da banda paulista Ira! com a roqueira baiana (!) Pitty. O Ira! é um grupo que definitivamente não faz a minha cabeça. Melodias muito pesadas, letras com temática urbana ao extremo e um vocalista mediano. Tem o Edgar Scandurra, que é uma exceção, com uma das melhores guitarras da música brasileira. Mas com Ira! a coisa não funciona (a banda anunciou seu fim em 2007).

    Pitty é das poucas roqueiras da atualidade que conseguiram fazer sucesso no mainstream. Foi considerada por Lobão, a última cantora (até então, em 2011) com a atitude genuinamente rock ‘n’ roll. Provavelmente ele estava falando da característica “revoltadinha” da baiana que desde o início de sua carreira vem quebrando alguns paradigmas (o fato de ser uma cantora baiana é talvez o maior deles). Das letras com tom de rebeldia, como faziam os roqueiros à moda antiga. E claro, das características, digamos, físicas de uma verdadeira rockstar: maquiagem forte, roupas de tons escuros e alguns metais e tatuagens pelo corpo.

    O fato é que essa música, Eu quero sempre mais, cantada junto com Pitty salva o álbum acústico do Ira! A letra é boa, a voz e interpretação da moça são ótimas, e a junção com a voz regular de Nazi soou muito bem. Fez com que essa canção figurasse entre as mais tocadas no ano de 2005 (ECAD) e até hoje bem executada em rodas de viola por aí.




    Outros bons encontros saídos dos acústicos:

    Rita Lee e Milton Nascimento – Mania de Você





    Kid Abelha e Lenine – Na rua, na chuva, na fazenda





    Gal Costa e Zeca Baleiro – Vapor barato/Flor da pele





    Sandy e Júnior (!) e Marcelo Camelo – As quatro estações (nunca pensei que citaria essa dupla infantil em uma lista de boas canções, mas com a participação de Camelo o negócio funcionou muito bem)





    Titãs e Fito Paez – Go Back






  11. Resolvi criar nova lista de canções. Dessa vez com os melhores duetos e parcerias musicais da minha playlist. Um dueto ou uma parceria é a reunião de músicos por vezes tão distintos, por vezes tão semelhantes, que transformam músicas já bonitas, em momentos memoráveis e únicos. Às vezes bastam dois banquinhos, um violão para que aquele instante de sintonia se materialize numa obra inesquecível para nós.

    Pra começar, não poderia ser diferente. A música se chama "Dueto", é de Chico Buarque, cantada por ele e Paula Toller (do Kid Abelha), num especial exibido pela Band, em 1985. Letra que fala da parceria no amor, inteligente como só o Chico sabe fazer. Exemplo de junção de dois universos musicais totalmente diferentes, que quando reunidos, conseguem deixar as diferenças de lado. A própria Paula fala desse embate, que ela considera burrice:

    "Recebi a fita com a música que era difícil. O nome dela era Dueto e ele costumava cantar com a Nara Leão. Eu tive duas horas para decorar a música. Melodia difícil, aquelas coisas do Chico cheias de palavras parecidas, mas todas diferentes. Cheguei lá, esperei à beça, chegou na hora de apresentar, ele olhava prum lado e eu pro outro. Ele é supertímído, eu então nem se fala. Depois ficamos tocando violão, tomando vinho, comendo pão com queijo, foi ótimo. Repito, essa história toda de verdadeira MPB versus roqueiros ou popeiros sem talento e embromadores é cascata e burrice."

    O resultado é um belo encontro de gerações musicais. Dá pra reparar que a timidez foi a tônica da parceria pelos olhares furtivos de Chico e Paula, mas que fazem todo o charme da cena. Quase sem jeito com a presença um do outro, mas com profissionalismo evidente. Destaque para a voz da Paula no início da carreira – fase em que sua afinação e timbre eram bastante criticados – e que aqui ficou doce e afinadíssima numa música cheia de nuances sutis.




    Dueto
    (Chico Buarque)

    Consta nos astros, nos signos, nos búzios
    Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
    Serás o meu amor, serás a minha paz
    Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
    Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
    Serás o meu amor, serás a minha paz
    Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
    Mas se o destino insistir em nos separar
    Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
    Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
    Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
    Se dane o evangelho e todos os orixás
    Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz

    Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela
    Está no seguro, pixaram no muro, mandei fazer um cartaz
    Serás o meu amor, serás a minha paz
    Consta nos mapas, nos lábios, nos lápis
    Consta nos Ovnis, no Pravda, na Vodca

  12. Humm... É... Crise?

    10 de janeiro de 2012

    Todos os jornais falam, as conversas em algumas rodas também acabam tocando nesse assunto: a crise financeira global. Mas traduzir o que realmente está acontecendo no mundo não é tarefa muito fácil. Leio diariamente sobre o tema por motivos profissionais, e nestas leituras encontrei um artigo publicado no jornal Valor Econômico bem interessante e didático que explica os motivos e tenta adiantar algumas das possíveis consequências da tão citada "Crise". Durante o texto coloquei alguns hiperlinks para esclarecer alguns termos. Boa leitura!



    A "Grande Recessão"

    Por Yoshiaki Nakano*

    A crise financeira do subprime e o colapso do sistema financeiro com a quebra do Lehman Brothers desencadeou a chamada "Grande Recessão". Mas ela é um fenômeno distinto da crise financeira em si. Com a crescente incerteza, as economias dos países centrais saem da normalidade e passam a ser regidas por comportamentos induzidos pela incerteza, medo, pânico etc., nos quais prevalecem a lógica da desalavancagem, da "balance sheet recession" e da demanda de ativos com sinais trocados gerando instabilidades nesses mercados. Como entender o que acontecerá como a economia global nesse contexto? A experiência histórica similar, a "Grande Depressão de 1890", a "Grande Depressão de 1930" e a crise japonesa dos anos 90, nos permite fazer analogias e algumas conjecturas sobre o que acontecerá nos próximos anos.

    A atual "Grande Recessão" não deverá ser tão profunda quanto a "Grande Depressão de 1929 a 1939", afinal aprendemos alguma coisa com ela, mas será tão abrangente e duradoura quanto e deverá ter significado histórico similar ao da "Grande Depressão do final do século XIX.

    Será abrangente no sentido de ser uma crise global, diferentemente da crise japonesa, ou seja, é uma crise do próprio processo de integração e globalização financeira promovido pela plutocracia financeira que vem exercendo poder, tanto nos Estados Unidos como na Europa (talvez nem tanto na Alemanha). A "Grande Recessão" está centrada nos Estados Unidos e Europa, e já vem causando uma crise de governabilidade, mas tem também causas e dimensão internacional de forma que nenhum país ficará inume a seus efeitos de uma forma ou outra.

    Será duradoura porque como a crise dos anos 30 e a crise japonesa ela afeta tanto os credores/emprestadores como os devedores/tomadores de empréstimos. O Federal Reserve (Fed, banco central americano) aumentou brutalmente a oferta de moeda e reduziu a taxa de juros para próximo a zero procurando salvar credores/emprestadores, subsidiando-os. Assumindo a função de emprestador em última instância, absorve ativos problemáticos no seu balanço, mas não resolve o problema dos devedores, que tiveram sua riqueza financeira destruída pela crise, e agora têm que pagar as dívidas.

    A política monetária pode também resolver o problema de liquidez do credor/emprestador, que detém ativos emitidos pelos devedores, já que o banco central está disposto a prover recursos com juros zero para que continuem carregando os ativos e assim fazendo por longo período poderá mascarar, amenizar e, com o tempo suficientemente prolongado, até resolver o problema de insolvência.

    Do outro lado, tanto as famílias como as empresas que se endividaram excessivamente durante o boom de crédito que antecedeu a crise, têm que desalavancar, aumentando a poupança (deixando de consumir e de investir produtivamente) para pagar a dívida acumulada. A "Grande Recessão" é o resultado dessa redução persistente da demanda agregada. Aqui a política monetária não tem efeito, pois somente uma política fiscal ativa pode recolher o aumento de poupança privada e reinjetá-la de volta no sistema econômico como demanda, para reanimar a economia. E essa foi a reação de todos os governos. Mas ao executar essa política, o déficit público aumenta e, com isso, a dívida publica se transforma também em crise da dívida soberana. A reação política da sociedade contra a classe dirigente será quase imediata. Ela está perdendo tanto a credibilidade como legitimidade, abrindo espaço para a ação de grupos radicais, tornando praticamente impossível manter uma política fiscal para tentar sustentar o nível de atividade econômica.

    Ao contrário, os investidores perceberam que os governos estão com a dívida crescendo rapidamente e perdendo legitimidade e vão não só deixar de financiar os seus déficit, mas vão tentar desfazer dos títulos públicos com consequente elevação da taxa de juros. Na medida em que a política fiscal fica travada, podemos ter uma nova contração no nível de atividade, agravando o problema de déficit publico. Assim, somente quando a segunda contração for suficientemente profunda e prolongada a trava política da política fiscal será removida.

    Qual o significado histórico da "Grande Recessão"? Em primeiro lugar essa é uma crise centrada nos Estados Unidos e Europa, portanto do núcleo do sistema global. Internamente, nesses países, foi a ascensão da plutocracia financeira, com a aliança do setor industrial, no início dos anos 1980 que permitiu a desregulamentação do sistema bancário e consequente introdução de inovações financeiras e explosão de crédito que gerou a crise. O poder do setor industrial já estava em declínio com a desindustrialização. Agora, tanto os Estados Unidos como a Europa, nas próximas décadas, deverão ter como prioridade absoluta a revitalização das suas economias, voltando-se para dentro eventualmente com medidas protecionistas, para enfrentar a ascensão da China.

    Somado a isso, a perda de credibilidade e de legitimidade da sua classe dirigente, a governança global mudará radicalmente. Viveremos nas próximas décadas um interregno com a ausência de um centro que ditava as regras do jogo, exercia liderança política e ideológica e impunha um pensamento econômico.

    A "Grande Recessão" será um longo processo de declínio da hegemonia americana, de um paradigma histórico e a gradual ascensão da China. Com o colapso de um paradigma, de um modelo econômico (uma variedade de capitalismo) que prevaleceu plenamente nas últimas três décadas, o que virá no seu lugar?

    *Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), é professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getulio Vargas - FGV/EESP.