Em suma, é uma narrativa cheia de esperança de que “um dia” a “justiça será feita” para os familiares e ex-prisioneiros políticos nativos do país da América Central. A situação na Guatemala não é diferente da de vários países latino-americanos entre 1970 e 80, quando o fantasma do comunismo aliado a interesses de grupos políticos locais tomou conta, fazendo surgir vários regimes absolutistas.
No entanto, a singularidade deste episódio está justamente na atitude quase heróica da própria diretora do filme, que saiu dos Estados Unidos com o objetivo de documentar os acontecimentos na Guatemala. Como ela mesma conta, o que motivou as filmagens foram as informações de que o Tio Sam financiaria todas as atrocidades cometidas pelos líderes do Exército no país. “Não conseguiria entrar no país não fosse a ajuda de colegas jornalistas que tinham credenciais para trabalhar no país”, diz.
As imagens gravadas no início dos anos 80, período mais duro da ditadura na Guatemala, seriam utilizadas nos anos 2000 em um tribunal internacional instituído pelo governo da Espanha. Imagens de valas onde eram encontrados centenas de corpos, repressão do exército a manifestantes nas ruas e até entrevistas exclusivas com os generais e líderes da ditadura, que achavam a moça americana uma repórter que não representava ameaças. Tudo documentado.
Ao final das investigações e depois de ouvidos depoimentos de várias vítimas e familiares, porém, o tribunal só poderia chegar a um veredicto depois de ouvir os principais acusados de serem os mandantes do genocídio. O governo da Guatemala, ainda contaminado por grupos ligados aos acusados, porém, se negaria a deportá-los para serem ouvidos. Do final da edição do documentário pra cá, pouca coisa mudou.
Ao contrário do que eu pensava ao ler o nome do filme na programação do festival, “Granito” traz, na verdade, a proposta de ser um ‘grãozinho de areia’ na defesa da verdade e da justiça (antes de assistir havia feito relação do nome do filme com a rocha que em português leva o nome de Granito, o que acabou sendo um interessante ‘fator surpresa’ na hora em que assisti ao filme).
Melhor do que assistir ao documentário sem pagar um centavo por isso, foi poder participar de um bate-papo com a própria documentarista. No fim da sessão ela nos falou um pouco mais sobre a experiência que teve com o povo da Guatemala durante os vários anos de convívio com extermínios, desaparecimentos, prisões e a corrupção. Uma das vitórias alcançadas após a finalização do filme, segundo contou Yates, foi a proibição dos acusados de viajarem para fora da Guatemala. O bloqueio, porém não é nada comparado aos crimes cometidos ainda impunes.
